Com Otto Lara Resende (1922-1992), o jornalista e escritor Humberto Werneck diz ter aprendido várias coisas. Entre elas, o verbo “despiorar”. Pois foi justamente isso – “despiorar” – que ele garante ter feito nos contos escritos entre 1965 e 1977 que integram o livro “Pequenos fantasmas”, relançado neste sábado (14/3), às 11h, na Quixote Livraria e Café, pela editora Seja Breve.


O livro saiu pela primeira vez em 2005. “Foi uma coisa meio fora dos planos”, conta o jornalista e escritor mineiro. “Eu trabalhava com Murilo Rubião no Suplemento Literário entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970. Nessa época, escrevia pelos cotovelos. Então, o Rubião me disse que iria publicar meus contos pela Imprensa Oficial”, lembra.


Werneck, no entanto, mudou para São Paulo. Largou a namorada e o emprego no Suplemento e começou nova vida como jornalista na capital paulista, deixando de lado a ideia de publicar o livro de contos.

Mas, em 2005, ele se decidiu. “Eu precisava me ‘livrer’ daquele livro”, diz, brincando com os verbos “entregar”, em francês, e “livrar”, em português. “Reuni esses contos em livro e publiquei 500 exemplares, que foram assinados e distribuídos. Criei até uma editora, chamada Novesfora”, acrescenta.

Alguns exemplares dessa primeira edição de “Pequenos fantasmas” podem ser encontrados em sebos por preços altíssimos – no site da Estante Virtual, eles variavam entre R$ 220 e R$ 230. A nova edição, contudo, traz um conto inédito. Escrito em 1977 e engavetado até então, “A invasão” fecha a antologia, apresentando certa afinidade do autor com o realismo fantástico de Murilo Rubião.

APOSENTADORIA

No conto, um engenheiro que sempre morou em hotéis decide comprar uma casa poucos dias antes de se aposentar. Ele escolhe o imóvel, faz a mudança e, ao planejar os móveis, um carregamento inteiro chega à sua porta com os objetos imaginados. Tudo pago.

Bastava imaginar que as coisas chegavam. Não apenas coisas, mas também pessoas. No início, era ótimo. Mas, com o passar do tempo, o homem perde o controle e já não se sente mais à vontade dentro de sua própria casa. Sente-se sufocado, preso em um ouroboro insólito que consome toda a liberdade, autonomia e descanso que a aposentadoria deveria lhe garantir.

“A invasão” foi o único conto do livro que Werneck escreveu depois de se mudar para São Paulo. Os outros nove foram produzidos quando ele ainda morava em Belo Horizonte e trazem marcas da vida provinciana da capital mineira nos anos 1960. É o caso do bedel que atiça a imaginação das garotas de um colégio interno em “Do terceiro andar”, do garoto sentado com os braços envolvendo os joelhos no quintal de casa em “O menino no quintal” e dos velórios dentro das casas, retratados em “O doloroso dever”.

Este último, aliás, chega a ser quase descrição fiel do que aconteceu quando a avó paterna de Werneck morreu. No conto, enquanto os familiares resolvem os trâmites do enterro, um rapaz é encarregado de escrever o convite fúnebre. Diante da tarefa, ele praticamente se esquece da pessoa morta, preocupado apenas com o uso correto dos pronomes.

“Isso realmente aconteceu comigo. Fui eu que escrevi o convite fúnebre quando minha avó morreu. Mas hoje, ao reler o conto, acredito que eu me tratei muito mal nessa história, dando a entender que estava insensível a tudo o que acontecia à minha volta”, brinca o jornalista.

SEJA BREVE

“Pequenos fantasmas” sai pela novíssima editora Seja Breve, de Cadão Volpato e Bernardo Ajzenberg. Criada no ano passado, ela nasceu com o objetivo de colocar no mercado livros “curtos, pequenos, bonitos e relevantes”, conforme explica Volpato. “São livros para serem lidos de uma sentada, embora permaneçam na cabeça por muito mais tempo, e funcionam como antídoto para o veneno da dispersão que marca a leitura do nosso tempo”, afirma.

Também foram lançados pela editora, entre outros títulos, “A quase morte da democracia brasileira”, de Eugênio Bucci; “Eu te amo, cretino”, de Milly Lacombe; “Lugares para chorar no Recife”, de DJ Dolores; “O príncipe do boxe”, de Fábio Altman; “Despaixão”, de Paula Lopes Ferreira; e “Notícias do trânsito”, de Cadão Volpato.

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“PEQUENOS FANTASMAS”
• De Humberto Werneck
• Editora Seja Breve
• 80 páginas
• R$ 61,90, nas livrarias ou no site sejabreve.com.br
• Lançamento neste sábado (14/3), às 11h, na Quixote Livraria e Café (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi). Na ocasião, o autor vai conversar com o escritor e gestor cultural Afonso Borges.

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