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Estado de Minas

Projeto mostra história e lugares onde Murilo Rubião morou em BH

Espaços de Memória marca dos 30 anos de morte do escritor mineiro Murilo Rubião e ressalta a relação dele com Belo Horizonte


13/09/2021 04:00 - atualizado 13/09/2021 06:58

Murilo Rubião na esquina da Augusto de Lima com Espírito Santo: escritor referência do realismo fantástico também morou no Centro da capital (foto: Humberto B. Nicoline/Acervo Escritores Mineiros UFMG)
Murilo Rubião na esquina da Augusto de Lima com Espírito Santo: escritor referência do realismo fantástico também morou no Centro da capital (foto: Humberto B. Nicoline/Acervo Escritores Mineiros UFMG)

Na próxima quinta-feira (16/09), completam-se exatos 30 anos da morte do escritor Murilo Rubião e, para marcar a data, está em curso o projeto Espaços de Memória, que, capitaneado por sua sobrinha, a jornalista e editora Sílvia Rubião, consiste na instalação de placas alusivas nos lugares onde ele morou.

São cinco endereços escolhidos para ganhar essa identificação. Três deles já estão com as placas: na Rua Leopoldina, 822, no Bairro Santo Antônio, e nas ruas Trifana, 529, e do Ouro, 777, ambas na Serra. Os dois locais restantes, que ainda vão ganhar a placa, são um prédio na Rua Goitacazes e outro na Avenida Augusto de Lima, ao lado do Edifício Maletta, ambos no Centro da cidade.

Prédio na Rua Leopoldina, no Bairro Santo Antônio, é um dos locais que já têm a placas alusivas ao escritor mineiro (foto: FOTOS: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Prédio na Rua Leopoldina, no Bairro Santo Antônio, é um dos locais que já têm a placas alusivas ao escritor mineiro (foto: FOTOS: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Placa do projeto Espaços de Memória, que marca os 30 anos de morte de Rubião, já está afixada em prédio da Rua Trifana, na Serra
Placa do projeto Espaços de Memória, que marca os 30 anos de morte de Rubião, já está afixada em prédio da Rua Trifana, na Serra
Sílvia diz que a homenagem – que ela entende como a demarcação de uma paisagem humana ou de uma geografia íntima – se justifica porque, diferentemente de muitos de seus pares, que partiram para Rio de Janeiro ou São Paulo, Murilo Rubião escolheu ficar em Belo Horizonte, cidade aonde chegou quando tinha 7 anos, vindo de sua terra natal, Carmo de Minas (que, na época, tinha o nome de Silvestre Ferraz).
 
“Talvez ele até seria mais conhecido e reconhecido se, como a maioria de seus contemporâneos na literatura, tivesse ido para o Rio ou São Paulo, que era o eixo cultural do país naquele momento. Mas ele resolveu ficar e escrever toda obra dele aqui, então tinha mesmo esse amor pela cidade. Ele trabalhou muito pela cultura em Belo Horizonte e em Minas Gerais”, diz, destacando que Rubião desempenhou um papel quase que de secretário da Cultura, num momento em que ainda não havia Secretaria de Cultura.
 
Considerado a grande referência do realismo fantástico em língua portuguesa, Murilo Rubião participou da criação da Escola Guignard, da qual foi o primeiro diretor, da Fundação de Artes de Ouro Preto, do Palácio das Artes, da Imprensa Oficial e do Suplemento Literário, que, na esfera do jornalismo e da gestão cultural, talvez tenha sido seu feito de maior reverberação. Sílvia acredita que tanto os lugares em que o escritor morou quanto aqueles em que trabalhou ajudam a contar um pouco da sua história e da história da cidade.

EFERVESCÊNCIA CULTURAL “Os endereços todos têm uma história para contar, e mostram o percurso de vida dele”, diz. O primeiro lugar que o abrigou, logo quando chegou a Belo Horizonte, foi um sobrado na Rua Goitacazes. Posteriormente, essa casa foi demolida e sua família mudou-se para o prédio em frente. Já na década de 1940, Rubião foi morar no Bairro Serra, onde ocupou mais de um endereço. “Naquele momento, ele estava interessado numa vida mais tranquila. A Serra era um bairro mais afastado, tinha muitas chácaras, que eram quase casas de campo. Ele morou ali um tempo, depois veio para o Centro da cidade, muito em função do trabalho como jornalista”, conta Sílvia.
 
Esse período no Centro da cidade, ela relata, foi de muita efervescência cultural. “Ele tinha uma vida boêmia intensa ali, com os amigos que moravam por perto. O quarteirão do Edifício Maletta reunia muito intelectuais, havia o Suplemento Literário na esquina da Augusto de Lima com a Espírito Santo e, mais abaixo, na Rua da Bahia, havia a Gruta Metrópole, que ele também frequentava muito”, pontua, acrescentando que o projeto em curso se propõe a valorizar esses espaços e contar a história da cidade e de seus moradores.

GRUTA METRÓPOLE Sílvia conta que, à medida que foi percorrendo os lugares onde o tio havia morado, encontrou pessoas que conviveram com ele, muitas delas crianças à época. “É gente que se lembra da figura dele frequentando o prédio, sempre com balas nos bolsos; era um hábito que ele tinha, porque gostava muito de crianças”, diz. É precisamente o caso da jornalista Lenora Rohlfs, que morou no mesmo prédio que o escritor, na Rua Leopoldina, no Bairro Santo Antônio. Ela recorda que as crianças do pequeno edifício de três andares e seis apartamentos e outras da vizinhança o chamavam de tio Murilo, porque era uma figura afável, carinhosa, e também por causa das balas e pirulitos que costumava distribuir.
 
“Esse prédio foi construído por um bando de intelectuais malucos. Meu pai, Zacarias Barbosa, médico e artista plástico, era um deles. Essa turma costumava tomar cerveja na Gruta Metrópole. Foi assim, tomando cerveja, que eles resolveram construir um prédio. Murilo estava nessa turma também. Ele foi morar no apartamento 301. A gente passava no corredor e escutava a máquina de escrever frenética, o tempo todo. Vira e mexe ele vinha aqui em casa mostrar os contos que escrevia para papai”, recorda Lenora, que segue morando no mesmo endereço.
 
Ela diz se lembrar com carinho de um episódio curioso que, de certa forma, se relaciona com os rumos que sua vida tomou. “Quando eu tinha 6 ou 7 anos – e não podia, portanto, nem supor que viria a ser jornalista –, propus para os amigos de fazermos um jornal, e o primeiro entrevistado seria o tio Murilo. Ele topou, e a única pergunta que fiz para ele foi: Tio Murilo, você é pintor?. Ele caiu na gargalhada. Eu tinha essa ideia porque ele e meu pai trocavam muitos quadros”, conta.

NO CINEMA Com uma obra relativamente enxuta – são apenas 33 contos, que ele escreveu e reescreveu ao longo da vida –, Murilo Rubião ocupa um lugar único na literatura brasileira e mantém, nos dias de hoje, uma influência muito abrangente. Suas obras seguem sendo adaptadas para outras linguagens artísticas, como o cinema ou as artes cênicas. O novo filme do cineasta Helvécio Ratton, “O lodo”, é baseado no conto homônimo de Rubião. Totalmente rodado em Belo Horizonte, com atores locais – do Grupo Galpão, principalmente –, tendo Eduardo Moreira como protagonista, o longa foi finalizado no ano passado, mas sua estreia foi suspensa por causa da pandemia.
 
“Estamos esperando a liberação de um edital da Ancine. ‘O lodo’ está sendo distribuído pela Cinearte, que tem muitas salas em Belo Horizonte, então estamos aguardando uma volta maior do público aos cinemas. Queremos estrear nas salas de exibição antes de levar para o streaming”, diz Ratton, que não chegou a ter um contato pessoal com Rubião, mas diz se lembrar dele circulando pela cidade, em locais como o saguão do Edifício Maletta ou o Restaurante Casa dos Contos.
 
“Quis rodar o filme todo em Belo Horizonte e só com atores locais porque isso tem muito a ver com a escolha do Murilo de permanecer morando aqui. O personagem do Eduardo Moreira circula muito pela cidade. Lendo os contos do Murilo, você visualiza muitos lugares de BH. Acho importante levar isso para as telas. É um filme extremamente belo-horizontino”, destaca. Ratton diz que o projeto do longa começou a ganhar forma há cerca de cinco anos, mas que seu interesse pela obra de Rubião vem de muito tempo atrás.
 
“Vários companheiros cineastas tinham vontade de filmar alguma coisa do Murilo, mas nunca realizaram. Há uns cinco anos mergulhei na obra dele e cheguei a escrever uma série a partir dos contos, antes de decidir filmar ‘O lodo’, que é uma história que me atraiu muito, por ter nuances. Tem um tom de absurdo, que me interessa muito, e ao mesmo tempo tem um lado de thriller psicológico, com uma verdade que se revela, uma porta que é arrombada para que se tenha acesso à verdade. Tem também um humor ácido típico do Murilo”, detalha, acrescentando que o longa teve uma recepção muito boa nas duas ocasiões em que foi exibido, nas mostras de cinema de São Paulo e de Tiradentes.

Inspiração também nos palcos

"O pirotécnico Zacarias", espetáculo do Giramundo, é baseado na obra homônima de Murilo Rubião (foto: Marcos Malafaia/Divulgacao)

O Grupo Giramundo também recorreu a Murilo Rubião para produzir seu mais recente espetáculo, “O pirotécnico Zacarias”, que foi levado aos palcos em 2019 e acaba de ser adaptado para o cinema, com estreia prevista para dezembro deste ano, dentro do festival de animação Mumia. Diretor da montagem, Marcos Malafaia diz que a ideia de encenar Murilo Rubião se deveu tanto a uma sugestão do então secretário de Estado de Cultura Angelo Oswaldo, para marcar o centenário de nascimento do escritor, celebrado em 2016, quanto ao gosto pessoal dos integrantes do Giramundo pela obra de Rubião.
 
“É uma escrita favorável, tem ressonância com o teatro de bonecos, por esse aspecto fantástico. Foi um longo percurso de construção da ideia até ter o ‘Pirotécnico’ montado”, diz. Malafaia ressalta que o aprofundamento na obra do escritor revelou vários aspectos muito interessantes relativos à sua personalidade e à sua arte. Um deles, ele aponta, é o fato de Rubião ter produzido, de forma isolada, o realismo fantástico no Brasil. “E sem que esse gênero viesse de uma escola, digamos assim. Parece que o realismo mágico vem da experiência dele, da forma como ele se relacionava com a própria vida, porque tem o paradoxo dessa riqueza criativa dentro de uma rotina relativamente mecânica, de burocrata. Isso o aproxima da obra do Kafka”, considera.
 
O realismo fantástico no Brasil foi um “movimento de um homem só”, segundo Malafaia. Ele salienta que o gênero teve representantes célebres em outros países, como a Argentina, e que a literatura latino-americana é, de modo geral, muito identificada com essa vertente, em função de nomes como Cortázar ou García Márques, mas que Rubião sempre lhe pareceu uma voz única. “O surrealismo dele não é como o dos colegas, onde fatos extraordinários acontecem de um modo completamente absurdo. Ao contrário, a literatura dele é toda lógica, a linha de desenvolvimento é toda mecânica, mas dentro desse mecanismo parece que vazam os acontecimentos absurdos. E a vida não deixa de ser assim também, com um vazamento de caos dentro da ordem aparente”, opina. (DB)
 


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