Jornalista e escritora N. Netta lança hoje ‘Do tamanho de um grão’
Romance de estreia da autora tem o aborto como tema central. Lançamento neste sábado (28/2), na Biblioteca Pública Estadual, integra o Festival Sempre um Papo
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A experiência real de um aborto realizado no final dos anos 1980 é o mote do livro “Do tamanho de um grão”, que marca a estreia na literatura da jornalista e escritora N. Netta. Convidada do Festival Sempre um Papo, ela autografa a obra neste sábado (28/2), na Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais. Definido pela autora como um romance autoficcional, o livro propõe reflexões sobre silenciamento, repressão e a experiência humana do aborto.
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A apresentação do livro é assinada por Isadora de Araújo Pontes, tradutora de Annie Ernaux no Brasil. A escritora francesa, vencedora do Prêmio Nobel de literatura em 2022, serviu de farol para N. Netta, na medida em que seu livro “O acontecimento” (2000) também trata do tema do aborto. Outra autora francesa, Colombe Sckneck, também esteve no radar da brasileira, com a obra “Dezessete anos” (2015), sobre o mesmo tema.
N. Netta diz que a protagonista de seu livro é ela mesma. “É uma história real, vivida por mim, mas, como em qualquer literatura, parto dessa base para construir um enredo ficcional, porque, se passou para o papel, os personagens são de papel”, afirma. Ela destaca que a escassez de obras brasileiras ficcionais que abordam o aborto foi um dos impulsos para a escrita do romance.
“Percebi que o tabu do aborto estava sendo enfrentado pela literatura francesa e que existia essa lacuna na literatura brasileira. Foi bastante desafiador, na medida em que me expus perante um tema muito estigmatizado. Mas não havia outra saída, no meu entendimento”, diz. Ela chama a atenção para o fato de que é uma obra pioneira não só pela forma como coloca o aborto como tema central, mas também por ter como pano de fundo a pouco explorada Belo Horizonte dos anos 1980.
Registro histórico
“Tem uma caracterização do que era a cidade naquela época, com os cinemas, os bares, as ruas, os costumes. É um registro histórico que, até onde sei, ainda não constava na literatura produzida aqui. Você tem a Belo Horizonte dos anos 1950, dos anos 1960 e até dos anos 1970, com Roberto Drummond, mas a dos anos 1980 e 1990, não tem. Foi uma época muito particular, com a redemocratização e as primeiras eleições para presidente, uma coisa muito forte, após a saída do período militar”, afirma.
A autora destaca que “Do tamanho de um grão” explora o conflito entre o sentimento de liberdade e a esperança por novos tempos em oposição à situação que a personagem vive, de repressão e de criminalização. “É um choque de forças muito grande, o espírito da época e o momento pessoal dela”, observa.
N. Netta diz que não está interessada em dizer o que é certo ou errado, mas sim em movimentar opiniões. Ela diz ter ciência de que o aborto é um tema tabu, que divide a sociedade, e que, na literatura brasileira, alguns livros apenas “sussurram” o assunto. “Nenhum puxa a questão como conflito central. Tabu é aquilo que é entendido como uma coisa proibida, geralmente com base na crença religiosa de que tal ato invadiria o campo do sagrado, no caso do aborto, atentando contra a vida”, diz.
“É uma experiência extremamente comum na vida das mulheres, então por que na literatura continuou sendo um tabu? O drama humano dessa personagem está lá, o que não significa que o sofrimento físico ou emocional dela seja por causa do aborto em si – às vezes também é –, mas sim por causa de toda a situação de ilegalidade, de vergonha e de julgamento social que ela sabia que ia passar”, destaca.
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“DO TAMANHO DE UM GRÃO”
• Lançamento do livro de N. Netta, neste sábado (28/2), às 19h, na Biblioteca Pública Estadual (Praça da Liberdade, 21, Funcionários), na programação do Festival Sempre um Papo. Entrada gratuita. R$ 49,17 e R$ 24 (Kindle). O livro será vendido no local com 20% de desconto.