CINEMA

‘Sirat’, rival espanhol de ‘O agente secreto’ no Oscar, estreia hoje

Filmado no deserto do Saara, longa de Olivier Laxe, que criticou a indicação do brasileiro, é memorável por sua inteligência, ação e originalidade

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Dos concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Internacional, o que melhor convier a Hollywood – pode-se dizer que “Valor sentimental” é o mais clássico – apesar do diálogo com a tradição nórdica, Bergman à frente –, e que o brasileiro “O agente secreto” é o mais moderno, por fatores como a autoria controlada.

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Nesse sentido, “Sirât” desponta como o mais contemporâneo dos três. Ele começa com uma longa rave em um deserto, onde pessoas também intrigantes parecem festejar algo que não sabemos o que é. Quem são essas pessoas? Pós-punks, talvez? Anarquistas? Niilistas?


Logo surge alguém que destoa do pessoal: Luis, personagem de Sergi López, é um senhor de modos e aparência burguesas, que não entende aquela dança nem os que a praticam. Traz consigo o filho, o jovem Esteban, e uma cachorrinha, Pipa. Luís foi até lá na esperança de encontrar a filha, que saiu de casa há meses e não deu mais nenhuma notícia.


Terminada a festa, Luis mostra uma foto da filha a um grupo de jovens (ou nem tanto) que acampa por ali, mas nenhum deles viu a menina, ninguém sabe dela. Avisam, no entanto, que existe uma outra festa, mais ao Sul. Vamos nos localizando: o deserto é no Marrocos e “mais ao Sul"” é perto da Mauritânia. Nos localizar não leva a parte alguma. Estamos no meio do Saara.


Mas podemos ver, desde já, certos diálogos que o filme vai estabelecendo. Os jovens são dissidentes um tanto misteriosos, um deles não tem uma perna, outro não tem uma mão. Lembram, a rigor, os bandidos desiludidos do “A Idade do Ouro”, de Luis Buñuel. E o pai que procura sua filha no deserto? Evoca, claro, “Rastros de ódio”, clássico de John Ford.


Pontos intrigantes

Não pense que, por nos indicar um caminho dentro da própria história do cinema, o filme perde em originalidade. Ou mesmo que indique esse caminho. Afinal, lembrar desses filmes durante a projeção não é algo que atrapalha a fruição, ao contrário: independentemente do referencial que cada um carrega, sabemos desde o início que este será um filme de busca intensa, incessante, como os mencionados – só que diferente, é claro.


Estamos nesse ponto inicial ainda, quando no lugar aparece uma tropa militar que dispersa o pessoal e manda os europeus de volta à Europa. Mas o que faz uma tropa dessas no deserto? Os pontos intrigantes não cessam de aparecer. Os nossos dissidentes fogem em dois enormes furgões: não querem saber de nada militar e chegam a pensar que a Terceira Guerra começou.


Luis, que só tem o seu objetivo fixo, os segue e também escapa da tropa opressiva. Os dissidentes não festejam a companhia, mas, logo percebem que Luis pode ser útil: é ele que fornece o dinheiro para a gasolina que precisam comprar de alguns beduínos, por exemplo.


Daí começa a nascer a aproximação entre as duas, digamos assim, famílias: trocam bens, conversam um pouco, se entendem, enquanto enfrentam as dificuldades do percurso inóspito. E se reconhecem: podem ser diferentes, mas são iguais.


Limites testados

Permanece, porém, a questão: o percurso leva para onde mesmo? É difícil dizer. Quando uma enorme coluna militar aparece na estrada principal, bem quando eles se aproximam, eles têm de seguir estradas alternativas: são cada vez menos estradas e cada vez mais caminhos quase intransitáveis. Mas é preciso seguir, eles sabem, porque, como mencionou Oliver Laxe, diretor deste filme, trata-se de uma aventura em que cada um tem os seus limites testados.


Isso não se confunde com jogos tolos de TV ou aqueles perigosos, de computador. Esses aventureiros são antes de tudo gente em busca de si mesma, como o próprio Laxe disse. Mas o que é esse “si mesmo”? Isso existe? E pode existir alguma coisa, à parte a música e a sobrevivência num deserto em que parece tão fácil se perder? Um deserto que a cada passo parece mais infinito.


“Sirât” se desenrola ali sem pressa, embora não sem incidentes. Nossos heróis seguem em busca de uma rave que parece existir muito mais em suas cabeças do que ao Sul, perto da Mauritânia. Ou seja, o Saara: um deserto em que o sol é inclemente, em que perder-se nunca é hipótese remota, onde a beleza da paisagem é assombrosa, mas pode se tornar muito depressa tão misteriosa quanto límpida.


É um tipo de filme estranho, em que o desenrolar confunde-se com os personagens. O trajeto condiciona os destinos, mas as pessoas fundem-se com o caminho, como se tudo tendesse a virar uma coisa só.


E como se tudo nos carregasse suavemente por atalhos do cinema até que, enfim, chegamos a algo que se pode chamar de território do terror. Um terror sem monstros ou zumbis, fincado no mundo real e ao mesmo tempo no imaginário.


“Sirât” é por vezes assustador, por sua inteligência, ação e originalidade – é mais um desses filmes memoráveis produzidos no ano de 2025.

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“SIRÂT”
(Espanha e França, 2025, 120 min.) Direção: Oliver Laxe. Com Jade Oukid, Sergi López e Stefania Gadda. Classificação: 16 anos. Em cartaz a partir desta quinta (26/2), no Pátio Savassi, Cidade, Ponteio e UNA Cine Belas Artes.

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