Entrevistado do programa “EM Minas”, da TV Alterosa e Portal Uai, exibido no último sábado (28/2), o cantor e compositor Telo Borges quer dar continuidade ao legado musical da família e, para tanto, vai reunir diversos parceiros em uma apresentação que compila grandes sucessos do Clube da Esquina, no Palácio das Artes.

Na entrevista a seguir, ele fala de como, ainda muito jovem, teve uma música, “Vento de maio”, gravada por Elis Regina e das muitas parcerias e turnês com os expoentes do movimento musical que projetou Minas Gerais para o mundo.

Marilton fala que você é o mais difícil dos irmãos Borges. Como é isso?
Nessa vida de correria, de estar sempre viajando, nem sempre conseguimos estar junto dos queridos que gostaríamos de estar. Mas isso não quer dizer que eu seja difícil, pelo contrário.

Perdemos recentemente o Lô, seu irmão querido, o mundo inteiro chorou. Todo mundo fala “ah, os Borges, o Telo, o Marilton”, mas vocês são quantos irmãos?
Somos, aliás, éramos 11. A dona Maria Fragoso Borges, Maria da Conceição, minha mãe querida, saudosa, ficou grávida 18 vezes, e isso fruto de uma promessa, que é a coisa mais incrível, porque eles se casaram, tentavam ter filho e não conseguiam, então fizeram uma promessa para Deus, falaram assim: “Se o Senhor der pra gente um filho que a gente tanto almeja, os que o Senhor mandar a gente vai ter, a gente não vai evitar nunca”. Ela teve 12 partos, só que um nasceu morto, entre o Lô e a Sheila, e papai dizia que era muito parecido com o Lô. Os outros foram abortos naturais.

Seus pais pediram um filho e ganharam um movimento musical?
Acaba que é isso mesmo. O incentivo e a generosidade dos meus pais é que deram a oportunidade para, numa época de repressão, da ditadura, entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, os encontros. Eles abrigavam aquele tanto de jovens na casa deles, com instrumentos, ensaiando, e papai fazendo macarrão para o pessoal. O fato de eles terem comprado um instrumento, colocado um piano dentro de casa, isso mudou a nossa vida.

Você bombou com a música “Vento de maio”, que Elis Regina cantou. Ela era, então, a maior cantora do Brasil e quis gravar sua música. Como foi isso?
A gente estava gravando o disco dos Borges na Odeon, onde tinha dois estúdios. Todas as tardes, a Elis passava para gravar no estúdio 1, que era o grande, dos famosos. Nós ficávamos no estúdio menorzinho. Ela passava e ficava todo mundo assim: “Olha a Elis Regina, nossa querida”. Todo mundo muito fã, e ela muito simpática.

Uma bela tarde, ela entrou no nosso estúdio e veio na minha direção. Eu falei assim: Meu Deus, e agora? Fiquei supernervoso. Ela chegou assim: “Você é o Telo? Vem cá, que eu vou te mostrar uma coisa”, e me mostrou a gravação dela de “Vento de maio”. Sabe o que eu fiz? Eu saí correndo, doido, fui chorar no banheiro, porque eu tinha vergonha de chorar na frente dos outros.

Fiquei no banheiro chorando, o pessoal foi lá, todo mundo me abraçando, uma coisa emocionante. Eu tinha 20 anos, era um menino, e Elis Regina pegando na minha mão, mostrando uma música minha que ela tinha gravado.

Você vai fazer um show dia 31 de março no Palácio das Artes, reunindo uma constelação, é verdade?
É verdade, um show inédito, uma ideia que eu tive de reunir em um mesmo show as 30 principais composições do Clube da Esquina. São 10 pot-pourris com 10 convidados, então uma música entra na outra. Vai ter Beto Guedes, Rogério Flausino, Sideral, Cláudio Venturini, Marina Machado, Bárbara Barcelos, Marcus Viana, Murilo Antunes, Paulinho Pedra Azul, Saulo Laranjeira, Tavinho Moura. É muita emoção estar com esses caras, porque são todos amigos, todos têm a ver com a minha vida, com minha trajetória.

Mas está faltando um cara nesse show, um cara que até o ano passado estava construindo esse show com você, estava dando opinião...
É verdade, teve essa tragédia que se abateu sobre o mundo com a partida do Lô, isso, de uma certa forma, eu desisti de tudo. Falei assim: “Nunca mais quero tocar, nunca mais quero cantar, nunca mais quero fazer show, acabou, música para mim acabou”.

Mas sou uma pessoa que crê muito em Deus, que ora e busca a presença do Senhor todo o tempo, e nessas minhas orações o Senhor falou comigo: “Meu filho, agora é que você tem que fazer mesmo”. Minha família, minha esposa, minhas filhas falaram isso, que agora é que eu tinha que fazer mesmo.

Fui pegando força, dando uma respirada e hoje eu estou o mais animado de todos, quero fazer isso com toda a minha alma, todo o meu coração, até porque esses ícones do Clube da Esquina, o Milton, o Lô, o Beto, o Flávio, o Toninho, eles fazem parte da minha vida, toquei com todos eles, gravei com todos eles, fiz turnê com todos eles.

Nos 17 dias em que Lô ficou internado e você o acompanhou, ele teve momentos de consciência? O que você lembra desses 17 dias?
Teve um dia que o Lô acordou, ele ainda não estava falando, porque já estava com a traqueostomia, mas eu cheguei perto dele, todo alegre, e falei assim: “Meu irmão voltou”.

Fui lá, abracei e beijei e falei assim: “Meu irmão, fica tranquilo, porque você teve um acidente, e a verdade é essa, ele teve um acidente, uma intoxicação, ele vomitou e aspirou, e isso tornou o quadro dele irreversível. Era gravíssimo. Mas eu falei assim: “Meu irmão, você sofreu um acidente, mas daqui a dois ou três dias nós vamos para o quarto, fica tranquilo”.

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Eu saí nesse dia com uma alegria, uma esperança, mas, no dia seguinte, quando voltei, tinha dado uma zebra, porque esse negócio de aspiração por químico, que dá pneumonia química, é muito grave.

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