Na mostra 'Vida paralela', Mateus Moreira retrata um mundo onde o descarte se tornou regra crédito: Ícaro Moreno/Divulgação
A paisagem está dominada por enormes montes de carros sucateados, empilhados de forma caótica, formando uma cadeia de montanhas metálicas. As carcaças, amassadas e sobrepostas, ocupam praticamente toda a cena, com cores variadas. Ferrugem, cinza, preto e pontos de vermelho e amarelo se espalham por todos os lados. Os tons suaves de azul, amarelo e laranja do céu sugerem um entardecer. E, no primeiro plano, um lago calmo, onde um pequeno barco com quatro pescadores navega próximo às pilhas de veículos.
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Batizada como “Parou de chover”, a tela do belo-horizontino Mateus Moreira evoca o embate entre a natureza e a voragem humana. Os carros, símbolo clássico de progresso e consumo, aparecem como ruínas, formando uma espécie de paisagem pós-industrial. E a presença do barco com figuras humanas reforça a sensação de deslocamento e pequenez diante desse cenário. Eles são como que sobreviventes ou testemunhas de um colapso.
A essência da obra continua nas demais telas do artista mineiro que integram a exposição individual “Vida paralela”, em cartaz na Albuquerque Contemporânea até 16 de maio. As visitas são gratuitas, de segunda a sábado – a galeria estará fechada de Sexta-feira Santa até Domingo de Páscoa.
Cinema como inspiração
A série com aproximadamente 15 pinturas foi concebida ao longo dos últimos três meses, tendo como referência o documentário “O guia pervertido da ideologia” (2012), de Sophie Fiennes, no qual o filósofo esloveno Slavoj Zizek faz um espécie de aula performática usando cenas de filmes (entre eles, “Taxi Driver”, “Tubarão” e “A noviça rebelde”) para mostrar como a ideologia não está só na política, mas no modo como o mundo é fantasiado.
“É um filme que aborda um pouco sobre propaganda, produto e a ideia de obsolescência programada. Mostra como a ideologia está por trás dos produtos e como, de alguma forma, a gente é conduzido através desses objetos enquanto sociedade”, diz Mateus. “Quis pegar grandes símbolos de civilização – o navio, o carro, a antena – e levá-los para um lugar de destruição, a fim de compor uma paisagem de acúmulo”, acrescenta.
Nas telas, os objetos que deveriam representar progresso, mobilidade e autonomia viram peso-morto. O absurdo vira, então, realidade e, nesse contexto, o indivíduo é espectador, circulando ao redor do caos.
Telas 'Parou de chover' e 'Cantigas de penúria', de Mateus Moreira, são expostas lado a lado, mostrando símbolos de consumo como lixo Ícaro Moreno/Divulgação
Por falar em movimento circular, “Cantigas de penúria” traz a ideia de ciclo interrompido a partir da pintura de uma roda-gigante abandonada. Algumas cabines ainda estão presas na estrutura metálica, mas parecem desgastadas e inertes. Ao redor do brinquedo, a natureza já começa a reocupar seu espaço, com vegetação irregular. Uma pequena figura humana caminha sozinha, quase irreconhecível.
“À medida que eu vou construindo essas estruturas e espaços, os ‘acidentes’ também vão aparecendo, seja na tinta, na cor ou nas pinceladas. Eles vão me sugerindo rastros de acontecimentos, situações e silhuetas. A partir daí, eu me inspiro no cotidiano da cidade, tentando imaginar o futuro dela”, afirma o artista.
A distopia toma conta desse futuro imaginado. Se em “Parou de chover” e “Cantigas de penúria” são, respectivamente, carros e roda-gigante abandonados; nas telas seguintes da exposição há avião despedaçado em meio ao deserto, homem arremessado na rua em chamas e uma grande fogueira no meio da avenida queimando uma pilha de livros. São vestígios de civilização, cujo esqueleto é formado por objetos símbolos do progresso.
Na tela 'Com que me apunhalas', Mateus Moreira mostra um homem sendo arremessado numa rua em chamas Ícaro Moreno/Divulgação
Como se evocassem o conceito de Modernidade Líquida, do filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), as telas de “Vida paralela” apontam para uma era pós-individualismo, consumo exacerbado e relações frágeis. O que sobra é abandono e solidão.
Pelo exagero, o artista mineiro faz um alerta. “Estamos vivendo em meio ao acúmulo de lixo há muito tempo e nos acostumamos com isso”, ele diz. “É como se fosse normal o nosso modo de vida. É como se tivéssemos nos adaptado a viver nessas condições”, conclui.
Exposição individual de Mateus Moreira. Em Cartaz na Albuquerque Contemporânea (Rua Antônio de Albuquerque, 885, Savassi) até 16 de maio. De segunda a sexta, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 13h30. Entrada franca. De Sexta-feira da Paixão a Domingo de Páscoa, a galeria estará fechada. Informações: (31) 2520-3763.