Aos 57 anos, Carla Marins não se rende à passagem dos dias, mas dialoga com eles. Há quatro décadas, a adolescente que estreava na televisão na novela “Hipertensão” (1986), sob olhar atento da autora Ivani Ribeiro, talvez não imaginasse que faria da própria trajetória um exercício contínuo de reinvenção. Hoje, ela volta à cena com a mesma intensidade como a Xênica de “Três Graças”, novela das 21h da Globo.
A personagem marca o retorno de Carla à teledramaturgia da emissora, depois do hiato de 12 anos.
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“A Globo é minha primeira e longeva referência profissional, onde atuei em diversas obras dos 17 aos 37 anos. Essa volta vem coroar um ótimo momento pessoal. Profissionalmente, é a junção da experiência e da maturidade com a energia e a animação da juventude”, comemora.
Adolescente grávida
Carla construiu carreira sólida na emissora por 20 anos consecutivos. Atuou em novelas de Aguinaldo Silva, Dias Gomes, Walcyr Carrasco, Walter Negrão e Manoel Carlos. Foi a inesquecível Joyce de “História de amor”, adolescente grávida que confrontava a mãe e o próprio destino, em um dos retratos mais sensíveis da juventude nos anos 1990. Mas foi também mulher, filha, amante e heroína em folhetins que ajudaram a moldar o imaginário do público.
Fora da Globo, a atriz protagonizou “Uma rosa com amor” (2020), no SBT/Alterosa, dando nova vida à icônica Serafina Rosa Petrone. Na Record, participou das produções bíblicas “Gênesis” e “Apocalipse”. No cinema, com o filme “Subsolo”, ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Brazilian Film Festival of Toronto.
Entre um papel e outro, Carla aprendeu também a existir fora dos holofotes. Aos 40 anos, descobriu a maternidade. Leon, que hoje tem 16, chegou quando a carreira estava consolidada e ela começava a se perguntar sobre os próximos capítulos da própria vida. “Vivi a maternidade como complemento, não como finalidade”, diz.
O hiato foi um intervalo silencioso, quase invisível ao grande público, mas fundamental para reorganizar desejos, afetos e prioridades. Quando o convite para “Três Graças” surgiu, pelas mãos do diretor Luiz Henrique Rios, o retorno à Globo soou menos como resgate e mais como coroação.
Ela volta mais consciente do próprio tempo, menos refém da urgência, mais aliada da escuta. Na novela de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, a atriz vive Xênica, mulher madura, ativa, independente e dona da própria narrativa.
A personagem, em muitos aspectos, espelha sua intérprete. “É um privilégio refletir nela minha própria experiência. Xênica viveu a maternidade como complemento, não como finalidade única na vida de uma mulher”, afirma.
Carla construiu com cuidado quase artesanal a relação com Túlio Starling, que faz o papel de José Maria, filho de Xênica. “Ator com muita inteligência cênica e disponibilidade para troca”, elogia. Improvisos, encontros, conversas, silêncios compartilhados, o resultado é a cumplicidade vista na tela, menos de gestos óbvios e mais de pequenas delicadezas.
Virada
A trama não poupa Xênica. A prisão injusta do filho José Maria, armação do poderoso vilão Ferette (Murilo Benício), inaugura um arco dramático intenso. Movida por amor e indignação, ela enfrenta o patrão.
“É uma virada o momento de posicionamento contrário ao esquema fraudulento de Ferette. Ela sai em defesa do filho. Movida pelo ódio, faz alianças e não descansa até desmascarar o vilão”, afirma Carla.
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Nem mesmo o romance surge como refúgio. Quando se envolve com o segurança Macedo (Rodrigo García), braço direito de Ferette, a relação é atravessada por estratégia e ambiguidade. Amor, aqui, é risco e negociação.
