Heleninha Roitman voltou às telas no remake de “Vale tudo” (Globo), interpretada por Paolla Oliveira, e, assim como na versão original de 1988, reacendeu o debate sobre o alcoolismo entre mulheres. Em 2025, cerca de 7 mil mulheres procuraram canais de ajuda, um crescimento de quase 270% em relação ao período anterior. As buscas na internet por Alcoólicos Anônimos também aumentaram 150%.
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O tema chega aos cinemas com “(Des)controle”, filme estrelado por Carolina Dieckmmann (que interpretou Leila no remake da novela) com estreia nesta quinta-feira (5/2) nos cinemas de Belo Horizonte. Na trama, a atriz vive Kátia Klein, uma escritora em crise criativa, sobrecarregada pelas responsabilidades domésticas e emocionalmente distante do marido. Sóbria há 15 anos, a personagem substitui o álcool por coca-cola.
Uma das motivações para Carolina aceitar o papel foi a relação da mãe, Maíra Dieckmann, com o álcool durante a infância da atriz. “Quando a gente encontra a Kátia no começo do filme, ela está completamente fora de si. Não sabe mais o que quer do casamento, da profissão, dos filhos. É uma mulher cheia de frustrações, tentando tapar buracos e vendo tudo sair do controle. É óbvio que estamos falando de uma personagem, mas essa mulher está do nosso lado, às vezes, dentro da gente”, afirma.
No cotidiano da protagonista, a exaustão surge em uma lista interminável de tarefas. Resolver questões financeiras, cuidar da casa, dos filhos e da própria carreira, enquanto o marido, Zeca (Caco Ciocler), permanece alheio às responsabilidades domésticas – é o tipo de homem que só toma alguma atitude quando solicitado.
Sob pressão
Pressionada pela agente literária e pela editora, Kátia não consegue sair do primeiro parágrafo do livro que já está com o prazo de entrega vencido. Distraída, comete erros banais no dia a dia. Deixa o farol do carro ligado até a bateria acabar, por exemplo. As tentativas de escrever acontecem, em geral, à noite, quando a casa silencia. Ainda assim, trancada no escritório, ela faz de tudo, menos escrever.
Sem enxergar outra saída, Kátia decide se divorciar de Zeca. Após o término, volta a beber. O consumo começa com uma taça de vinho, sob a crença de que está no controle e de que o álcool traz leveza e inspiração. Aos poucos, a situação foge do controle.
Segundo a diretora Carol Minêm, o silêncio em torno do tema foi um dos motores do filme. “Nas famílias, quando existe um caso, é um assunto sobre o qual as pessoas não gostam de falar. Daí surgiu a necessidade de levar isso para dentro das casas, gerar debate e discussão, falar do alcoolismo de uma maneira não pejorativa, não marginalizada, e criar um filme com o qual as pessoas pudessem se identificar. Não necessariamente pela própria história, mas também pelo entorno”, afirma ela, que divide a direção com Rosane Svartman.
Convencida de que pode beber socialmente, Kátia passa a exagerar. Para esconder a recaída, carrega balas na bolsa para disfarçar o hálito e tenta evitar que os filhos percebam o consumo. Resiste em compartilhar o problema com a família até o ponto em que já não consegue lidar com a situação sozinha.
Em algumas cenas, a Kátia sóbria contracena com Vânia, uma espécie de alter ego que representa sua versão alcoolizada. “Sob o efeito do álcool, as pessoas se transformam. A Vânia é a Kátia sem o peso da sobrecarga. Ela é divertida, livre, dança e namora. No dia seguinte, a personagem não se reconhece no que fez”, explica Carol Minêm.
Carolina Dieckmmann virou notícia pela mudança física para o papel. A atriz chegou a perder oito quilos, o que despertou rumores de que ela teria usado canetas emagrecedoras. A repercussão a levou a explicar a decisão. Queria que a magreza, as olheiras e o rosto mais marcado evidenciassem o esgotamento da personagem. À época das gravações, contou que fazia jejuns de 24 horas, comendo apenas uma vez por dia.
Além de agente literária, Eleonora, vivida por Júlia Rabello, é a melhor amiga de infância da protagonista e quem permanece ao lado dela quando a situação explode. “A Carol [Dieckmmann ] é quase um membro da família brasileira. A gente acompanha ela há tanto tempo que se sente próximo. Foi muito especial conhecer, além da figura pública, a mulher que ela é”, afirma a atriz.
“Descontrole” tem roteiro de Iafa Britz, que passou a desenvolver o filme após ver de perto o aumento do consumo abusivo de álcool entre amigos e familiares durante o isolamento imposto pela pandemia. Dados de uma pesquisa da UFMG, por exemplo, mostram que o consumo abusivo de álcool entre mulheres nas capitais brasileiras mais que dobrou entre 2006 e 2023.
Carol Minêm diz que ainda há resistência em reconhecer o alcoolismo como uma doença, sobretudo quando se trata de mulheres. “Há muito julgamento, como se fosse uma escolha individual, como se a pessoa tivesse bebido porque quis”, afirma. Ela diz que o filme propõe ampliar esse olhar, mostrando que o alcoolismo não é um desvio moral, atravessa também pessoas com privilégios e, muitas vezes, nasce menos do excesso e mais da exaustão.
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“DESCONTROLE”
(Brasil, 2026, 95 min). Direção: Rosane Svartman e Carol Minêm . Com Carolina Dieckmmann, Júlia Rabello e Caco Ciocler. Estreia nesta quinta-feira (5/2), em salas das redes Cineart, Cinesercla,
Cinemark e Cinépolis.
