O Festival de Berlim termina neste sábado (21/2) com as principais premiações, dos Ursos de Ouro e Prata, a partir das 16h30 (12h30 no horário de Brasília). Independentemente dos vencedores, a 76ª edição da Berlinale ficará marcada pela polêmica cinema versus política.


O estopim, no início do evento, foi a fala do presidente do júri, o cineasta Wim Wenders: “Temos que ficar fora da política”, afirmou o diretor de “Asas do desejo” e “Paris, Texas”, ao ser questionado sobre o apoio do governo alemão a Israel e a posição do festival em relação a Gaza.

“Se fizermos filmes explicitamente políticos, entramos no campo da política. Mas somos o contrapeso da política, somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho das pessoas, não o trabalho dos políticos”, acrescentou.

O que se seguiu foi uma reação em cadeia, iniciada pelo cancelamento da participação da escritora Arundhati Roy no evento e culminada pela declaração, assinada por mais de 100 personalidades do cinema, condenando o festival pelo silêncio sobre Gaza. Entre os signatários estão os atores Javier Bardem, Tilda Swinton e Mark Ruffalo e os diretores Ken Loach, Fernando Meirelles e Adam McKay.

“Da mesma forma que o festival se pronunciou claramente no passado sobre as atrocidades cometidas contra as populações do Irã e da Ucrânia, pedimos à Berlinale que cumpra seu dever moral e se oponha claramente ao genocídio de Israel”, diz a declaração conjunta.

Em um trecho mais duro, o texto acrescenta: “Estamos profundamente preocupados com o fato de a Berlinale, financiada pelo Estado alemão, estar contribuindo para a prática daquilo que Irene Khan, Relatora Especial da ONU para a Liberdade de Expressão e Opinião, condenou recentemente como o uso indevido, por parte da Alemanha, de legislação draconiana “para restringir a defesa dos direitos palestinos, intimidando a participação pública e reduzindo o debate na academia e nas artes”.

Cerimônia de premiação

Wenders não deu mais nenhuma declaração. Mal interpretado ou não – o cineasta Kleber Mendonça Filho afirmou, em rápida passagem pela capital alemã, que não entendeu a fala do diretor, o mesmo que fez “Asas do desejo”, “sobre Berlim dividida” –, aguarda-se para ver se na cerimônia de premiação ele trará a questão à tona. 

Neste meio tempo, sobrou para Michelle Yeoh, que recebeu o Urso de Ouro honorário pelo conjunto da obra. A atriz malaia-chinesa, que já morou nos Estados Unidos e vive na Suíça há sete anos, afirmou que “não está em posição” de falar sobre a situação política dos EUA. Saiu pela tangente em entrevista coletiva, concentrando “no que é importante para nós, o cinema”.

Não faltou, principalmente no meio on-line, quem levantasse a hipótese de que o festival estaria instruindo atores e cineastas a não se manifestarem sobre questões políticas. Diretora do Festival de Berlim, Tricia Tuttle, afirmou, em entrevista à “Screen”, que "discorda veementemente da desinformação apresentada, das alegações imprecisas sobre a Berlinale que não se baseiam em nenhuma evidência ou são anônimas".

Dias antes, no texto “Sobre a fala, o cinema e a política” publicado no site do evento, Tuttle havia escrito que “a liberdade de expressão acontece na Berlinale. Mas, cada vez mais, espera-se que os cineastas respondam a qualquer pergunta que lhes seja feita. São criticados se não respondem. São criticados se respondem e não gostamos do que dizem. São criticados se não conseguem condensar pensamentos complexos em uma breve frase de efeito quando um microfone é colocado à sua frente, quando pensavam estar falando sobre outra coisa”.

Filme favorito

Diante de tudo, os filmes em competição ficaram em segundo plano. Neste cenário, “Rose” desponta como favorito. “Será que a narrativa rigorosamente controlada de Markus Schleinzer sobre uma mulher alemã que se disfarça de soldado é a primeira obra-prima absoluta do ano? Talvez”, descreveu o site “Indie Wire”. 

No drama, terceiro longa do cineasta e roteirista austríaco que atuou como diretor de elenco de Michael Haneke, Sandra Hüller interpreta a personagem-título. Ela é uma mulher que se disfarça de homem e vive como um soldado na Alemanha do século 17.

Segunda produção internacional dirigida por Karim Aïnouz, “Rosebush pruning”, também na competição oficial, não foi tão bem recebida pela crítica especializada. “Provocação elegante e boba, mas sedutora”, afirmou a “Variety” sobre a comédia ácida a respeito de uma família disfuncional de super-ricos defendida por nomes como Callum Turner, Elle Fanning, Riley Keough e Pamela Anderson. “Sátira desajeitada que oferece pouco fascínio”, cravou o “Guardian”, enquanto o “Deadline” definiu como “Comédia hilariante de mau gosto”.

Fora da competição oficial, o Brasil tem nove filmes e uma coprodução nas mostras paralelas. São dois os longas mineiros: “Nosso segredo”, de Grace Passô, que disputa a competitiva Perspectives, dedicada a primeiros longas-metragens, e “Seu eu fosse vivo...vivia”, de André Novais Oliveira, que está na paralela “Panorama”.

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“Narciso”, do diretor paraguaio Marcelo Martinessi e produzido pela cineasta brasileira Júlia Murat, é outra atração da Panorama. Ambientado no Paraguai dos anos 1950, sob a ditadura Stroessner, o filme acompanha o personagem-título, um jovem que retorna de Buenos Aires e se transforma em uma sensação musical, símbolo da liberdade, em meio ao regime militar. O longa foi um dos destaques das mostras paralelas de Berlim.

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