Thalita Amorim abre a exposição 'Vista cega' no Centro Cultural UFMG
Janelas fechadas da Sala Celso Renato inspiraram a mostra que começa nesta sexta-feira (13/2) e vai até 23 de março
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Há não muito tempo, janelas da Sala Celso Renato de Lima, do Centro Cultural UFMG, foram vedadas para otimizar o espaço expositivo, possibilitando maior uso das paredes para receber obras de arte. A decisão não teve grandes repercussões, no entanto aguçou a curiosidade da artista Thalita Amorim, que desenvolveu a mostra “Vista cega”, com abertura nesta nesta sexta (13/2), prosseguindo até 23 de março.
Com trabalhos desenvolvidos sob medida para o local e curadoria de Sandro Ka, a exposição tem como foco as janelas da galeria Celso Renato. Simbolicamente, Thalita as traz de volta em impressão sobre tecido, como se transpusessem o obstáculo imposto pela vedação de anos atrás.
Para dialogar com as janelas, fotografias do entorno do Centro Cultural UFMG feitas pela artista compõem a exposição. Veem-se placas de trânsito, cones de sinalização, a arquitetura dos prédios da região e a a movimentação local.
“O objetivo é fazer um diálogo entre a crítica institucional, a partir da questão das janelas, com o próprio conceito de cubo branco”, conta a artista, referindo-se à ideia que define o espaço expositivo como ambiente neutro, com paredes brancas e iluminação artificial.
O debate sobre o tema não é novidade, ela pondera. Nas décadas de 1950 e 1960, artistas já criticavam a noção do cubo branco para exposições, propondo novas formas de integrar a arte a conceitos sociais, políticos e físicos.
Na Belo Horizonte dos anos 1970, por exemplo, Cildo Meireles foi um dos 25 artistas que ocuparam o Parque Municipal, Ribeirão Arrudas e a Serra do Curral.
A performance de Meireles foi particularmente chocante. Ele colocou uma estaca sobre o quadrilátero marcado por pano branco, com termômetro clínico no topo e galinhas vivas amarradas ali. Em determinado momento, ateou fogo às estaca e às aves. A violência remetia àqueles tempos de torturas, ditadura militar e opressão.
Thalita não chega a extremos. Seus registros fotográficos são sutis, propondo reflexões a partir de cenas banais por conta da correria do dia a dia.
“Fiz o levantamento fotográfico das pessoas e dos elementos no entorno do centro cultural, no Baixo Centro de BH, espaço muito marcado pela vulnerabilidade social e questões típicas da região. Nesse contexto, há um espaço cultural que abarca obras de toda ordem”, destaca Thalita.
A proposta de “Vista cega” passa um pouco pela defesa da democratização da arte, “só que de uma forma mais sutil”, observa Thalita.
“A principal questão é: como a gente não consegue olhar para fora dessas janelas vedadas, essas janelas cegas? Por isso, o nome da exposição. É para pensarmos um pouco no limite institucional. Como a rua pode estar presente aqui dentro e o contrário também? Quais corpos estão dentro? Quais estão fora? Lanço mais perguntas do que respostas”.
Ateliê aberto
Além das fotografias, compõe a mostra um ateliê aberto, no qual contornos da janela sustentam o núcleo onde o público é convidado a desenhar paisagens possíveis.
“Quero que a pessoa participe enquanto sujeito para discutir a ideia do artista no pedestal, que mostra seu trabalho e o público apenas o vê. Acho, realmente, que a arte é uma das ferramentas – às vezes simbólicas, às vezes mais objetivas – para alcançar possíveis mudanças e transformações, nem que seja só no âmbito do pensamento. Quando proponho essa imaginação, rejeito um pouco o lugar do artista no pedestal. Por isso, a ideia não é trazer desenhos, mas deixar que o público faça isso”, conclui Thalita Amorim.
“VISTA CEGA”
Exposição de Thalita Amorim, no Centro Cultural UFMG (Av. Santos Dumont, 174, Centro). Abertura nesta sexta-feira (13/2), às 19h. Até 23/3. De terça a sexta, das 9h às 20h; sábados e domingos, das 9h às 17h. Entrada franca. Informações: (31) 3409-8290. O espaço ficará fechado durante o carnaval e reabre na próxima quinta-feira (19/2).
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OUTRA EXPOSIÇÃO
• Isabel Moreira
Além de “Vista cega”, o Centro Cultural UFMG recebe, a partir desta sexta-feira (13/2), “Meu segredo bem guardado”, mostra de Isabel Moreira. Com curadoria de Maria Mendes, ela reúne desenhos e fotografias que refletem a pesquisa da artista sobre intimidade e pertencimento, entre outros temas. Abertura às 19h.