“Milagre dos peixes” (1973) é considerado até hoje um dos discos mais ousados da música popular brasileira. O sexto álbum de Milton Nascimento teve oito de suas 11 canções censuradas.

Ao invés de reescrever ou suavizar o conteúdo, Bituca tomou uma decisão radical e retirou as letras das músicas que foram alvos de cortes. O silêncio imposto pela ditadura militar (1964-1985) virou linguagem e o álbum, considerado experimental à época, representava um ato de resistência.


Com o status de clássico da música brasileira, “Milagre dos peixes” é frequentemente homenageado. A mais recente das homenagens será nesta sexta (27/3) e sábado, no Teatro Feluma, com show da cantora Margareth Reali, tendo o maestro e violoncelista Jaques Morelenbaum e o guitarrista Wilson Lopes como convidados. Lopes, vale dizer, foi diretor musical de Milton Nascimento nas últimas três décadas.


“Não vamos reproduzir o disco na íntegra”, avisa Margareth. “Selecionamos umas 14, 15 músicas dos dois álbuns – ‘Milagre dos peixes’ e ‘Milagre dos peixes (Ao vivo)’, lançado no ano seguinte, com mais faixas – que foram compostas pelo Milton”, diz ela. “Eu queria muito apresentar as minhas versões dessas canções, que são tão complexas. Sem contar que é inédito um projeto de ‘Milagres dos peixes’ na voz de uma mulher”, comenta.


Quando o álbum foi lançado, Bituca vinha do sucesso de “Clube da Esquina” (1972), em parceria com Lô Borges. Esse disco se destacou pela ousadia e capacidade de síntese em faixas cujas influências vão dos Beatles ao jazz, passando pela música erudita, canção brasileira e sonoridades latino-americanas.


Nas letras de “Clube da Esquina”, especialmente as que foram assinadas por Fernando Brant e Márcio Borges, aparece um universo poético marcado por amizade, memória, pertencimento e deslocamento. Há uma presença constante da infância, da paisagem e da estrada, em textos que transitam com naturalidade entre o cotidiano e a imaginação.


Censura

“Milagre dos peixes” seguiria nessa mesma toada, não fosse o desmonte por causa da censura e a reação de Milton. O silenciamento forçado fez com que a utopia abordada no disco anterior fosse violentamente interrompida.


Nas faixas “Escravos de Jó”, “Carlos, Lucia, Chico e Tiago”, “A chamada”, “Cadê”, “Pablo nº 2”, “Tema dos Deuses”, “Hoje é dia de el rey” e “Última sessão de música” Bituca insere vocalizes, gritos, sussurros e falsetes. Entre sons de bichos em “A chamada”, ele grita ao fundo: “Eu tô cansado”.


“A música do Milton, por si só, é diferente do comum, é cheia de de harmonias”, observa Margareth. “Por isso o Clube da Esquina se tornou um movimento tão reverenciado, principalmente pelos jazzistas de outros países. São coisas incomuns que eles criaram”, diz.


“Então, eu busco ter propriedade artística nos elementos musicais, saber executar da forma como Milton criou. Não queria apresentar versões simplificadas, como outros artistas apresentam. Queria fazer aquilo que fosse mais original.”


Margareth Reali, Jaques Morelenbaum e Wilson Lopes serão acompanhados por Beto Lopes (guitarra, vocais), Eneias Xavier (baixo), Lincoln Cheib (bateria), Luadson Constâncio (teclados) e Tatta Spalla (violão e vocais).

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“MILAGRE DOS PEIXES”
Show de Margareth Reali, Jaques Morelenbaum e Wilson Lopes. Nesta sexta-feira (27/3) e sábado, às 20h, no Teatro Feluma (Alameda Ezequiel Dias, 275, 7º andar, Centro). Ingressos à venda por R$ 30 (1º lote / inteira) e R$ 80 (2º lote / inteira), na bilheteria do teatro e pelo Sympla. Meia-entrada na forma da lei.

 

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