Cercada de expectativa, polêmica e interesse impulsionado pelo embate jurídico que tentou barrar sua exibição, a série documental "Escravos da fé – Os Arautos do Evangelho" chegou ao público na HBO Max. Dividida em três episódios, a produção destrincha denúncias envolvendo os Arautos do Evangelho.

A organização religiosa, fundada no Brasil, é reconhecida pela Igreja Católica como associação de fiéis, embora tenha conflitos até com o próprio Vaticano. O foco da série, porém, é a sede localizada em Caieiras, no interior de São Paulo, e os relatos de ex-integrantes que descrevem práticas abusivas e um ambiente de controle rígido.

A série parte da investigação que vinha sendo acompanhada há anos. Segundo Adriana Cechetti, diretora de produção de desenvolvimento de não ficção da Warner Bros. Discovery no Brasil, o tema surgiu dentro do mapeamento contínuo de histórias do gênero true crime.

"É um dos nossos pilares de conteúdo", diz. "Essas denúncias já estavam no nosso radar desde 2015, 2016, e voltaram com força quando fomos procurados para desenvolver a história."

A construção da narrativa exigiu longo processo de apuração. A diretora-geral Cassia Dian destaca o cuidado em validar cada informação.

"A gente passou mais de um ano em pesquisa, garantindo que todas as denúncias tivessem documentação e fossem tratadas com responsabilidade. Não só pelo tema sensível, mas pela necessidade de rigor jornalístico", afirma.

Abuso sexual

O documentário faz questão de delimitar seu objeto. "Não estamos falando da Igreja Católica como instituição, mas de uma associação específica de fiéis", pontua Dian, destacando que a própria série traz esse esclarecimento em sua narrativa ao longo dos episódios.

Entre os pontos mais graves levantados estão denúncias de abuso psicológico, físico e sexual, além de relatos de manipulação de crianças e adolescentes. Segundo os depoimentos reunidos, jovens eram levados para a instituição com promessas de educação e formação, mas encontravam uma realidade marcada por disciplina rígida, trabalho interno e afastamento das famílias.

"A gente encontrou pessoas muito traumatizadas", afirma Allan Lico, vice-presidente de criação e conteúdo da Endemol Shine Brasil, responsável pela produção. "O que torna essa história urgente é justamente o fato de envolver crianças e adolescentes, que ainda estão em formação e são mais vulneráveis a esse tipo de influência."

O documentário aborda a estrutura da organização, apontada como altamente hierarquizada e centrada na figura de João Clá Dias, líder religioso que teria papel central na condução do grupo. A relação com o pensador Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP (Tradição, Família e Propriedade), também é explorada como base ideológica do movimento.

A produção inclui materiais públicos divulgados pelos próprios Arautos, após a organização recusar participar diretamente das gravações. Sobre a disputa judicial para impedir a exibição, a equipe diz que não houve nenhum impacto sobre o conteúdo.

"Não mudamos absolutamente nada", afirma Lico. "Tudo o que está ali é baseado em fatos já documentados ou relatos públicos."

A narrativa avança de forma cronológica, começando pela apresentação da instituição até chegar às denúncias mais recentes e seus desdobramentos legais. A estratégia, segundo os produtores, foi essencial para contextualizar um grupo ainda pouco conhecido do grande público.

Após a repercussão do documentário, os Arautos do Evangelho se manifestaram em nota publicada em seu site oficial. No texto, a associação critica a abordagem da produção e questiona seus objetivos.

"É curioso observar como o olhar do mundo, por vezes faminto por escândalos e novidades, torna-se míope e acaba se deixando levar por ilusões", diz um trecho.

"Escravos de amor"

O grupo rebate as acusações. "Querem nos 'denunciar' por sermos o que sempre proclamamos aos quatro ventos: escravos de amor", afirma a nota. Em outro momento, a associação declara que "nem a fumaça de um documentário, nem o peso de acusações vazias poderá apagar o brilho da nossa Verdadeira Devoção".

A nota questiona as produtoras envolvidas. "Qual o intuito da HBO e da Warner Bros. Discovery com este documentário? Inaugurar uma nova era de perseguição ao cristianismo?"

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"ESCRAVOS DA FÉ – OS ARAUTOS DO EVANGELHO"

Primeira temporada, com três episódios. Série disponível na plataforma HBO Max. 

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