A galeria Genesco Murta, do Palácio das Artes, se transforma, a partir desta terça-feira (17/3), em um bunker onde os sobreviventes do fim do mundo preservam sua cultura e suas tradições.

Esse é o cenário de “Afroapocalíptico”, novo espetáculo que o Grupo dos Dez apresenta, dentro das comemorações por seus 15 anos de trajetória. Com direção de Rodrigo Jerônimo e de Ana Paula Bouzas, a montagem promove o cruzamento das artes cênicas com as artes visuais.


A proposta é que o espectador viva uma experiência artística imersiva e sensorial. O público é dividido em dois grupos e conduzido por um labirinto de instalações sonoras e visuais montadas dentro da galeria.

A guia desse percurso é uma capitã de guarda de congado, vivida pela atriz Kátia Aracelle, que contracena com Jerônimo, cujo personagem é um cético que questiona, com certo cinismo, essa sobrevida após o fim do mundo.


Em meio a tambores, texturas, bombardeios, objetos do reinado e cheiros de ervas, os visitantes são apresentados tanto às tradições do congado mineiro quanto às tragédias humanas.

Responsável pela instalação sonora e pela direção musical, Bia Nogueira, que assim como Jerônimo é integrante do Grupo dos Dez desde sua fundação, diz que o embrião de “Afroapocalíptico” remonta a 2015 e parte de uma angústia sua em relação ao derretimento das camadas de gelo no Ártico.


“Esse derretimento estava liberando metano, que foi o gás responsável pela segunda ou terceira extinção em massa no planeta Terra, há milhares de anos. Fiquei pensando que era o início do fim do mundo e disse para o Rodrigo que tínhamos que tratar disso”, conta.

Ela explica que, diante dessa provocação, ele se pôs a escrever sobre o apocalipse, tendo como tese central a ideia de que o mundo começou a acabar quando a primeira pessoa foi escravizada na África e transformada em mercadoria.


Congado

Bia recorda que uma primeira experiência do que viria a ser “Afroapocalíptico” ocorreu em uma galeria em São Paulo, em 2015. “Quando Rodrigo foi escrever a dramaturgia, estava pensando na cultura popular, no congado e no que é importante para nós, como artistas negros.

Nesse bunker montado na galeria Genesco Murta, Kátia, que é mesmo capitã de congado, é uma guardiã dessa tradição, uma figura que pergunta: que mundo acabou? O da nossa cultura está aqui, estamos preservando, resistindo”, diz.


Ela destaca que a dramaturgia, escrita por Jerônimo em parceria com Marcos Fábio de Faria, é fincada na ideia de preservar o que há de mais humano, o que pode representar um novo começo. “Na concepção dos congadeiros, a vida humana não acaba, porque não somos só matéria”, ressalta.

Logo no início da encenação, essa capitã de reinado vivida por Kátia conduz os últimos sobreviventes – no caso, o público e o personagem de Jerônimo – para conhecer, no interior do bunker, suas armas de resistência.


Os dois grupos de espectadores vivenciam, então, uma experiência multilinguagem de cerca de 40 minutos de duração. Após as sessões do espetáculo, as instalações permanecem abertas para a visitação.

“À medida que o público adentra e vai sendo levado para o fundo da galeria, ele vai entendendo as motivações dessa guardiã que o conduz”, diz Bia, acrescentando que esse percurso é acompanhado por uma trilha musical que também conta uma história.


Pesquisa musical

“Somos um grupo que, desde a origem, pesquisa o musical tipicamente brasileiro, então a trilha está inserida na dramaturgia. A música em 'Afroapocalíptico' também é um objeto de arte, faz parte da exposição, assim como a instalação com as referências do congado”, pontua.

Uma contribuição importante para o espetáculo é a da cantora e pesquisadora da cultura afro-mineira Júlia Tizumba, que atua como assistente de direção. Ela contribui com uma seleção de “tesouros”, segundo Bia.


“São cânticos, ritmos, danças, símbolos e elementos do reinado que podem servir como faróis para a construção de um mundo de mais igualdade e dignidade para todas as pessoas”, diz.

Júlia também está ao lado de Ana Paula Bouzas na materialização desses saberes no corpo dos atores, na descoberta da espacialidade e na criação da encenação. “Ela é uma assistente de direção que esteve muito presente durante todo o processo, junto com a Ana Paula e o Rodrigo”, comenta Bia.


Comemoração na estrada

As comemorações pelos 15 anos do Grupo dos Dez tiveram início com uma temporada em Rio Branco, no Acre. No início deste mês, o grupo apresentou em BH o espetáculo “Madame Satã”, que estreou no final de 2015.

Depois da temporada de “Afroapocalíptico” na capital mineira, a trupe segue para o Rio de Janeiro com “Madame Satã” e, na sequência, circula por capitais do Norte e Nordeste, encenando também o espetáculo “Dandara para todas as mulheres”, de 2020.

A companhia pretende estrear, ainda este ano, o espetáculo “A feira”, que discute a reforma agrária no Brasil.

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“AFROAPOCALÍPTICO”
Temporada de estreia do espetáculo do Grupo dos Dez, desta terça-feira (17/3) até 29/3, com apresentações de terça a domingo, às 19h, na galeria Genesco Murta do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Acesso gratuito. Além das sessões do espetáculo, as instalações ficam expostas até 5/4l, com visitação de terça a sábado, das 9h30 às 21h, e aos domingos, das 17h às 21h.

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