“O mundo está sempre em movimento, a vida também. E acho sempre o presente melhor do que o passado”, afirma, cheio de otimismo, Martinho da Vila. A despeito dos problemas, a vida vai melhorar, afirma o cantor e compositor, fazendo eco a um de seus sambas mais conhecidos.
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Martinho é a principal atração do CarnaTherê, que será realizado neste sábado (31/1), no Parque das Mangabeiras. Em sua terceira edição, o evento vai trazer a BH também o Olodum. Da terrinha, o pagode do grupo Akatu, além do coletivo de eletrônica Baile Room. Martinho promete “músicas românticas” e sua coleção de sucessos no show.
Prestes a completar 88 anos – em 12 de fevereiro, às vésperas do carnaval –, ele não tem tempo ruim. “O melhor lugar do mundo é o palco. Mas quando estou lá; antes, não gosto.” O antes é toda a logística de viagem. “Já viajei tanto nesses continentes todos. O chato de show em outra cidade é viagem. Vai para o aeroporto, espera no mínimo duas horas e fica ali tirando fotografia. Se vai para o exterior, tem que despachar bagagem, ganhar dura da polícia, abrir os braços, as pernas. Estou com vontade de dar uma recuada.”
Sonho mesmo é morar definitivamente em Duas Barras, sua cidade natal, “e sair para passear não muito longe, no Rio e em Belo Horizonte, por exemplo”. No interior fluminense, distante não mais do que 60 km da fronteira com Minas Gerais, a pequena cidade é o porto seguro do músico.
Fazenda e instituto cultural
Martinho chegou ao Rio aos 4 anos, mas mantém uma relação muito próxima com sua origem. Comprou a Fazenda Cedro Grande, onde seus pais trabalharam como lavradores, e mantém o Instituto Cultural Martinho da Vila, desde 2025 aberto a visitação.
Não há planos de parar, a agenda não o deixa mentir. No fim de 2025, fez uma turnê pela Europa. “Agora, vou fazer uma com a Mart’Nália pelo Brasil”, anuncia, sem falar em datas. A filha mais velha (de uma prole de oito) é capaz de tudo, até de fazer o pai gravar um pagode.
“Foi mole, pois ela fez um negócio diferente. Aquele pagode não era pagode, era uma música bem harmonizada. Ficou maneira”, diz ele, a respeito do dueto em “O teu chamego”, hit do Grupo Raça incluído no álbum “Pagode da Mart’Nália” (2024).
Certo mesmo é o desfile na Vila Isabel, na terça-feira gorda. “Não tem jeito. Todo ano falo que não vou mais desfilar, mas quando o carnaval vai se aproximando, mudo de ideia”, afirma o presidente de honra da escola.
Outra realização para 2026 é o lançamento de um novo livro. Martinho já enveredou por diferentes estilos literários: romance (“Os lusófonos”, “A Serra do Rola-Moça”), memórias (“Memórias de Teresa de Jesus”), autoficção (“Martinho da vida”, o título mais recente, um diálogo entre dois homens, Da Vila e Zé Ferreira, ambos o próprio Martinho), infantojuvenil (“A rosa vermelha e o cravo branco”).
O título inédito é uma nova coletânea de contos (em 2022 ele lançou “Contos sensuais e algo mais”, escrito durante a pandemia). “Estou dando mais uns retoques, pois conto é mais difícil. Embora não haja determinação de tamanho, você tem que contar a história em um tempo curto. Não dá para ficar enchendo linguiça. E no romance a gente pode dar umas voltas”, comenta ele.
Músicas preferidas
A vida é e continua sendo grata. Com mais de 50 anos de carreira – seu primeiro álbum é de 1969 – e uma coleção de sucessos, Martinho diz não ter música favorita. “As músicas são como uma grande prole. A gente sempre gosta de todos os filhos, mas sempre tem aquele que está mais próximo. Com as músicas é assim: as que me pedem mais são as que mais gosto de ouvir também.”
Já que Martinho fará show em Belo Horizonte, não há como não perguntar a opinião dele sobre o imbróglio entre Toninho Geraes e Adele. Em processo iniciado em 2024 (mas em curso desde 2021, por meio de notificações extrajudiciais), o compositor belo-horizontino acusa a cantora britânica de ter plagiado “Mulheres” (1995) na canção “Million years ago” (2015).
“Mulheres” é uma das músicas que sedimentou a carreira de Toninho como compositor (sua coleção de hits, na voz dele e de outros, beira as 300) quando foi lançada por Martinho no álbum “Tá delícia, tá gostoso” (1995). “O plágio é muito difícil de identificar, pois existe uma corrente jurídica que acha que tem que ter (na canção plagiada) de oito a 10 compassos iguaizinhos. Ela (Adele) plagiou um pouco ali, mas se fosse comigo eu ficaria feliz, pois ela cantou muito bem”, diz Martinho.
Quando gravou “Mulheres”, Martinho já tinha assentado na vida. Depois de vários relacionamentos, o cantor e compositor se casou de fato em 1993 com Cleo Ferreira, com quem está há mais de 30 anos. “Qual homem não teve mulheres variadas? Qual mulher não teve homens variados? A Cleo entendeu que era ela quem eu procurava”, diz Martinho, emendando com o verso “Mas nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz.” “Dei uma mexidinha na letra, para botar mais do meu jeito”, conclui.
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CARNATHERÊ
Shows com Martinho da Vila, Olodum, Grupo Akatu e Baile Room. Neste sábado (31/1), a partir das 14h30, no Parque das Mangabeiras (Avenida José do Patrocínio Pontes, 580, Mangabeiras). Ingressos: a partir de R$ 100. À venda no Sympla.
