'A voragem': a selva e a loucura da borracha ganha reedição no Brasil
Romance do colombiano José Eustasio Rivera revela retrato da exploração brutal de povos indígenas, seringueiros e caboclos no início do século 20
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“A selva transtorna o homem, desenvolvendo seus instintos mais desumanos; a crueldade invade a alma como o espinho intrincado; e a cobiça queima como febre. A ânsia por riquezas convalesce o corpo já desfalecido, e o cheiro da borracha produz a loucura dos milhões”, revela um dos seringueiros de “A voragem”, romance que o colombiano José Eustasio Rivera (1888-1928) publicou em 1924.
O trecho talvez seja a melhor síntese das pouco mais de 300 páginas desse que é considerado um dos primeiros “romances de selva” da América Latina, e que, após 43 anos fora de circulação no Brasil, volta agora ao mercado nacional pela editora manauara Valer.
“Um professor da Universidade Estadual do Amazonas chamado Fred Spinoza, que trabalha na Tríplice Fronteira, em Tabatinga, sugeriu que fizéssemos uma nova edição, já que o livro estava há mais de 40 anos fora do mercado editorial. Trouxe uma edição em espanhol para mim e, quando li, pensei: ‘Que livro extraordinário!’”, conta Neize Teixeira, editora da Valer.
Considerado um clássico na Colômbia, “A voragem” ganhou em 2024 uma edição comemorativa em seu país de origem, o que foi considerado verdadeiro evento literário. “Costumo dizer que é um livro de literatura de viagem. Quando falamos em literatura de viagem, pensamos logo nas expedições dos séculos 16 e 17. Mas Rivera faz outro tipo de percurso: ele atravessa a floresta a pé. É nesse trajeto que ele promove os encontros dos personagens e evidencia os acontecimentos, que, no meu entendimento, são como um estudo sobre a condição humana”, observa Neize.
Dois anos antes da publicação, Rivera percorreu a selva amazônica como integrante de comissão encarregada de definir a fronteira entre Colômbia e Venezuela. Nessa expedição, testemunhou de perto a exploração brutal de povos indígenas, seringueiros e caboclos durante o ciclo da borracha. Dessa experiência de fronteira – literal e simbólica – nasceu a ideia de ambientar uma ficção num espaço “voraz”: a selva que engole homens, amores e ambições.
AMOR PROIBIDO
O enredo acompanha Arturo Cova e Alícia, que fogem de Bogotá rumo ao interior da floresta, atravessando as planícies orientais. Narrado em primeira pessoa pelo próprio Cova, o romance mistura aventura, paixão e denúncia social. O narrador-personagem é um poeta boêmio e contraditório. Apaixonado por Alícia, jovem de família abastada e temperamento delicado, ele decide fugir com ela ao perceber que o relacionamento jamais seria aceito pelos pais da moça.
Sem um plano definido, Cova segue o impulso que o conduz até Casanare, onde acredita poder enriquecer rapidamente. Pelo caminho, enfrenta perigos, a degradação humana e a natureza implacável. Em Casanare, conhece Barrera, espécie de coronel local, dono dos seringais e senhor absoluto das dívidas que escravizam seus trabalhadores. Inicialmente cordial, o homem logo se revela cruel e tirânico, e acaba por raptar Alícia.
No mesmo cenário, Cova encontra o ex-militar Fidel Franco, de quem se torna grande amigo. Franco deixou o Exército em busca de uma vida tranquila ao lado da esposa, Griselda, mas vê o destino se entrelaçar ao de Cova quando a mulher também é sequestrada por Barrera. A partir daí, os dois homens mergulham numa jornada de busca e vingança, cruzando com nativos acuados, seringueiros miseráveis e tipos humanos que habitam as margens amazônicas.
O que faz de “A voragem” um romance excepcional, porém, não é apenas a força da denúncia, mas a maneira como Rivera transforma a selva em um organismo vivo. Ao acompanhar a travessia de Cova e Franco, o leitor mergulha em uma paisagem que é, ao mesmo tempo, geográfica e interior. A floresta é um personagem pulsante, voraz e moralmente ambíguo, um labirinto onde natureza e homem se confundem até o limite da loucura.
HEMINGWAY E GUIMARÃES ROSA
Essa concepção de espaço remete a duas obras seminais publicadas décadas depois, mas que não têm relação direta com o romance de Rivera: “Grande sertão: veredas” (1956), de Guimarães Rosa, e “Por quem os sinos dobram” (1940), de Ernest Hemingway.
Assim como o sertão rosiano, a selva de Rivera é mais que cenário, é força existencial, filosófica, espaço de revelação e mistério. E, na trama de Hemingway, a serra espanhola molda a estratégia de guerra, sendo também um território de resistência que condiciona cada gesto do protagonista Robert Jordan.
“A selva, em ‘A voragem’, funciona como um espaço de revelação, onde o autor expõe a maldade e a vulnerabilidade humanas. Não seria possível mostrar isso em uma cidade, por exemplo. Ele revela a condição humana no contexto da borracha e da exploração da Amazônia”, reforça Neize.
Nas três obras, o amor aparece ameaçado pela violência – coletiva ou natural – e confere densidade humana ao épico. Essa violência é estrutural, ultrapassa os indivíduos. Cova e Alícia vivem uma paixão arrebatada e trágica, atravessada pela loucura da selva; Robert Jordan e Maria experimentam um amor fulgurante e breve, vivido na urgência da guerra; e Riobaldo e Diadorim encarnam o amor impossível e ambíguo, atravessado por batalhas e dilemas existenciais.
O sentimento, nesses universos, surge ao mesmo tempo como resistência e tragédia. Se Arturo Cova foge com Alícia para escapar do mundo urbano e acaba tragado pela própria paixão, Robert Jordan encontra em Maria o único instante de ternura antes da morte, e Riobaldo descobre em Diadorim um amor que é revelação e abismo.
À medida que o desfecho se aproxima, “A voragem” se distancia das duas obras citadas e ganha novas camadas. Cova e Franco encontram Clemente Silva, seringueiro que assume papel central na segunda metade do livro e explicita a brutalidade do sistema denunciado por Rivera. Marcado por chibatadas, febres delirantes e perdas familiares, Clemente segue até o fim com feridas abertas nas pernas, que sintetiza a dor coletiva dos trabalhadores amazônicos. Representantes do governo chegam a visitar os seringais, mas fazem vista grossa às condições desumanas do lugar.
Em “A voragem”, Rivera antecipa uma sensibilidade latino-americana que depois se tornaria essencial em autores como García Márquez: a percepção de que o real, em nossa literatura, sempre beira o delírio. Mais do que um romance de denúncia, “A voragem” é um mergulho no coração febril da América. n
“A voragem”
De José Eustasio Rivera
Tradução de Fred Spinoza e Núcleo Valer
320 páginas
R$ 138, disponível nas livrarias e nos sites de e-commerce
Trecho
“Antes que tivesse me apaixonado por alguma mulher, joguei meu coração ao acaso e ele foi ganho pela violência. Nada soube dos desfalecimentos embriagadores, nem da confidência sentimental, nem da inquietude dos olhares covardes. Mais que o namorado, eu fui sempre o dominador, cujos lábios não conheceram a súplica. No entanto, ambicionava o dom divino do amor ideal que me acendesse espiritualmente, para que a minha alma cintilasse em meu corpo como a chama sobre a lenha que alimenta.
Quando os lábios de Alícia me trouxeram a desventura, já havia renunciado à esperança de sentir um afeto puro. Em vão, os meus braços entediados de liberdade estenderam-se diante de muitas mulheres implorando uma corrente para eles. Ninguém adivinhava meu sonho. Continuava o silêncio. Esse silêncio que é o meu coração.
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Alicia foi um namoro fácil. entregou-se a mim sem vacilações, animada pelo amor que buscava. Nem ao menos pensou em casar-se comigo naqueles dias em que seus parentes forjaram a conspiração do seu matrimônio, patrocinados pelo padre e dispostos a submeter-me pela força. Ela denunciou-me aos planos astuciosos. ‘Eu morrerei sozinha’, dizia. ‘Minha desgraça se opõe ao seu futuro’. Depois, quando expulsaram Alícia do seio da sua família, o juiz declarou para meu advogado que me meteria na cadeia, disse-me determinadamente uma noite em seu esconderijo.Como poderia abandoná-la? Como abandonar Alícia? Fujamos. Tome minha sorte, mas dê-me o amor. E fugimos”.