‘Isso ainda está de pé?’ é drama que faz rir dos desacertos de um casal
Longa de Bradley Cooper que estreia nesta quinta (19/2) tem protagonista que se lança ao stand-up após a separação; filme traz frescor ao tema do recasamento
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Mais do que um duplo sentido, o título “Isso ainda está de pé?” pode fazer pensar que estaremos diante de uma comédia. E não está completamente errado. O novo filme de Bradley Cooper pode ser visto como uma atualização das antigas – e não raro geniais – comédias do recasamento.
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Aqui, temos um casal de meia-idade, Alex Novak, papel de Will Arnett, e Tess, personagem de Laura Dern, que já viveram melhores dias juntos e hoje preparam uma separação razoavelmente pacífica e com os problemas habituais – o que sofrerão os filhos, os pais dando palpite.
Alguns lances do roteiro já são bem interessantes desde aqui: ninguém faz drama em torno dos filhos, por exemplo. Também os personagens, ao menos por um bom tempo, não cuidam de seus problemas profissionais. O filme dedica-se quase todo a eles.
A Alex bem mais, na verdade. Ele é que sai de casa, ele é que não sabe o que fazer de sua vida, ele é que acaba como comediante de “stand-up”, num show bem estranho, em que conta os azares e desencontros de sua vida para uma plateia que ri, quase sempre, por solidariedade.
Bem, como se vê, esse filme que poderia ser classificado como comédia de recasamento avança de forma melancólica. Mas não se pode ver nisso um defeito. Toda a sombria evolução em torno do “stand-up” nos introduz a esse gênero de teatro cômico que raramente é cômico, cujo sucesso se deve a uma característica dos estadunidenses, creio eu, mais do que a qualquer outra coisa: numa sociedade tremendamente individualista como a dos EUA, esse é um momento de solidariedade, que mesmo um sofredor como Alex pode encontrar quando precisa desabafar enquanto olha para si mesmo.
Técnica de vôlei
O lado de Tess parece menos desenvolvido ou, em todo caso, ela tem menos problemas na nova vida do que o ex-marido. Ela tem amigas, que acham ótimo a hipótese de arrumar outro homem para começar. Do lado profissional, ela, que aparentemente estava no desvio, é convidada para ser técnica de um time de vôlei.
Aqui uma explicação sobre Tess se faz necessária: ela foi uma famosa jogadora de vôlei, fez parte da seleção e foi até aos Jogos Olímpicos. Então, parece que ela terá mesmo uma nova vida, porque um antigo treinador ou algo assim a convida para trabalhar de novo no vôlei e a convida também para sair com ele.
Então estamos nesse pé: o filme precisa nos dizer o que deve acontecer na vida de ambos para que o reencontro aconteça.
Do ponto de vista do roteiro é preciso dizer que “Isso ainda está de pé?” tem a vantagem de atualizar o esquema clássico das comédias do recasamento, a saber: homem separa-se da mulher e se dá bem até descobrir que ela tem um outro pretendente e está inclinada a casar com ele; então o antigo marido precisa se virar para que isso não aconteça.
Aqui, Cooper deixa de lado a vida profissional de Alex – aparentemente bem-sucedida e mal mencionada – para se dedicar à sua errância no mundo do espetáculo, que corresponde, de certa maneira, a uma jornada de autoconhecimento.
As crianças contam, claro, mas não são de modo algum decisivas para o desenrolar da trama. De modo que o roteiro sabe como evitar certas armadilhas muito frequentes no cinema industrial contemporâneo. No entanto, a direção pode ser discutida em alguns pontos.
Apego aos diálogos
O primeiro deles parece ser um excessivo apego de Cooper aos diálogos como suporte da ação, como se não tivesse segurança na capacidade das imagens de se explicarem (isso melhora bem do meio para o fim do filme). O segundo é que parece dirigir seu filme mais para TV ou streaming, deixando a imagem fechada no rosto dos atores, o que lhes tolhe um tanto a ação e faz com que o filme perca boas situações (cômicas, sobretudo).
Ao mesmo tempo, Cooper dirige bem os seus, aliás, muito bons atores – com isso, ele os valoriza sempre, mesmo que por vezes em detrimento do filme.
Outro problema é incontornável. Sabe-se que a indústria do tabaco está por trás de cada cigarro usado em qualquer filme, desde sempre. Até se aceita que Tess apareça fumando, com alguma frequência, mas é, só para começar, inverossímil que uma ex-atleta olímpica apareça fumando por aí.
Simplesmente porque não dá para fumar e fazer qualquer atividade física nesse nível. Pode acontecer? Pode. Tudo pode no mundo. Mas verossímil não é, nem de longe, e pega mal para o filme – embora se possa compreender que para realizá-lo é preciso dinheiro e coisa e tal.
Por fim: é bem bom que títulos de duplo sentido apareçam. Eles eram frequentes no tempo da chanchada – e do teatro de revistas – e a ambiguidade de sentidos que instauram só faz bem.
Aqui, eles sugerem algo próximo de uma comédia. Chamá-lo de comédia dramática é o máximo que dá. Talvez dizer que é um drama com algum humor e isento de excessos dramáticos desnecessários esteja mais próximo de uma designação exata.
Categoria dos esnobados
Quando estreou nos Estados Unidos, em dezembro passado, “Isso ainda está de pé?” foi apontado por parte da crítica como um provável concorrente ao Oscar, sobretudo nas categorias de atuação, com Laura Dern e Will Arnett vistos como potenciais indicados. No entanto, o longa não recebeu nenhuma nomeação às estatuetas que serão entregues no próximo dia 15 de março, em Los Angeles.
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“ISTO AINDA ESTÁ DE PÉ?”
(EUA, 2025, 124 min.) Direção: Bradley Cooper. Com Will Arnett, Laura Dern e Andra Day. Classificação: 14 anos. Estreia nesta quinta-feira (19/2) no Diamond Mall, Pátio Savassi, Boulevard, Del Rey, Ponteio, e UNA Cine Belas Artes.