Aos 96 anos, Fernanda Montenegro está vivíssima. Na próxima quinta-feira (26/3), lança a comédia "Velhos bandidos"; no próximo semestre, a série "Emergência 53", sobre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu; e ainda planeja uma turnê pelos teatros do país todo com monólogos de seus autores favoritos.
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A atriz não caracteriza nenhum desses projetos como despedida — dos cinemas, da televisão ou dos palcos —, um chamariz publicitário recorrente em projetos de artistas de sua idade.
Não quer se despedir do público, afinal. Mas nem por isso deixa de refletir sobre a morte — agora, em diálogo com o filósofo romano Cícero e seu texto clássico Sobre a Velhice, que pretende levar à cena.
"Ele tem uma visão sobre a velhice e a morte extremamente corajosa. É de se ler, na minha idade. Tem uma frase que está me tocando muito: nós temos que olhar a morte de cima", ela diz. "Pensei: acho que vou ler este homem no teatro para me ajudar a entender a partida."
Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, a atriz reflete ainda sobre a presença do Brasil no Oscar, o teatro, o cinema e a política brasileira.
"Vem aí uma proposta de um possível governo estrangulador. É preciso pensar duas vezes se é melhor um governo que talvez não tenha sido tão amplo — talvez porque não tenha podido ser — ou cair nas mãos de um perigo de vida ou morte."
Seu projeto mais recente, "Velhos Bandidos", é uma comédia dirigida pelo filho, Claudio Torres, na qual interpreta, ao lado de Ary Fontoura, um casal que planeja assaltar um banco para reaver um dinheiro que lhes era devido. O filme estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (26/3).
Já pelo título, "Velhos Bandidos" sugere um tom de humor. Como é possível fazer comédia com personagens idosos sem cair em estereótipos preconceituosos?
Isso depende do diretor e do roteirista, no caso o Claudio Torres. Ele tem um humor especial. Não é de fazer cócegas debaixo das axilas. Tem sempre uma certa justiça social, apesar da bandidagem. Os personagens só têm uma saída: a bandidagem.
O Brasil nunca esteve tão presente no Oscar, e não há como falar disso sem lembrar que a senhora foi a primeira brasileira indicada na área de atuação. Existe até hoje uma indignação do público pela derrota para Gwyneth Paltrow. Como a senhora vê essa reação?
Não é derrota. Ao ser nomeado, você passa a fazer parte de uma corte, de uma aristocracia, dos iluminados. Só sendo nomeado seu valor como artista, economicamente, vai às alturas. Às vezes, no Brasil, parece que perdeu a vida, não é mais ninguém. Como? Se o filme é nomeado ao Oscar, ele já está na aristocracia cinematográfica.
Como a senhora vê o clima de Copa do Mundo que tomou os brasileiros no Oscar?
Nós merecemos, sabe? Não há investimento no processo da criação cultural. É um esforço da nossa vocação. Nosso cinema tem uma linguagem e uma estrutura que, mesmo sem bilhões de dólares, não deixa de existir, de ter público e de ser reconhecido além-fronteira. Você às vezes não pode fazer plano e contraplano, decupar como é clássico em qualquer filmagem de qualidade, porque isso significa mais investimento, então a gente vai como pode — e vai bem.
Depois do desmonte do Ministério da Cultura no último governo, como a senhora avalia a política cultural atual do Brasil?
É uma hora complexa. Se a gente começar a falar do que não está sendo atendido no país... A gente está sempre esperando que haja um prato de comida, um socorro educacional e cultural e o atendimento à saúde. Sempre faltou essa configuração ser atendida na dimensão que poderia ter sido.
Sempre que acaba um governo e outro se propõe — ou que o mesmo se repropõe —, você tem que fazer um levantamento do que chegou de verdade a levantar o país. Mas só se trabalha muito no ano que precede a eleição. Estou fazendo uma avaliação geral. É uma cultura política brasileira.
Vem aí uma proposta de um possível governo estrangulador. É preciso pensar duas vezes se é melhor um governo que talvez não tenha sido tão amplo — talvez porque não tenha podido ser — ou cair nas mãos de um perigo de vida ou morte.
Em paralelo ao filme, a senhora planeja uma turnê pelos palcos do Brasil e costuma dizer que o teatro é sua casa. O que ele oferece que o cinema e a TV não conseguem proporcionar?
Comunhão física. Você prepara alguém dentro de você — um personagem —, trabalha com um elenco, ou na solidão de um monólogo, e leva esta criação para o próximo, que tem que sair de casa, tomar uma condução, entrar em um espaço, esperar, e quase sempre pagando. Isso ainda existe muito e não vai acabar nunca. Não há nada mais humanizado do que o teatro, porque tudo na vida é uma ação teatral. Tudo é uma ponte com o próximo. Há uma necessidade do ser humano com o outro. Mesmo numa pré-guerra mundial como a que está acontecendo.
E a senhora quer ir para o Brasil inteiro com o teatro, certo?
Fisicamente eu já andei melhor, já vi melhor, já ouvi melhor. A digestão já se faz com mais facilidade. Toda a estrutura cerebral já tem lá seus buraquinhos. Mas, por um milagre — que eu não quero saber como nem porquê —, acordo e canto. Enquanto der.
Tem algum papel que ainda não fez, um sonho que não se realizou?
Não sei se devo falar ou não. Eu tenho na cabeça alguns referenciais culturais fundamentais, mas o que está vindo é Cícero, o filósofo romano, porque ele tem uma visão sobre a velhice e a morte extremamente corajosa. É de se ler, na minha idade. Tem uma frase que está me tocando muito: nós temos que olhar a morte de cima.
O que é olhar a morte de cima?
A gente tem que olhá-la de cima porque, quanto mais você vive, mais mortes vê. Viver muito é também uma perda imensa. Temos que ter a esperança de que ninguém que pertença a nós, principalmente herdeiros do nosso sangue, venha a faltar. Quando li essa frase do Cícero, nessa minha hora, pensei: acho que vou ler este homem no teatro para me ajudar a entender a partida.
A senhora disse, na coletiva de imprensa de "Velhos Bandidos", que não tem mais futuro. O que quis dizer com isso?
Cada dia, nessa minha hora de vida... Eu caminho para cem anos, gente. O que eu falo é de sobrevivente, no melhor sentido do termo. Quando falo que não tenho futuro, é que preciso viver o presente. Só vivendo o presente que a gente fica vivo para talvez chegar ao futuro. Acordou, cantou, entendeu? Essa frase eu digo para mim mesma a vida inteira. Porque se não acordar, não canta.
Pensa em se aposentar?
Não tenho mais resistência física para enfrentar o teatro. Você tem que chegar lá e dar conta, através de seu físico, de sua cabeça, de seu sentimento, todo dia, às tantas horas, aos fins de semana. Mas tem o público. Por causa daquela palavra que é necessária. A fala de Simone de Beauvoir, que fiz para 15 mil pessoas no parque Ibirapuera, ainda é uma coordenada fundamental, como também a de Nelson Rodrigues, que é um memorialista sobre tudo, sobre o que é o Brasil.
Como foi gravar "Velhos Bandidos" com tantos colegas?
Tem uma transcendência. Meus filhos souberam o que é viver com a presença de atores desde que nasceram. Em Velhos Bandidos, Claudio foi buscar uma geração que vai de 60 a quase 100, em um conjunto de contemporâneos de quem ele ouviu falar, viu em cena e viu dentro de casa. Ele faz os velhos bandidos se reencontrarem. Salvos e até comendo três vezes por dia. Sobreviventes. É de uma sensibilidade muito grande.
Não estou justificando a bandidagem desses personagens, porque é uma bandidagem que não é bandidagem. A gente está vivendo um momento em que a estrutura governamental está na mão do crime. Não estamos vivendo isso no Brasil? Está todo o mundo esperando para ver qual será a saída de uma justiça em cima dessa criminalidade. São os verdadeiros bandidos.
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Acho que já falei até demais. Tem muita coisa aí para acontecer em torno do meu ato profissional. É acordar e cantar.
