Três décadas depois do acidente que matou os integrantes dos Mamonas Assassinas, o impacto cultural do grupo ainda desperta uma pergunta recorrente entre fãs, músicos e pesquisadores da música brasileira: o que teria acontecido com a banda se a trajetória não tivesse sido interrompida em 2 de março de 1996? 

Fenômeno dos anos 1990, o quinteto formado por Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Sérgio Reoli e Samuel Reoli conquistou o Brasil em poucos meses com uma mistura incomum de rock, humor escrachado e letras irreverentes. Canções como “Pelados em Santos” e “Robocop gay” rapidamente se tornaram parte do repertório popular do país.

O sucesso meteórico, no entanto, foi interrompido quando o avião que levava a banda de Brasília (DF) para Guarulhos (SP) caiu na Serra da Cantareira. A tragédia chocou o país e transformou o grupo em um dos capítulos mais marcantes da história da música brasileira.

O que faz os Mamonas tão especiais?

Para o jornalista, escritor e autor do livro “Mamonas Assassinas: blá, blá, blá - a biografia autorizada”, Eduardo Bueno, o sucesso dos Mamonas foi resultado de uma combinação rara entre talento, carisma e o momento cultural do país. Segundo ele, a banda conseguiu capturar algo profundamente brasileiro.

“Eles tinham uma capacidade muito grande de rir de si mesmos e do país. Aquilo era irreverente, debochado e extremamente popular. Era uma forma de humor que conversava diretamente com o público”, conta.

Bueno lembra que, naquela época, parte da crítica cultural não levou o fenômeno tão a sério. “Conheci a música dos Mamonas do mesmo jeito que o Brasil conheceu em 1995: foi uma avalanche sonora que tomou conta das rádios, das TVs e das crianças. E a crítica musical especializada, da qual eu fazia parte, rejeitou completamente”, lembra.

Naquele momento, ele era editor-executivo do jornal Zero Hora, em Porto Alegre (RS), e responsável pelo caderno de cultura. Segundo o jornalista, muitos profissionais da imprensa viam a banda como algo passageiro.

“As primeiras matérias sobre eles nem saíam nas páginas de crítica musical. Ficavam nas editorias de comportamento ou cidade. A gente achava que aquilo era bobagem”, pontua. Com o tempo, o próprio jornalista diz ter revisto essa posição — algo que define como “mea-culpa”.

Para Bueno, o sucesso do grupo também esteve ligado à capacidade de misturar referências culturais e musicais diversas. “O Dinho tinha um carisma inacreditável. E teve também a mão de ouro do produtor Rick Bonadio, que percebeu que aquele deboche e aquelas piadas eram muito brasileiros. Eles dialogavam com várias tradições da cultura brasileira. Pegavam influências diferentes e transformavam em algo novo. Era uma afronta com deboche. Eles tinham uma coisa muito rara: conseguiam agradar crianças, adolescentes e adultos ao mesmo tempo”, declara. 

Os shows também eram parte essencial do sucesso, trazendo música, teatro, humor e improviso. “Depois a gente percebeu que havia méritos musicais ali. O Bento era um bom guitarrista, o Dinho era um excelente vocalista, e a base rítmica funcionava muito bem”, elogia. 

E se eles estivessem vivos?

A pergunta que atravessa gerações também divide opiniões. Para Eduardo Bueno, o sucesso inicial certamente continuaria por algum tempo, mas talvez a banda não mantivesse a mesma fórmula indefinidamente.

“O segundo disco certamente venderia muito, porque eles estavam muito bombados. Mas acho que a piada começaria a se repetir”, avalia. 

Segundo ele, com o passar dos anos, o vocalista Dinho poderia até seguir uma carreira solo. "Ele tinha talento para se reinventar”, opina. 

Entre fãs e músicos, outras hipóteses também aparecem. Nélio Antônio de Paiva, fã e vocalista do projeto tributo Mamonas Replay, acredita que o carisma de Dinho poderia levá-lo para além da música.

“Acho que o Dinho poderia ter virado um grande apresentador de televisão. Ele tinha uma presença muito forte”, aposta. 

Na opinião dele, a banda talvez não permanecesse junta por décadas. “Não tem como fazer besteirol por 30 anos seguidos. Talvez eles mudassem o estilo ou cada um seguisse um caminho”, imagina. 

Joana Carvalho, uma das criadoras do bloco carnavalesco Atenção, Creuzebeck, afirma que a proposta da banda era justamente questionar preconceitos por meio da sátira e que esse espírito deveria seguir com os músicos. 

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“Eles não eram preconceituosos. O que faziam era uma crítica escrachada aos preconceitos da sociedade da época. (...) Cara, eles seriam escrachados do mesmo jeito, com certeza, mas com outras letras, com outras músicas e fazendo muita festa”, comenta.

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