O escritor português António Lobo Antunes morreu nesta quinta-feira (5/3), aos 83 anos. A informação foi confirmada pela editora Dom Quixote, responsável por grande parte da publicação de sua obra. Considerado um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, o autor construiu uma trajetória marcante, com mais de quatro décadas de carreira, dezenas de livros e leitores em diversas partes do mundo.
"Foi com profunda tristeza, e ainda a recuperar do choque, que recebemos a notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus leitores e admiradores", disse a editora em publicação nas redes sociais.
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“Ficam hoje mais pobres a cultura e a literatura portuguesas. Persistirá, forte e desafiante, a sua palavra”, lamentou.
Com uma obra traduzida para várias línguas, Lobo Antunes publicou títulos de destaque como “Conhecimento do inferno”, “Manual dos inquisidores”, “Boa tarde às coisas aqui em baixo” e “Eu heide amar uma pedra”. Em suas obras, ele desenvolveu um universo literário próprio, marcado por narrativas fragmentadas, múltiplas vozes e uma escrita exigente que ajudou a renovar a ficção portuguesa contemporânea.
Frequentemente apontado como um dos grandes candidatos ao Prêmio Nobel de Literatura, o escritor também era conhecido pelo rigor no processo criativo. Costumava escrever à mão, com caligrafia miúda, antes de passar os textos a limpo em folhas A4.
Entre suas frases célebres está: “são precisas muitas mulheres para esquecer uma mulher inteligente”.
Segundo a Dom Quixote, a editora trabalha em um novo livro do autor e anunciou a publicação, em abril, de um volume inédito de poesia reunindo textos escritos ao longo da vida.
Trajetória
Nascido em Lisboa em 1942, Lobo Antunes se formou em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969, sendo especialista em psiquiatria. Trabalhou no Hospital Miguel Bombarda antes de se dedicar integralmente à literatura, em 1985.
A estreia na ficção ocorreu com “Memória de elefante”, publicado em 1979, seguido no mesmo ano por “Os cus de Judas”. Parte do trabalho foi inspirado na experiência vivida durante a Guerra Colonial Portuguesa, na qual serviu como médico em Angola entre 1971 e 1973.
Ao longo da carreira, recebeu diversas distinções, entre elas o Prêmio Camões, em 2007, considerado o mais importante da literatura em língua portuguesa.
A morte do escritor gerou repercussão imediata em Portugal. O governo português anunciou um dia de luto nacional em sua homenagem e vai homenageá-lo com a atribuição do Grande-Colar da Ordem de Camões, uma das maiores honrarias do país.
O presidente Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte do autor e destacou que Lobo Antunes deixa “uma bibliografia vasta, visceral e sofisticada”, marcada por experiências como a guerra e a prática clínica da psiquiatria.
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Também prestaram homenagem o primeiro-ministro Luís Montenegro e a ministra da Cultura Margarida Balseiro Lopes, que classificou o escritor como um “intérprete sensível e incomparável da condição humana”.
