Entrevistado do programa “EM Minas”, da TV Alterosa e Portal Uai, exibido no último sábado (24/1), o jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes lançou, recentemente, o livro “200 crônicas escolhidas”. O volume reúne uma seleção de textos de quando trabalhou, por um longo período, no Estado de Minas. Na entrevista, ele fala dessa passagem pelo jornal, das memórias que guarda, de sua relação com as letras, de sua infância em Coluna (MG) e de sua relação com nomes como Roberto Drummond e Fernando Sabino. Confira a seguir.

Carlos Herculano, muito bem-vindo à TV Alterosa, ao jornal Estado de Minas, que foi sua casa durante tanto tempo...

Estou muito feliz, muito emocionado em estar novamente aqui no Estado de Minas, onde eu trabalhei por cerca de 24 anos. Muitos dos melhores momentos da minha vida foram passados aqui, onde fiz grandes amigos. Quando comecei, a redação ainda era na rua Goiás, em 1979. Essa é uma casa que está no meu coração, então estar aqui hoje novamente para poder falar dos meus livros, contar um pouco da minha história, da minha trajetória, é uma alegria muito grande.

Foi um tempo de boas memórias?

Eu cheguei muito novinho, tinha 22 anos, ainda não havia me formado em jornalismo. Eu fui trazido para cá pelos jornalistas Carlos Felipe e Geraldo Magalhães. Eu trabalhava como mensageiro na Prefeitura de Belo Horizonte, era o governo do prefeito Luiz Verano, ainda na época da ditadura, e o Geraldo Magalhães foi trabalhar no então recém-criado departamento de cultura. Um amigo meu, chamado Márcio Almeida, me falou: “Olha, o Geraldo Magalhães é do Estado de Minas. Você está estudando jornalismo, por que você não conversa com ele?”. Aí ele me levou no departamento de cultura da Prefeitura, eu conheci Carlos Felipe, e eles me levaram para trabalhar na editoria de pesquisa do Estado de Minas quando eu ainda era estudante de jornalismo. Aí começou a minha história com os Diários Associados.

Você lançou, recentemente, o livro “200 crônicas escolhidas”, e eu tenho certeza que aqui tem muito dessa história da sua passagem pelo Estado de Minas

Sim, aí eu conto muitas histórias. Eu fui cronista do Estado de Minas durante 14 anos. Pelas minhas contas, publiquei aqui cerca de 1.400 crônicas. Jacques Fux, que eu considero um grande escritor, me ajudou a fazer essa seleção das 200 crônicas.

* Obras de Niemeyer serão expostas na China a partir de setembro

Tinha tudo quanto é tipo de história nessas crônicas semanais feitas durante o seu tempo no Estado de Minas. Era o seu olhar para o mundo, eram experiências de vida, amores?

Nessas crônicas tem tudo misturado. A crônica, na realidade, é um olhar, porque qualquer assunto dá uma crônica. Me transformei em cronista por acaso, porque eu comecei a escrever crônicas em junho de 2002, no dia do jogo do Brasil com a Inglaterra pela Copa do Mundo. Nesse dia, nós tivemos a triste notícia da morte do meu querido amigo Roberto Drummond, que também trabalhava no Estado de Minas. Josemar Gimenez, então diretor de redação, me provocou escrever uma crônica de despedida dele, de quem eu era amigo. Escrevi uma crônica que se chama “Adeus, Roberto”, que também está no livro. Ela teve uma repercussão muito boa. Na semana seguinte, Josemar pediu que eu escrevesse outra, aí eu escrevi a próxima e a próxima e a próxima, e assim foram quase 14 anos.

Quantos livros você já tem lançados?

Comecei a escrever muito novo. Quando eu era criança, com 9 anos, ainda vivia em Coluna, comecei a escrever meu primeiro livro, “O estilingue: história de um menino”, que foi publicado pela editora da UFMG. Quando me mudei para Belo Horizonte, em 1968, guardei esse livrinho e nunca mais voltei a ele. Só consegui recuperá-lo 40 anos depois, me emocionei muito, e ele foi publicado. Durante esse período todo como repórter, como entrevistador, eu paralelamente fui construindo minha carreira literária. Eu tenho hoje 16 livros publicados, entre crônicas e romances.

* Inscrições abertas para o Prêmio Literário Máquina de Contos

Li a seu respeito que costumava faltar luz em Coluna quando você era criança e te restava ficar ouvindo histórias. Você acha que dali também veio o interesse pela literatura?

Com toda certeza. Sou de uma geração de brasileiros criada em cidades com poucos recursos. Coluna era, vamos dizer, uma aldeia; não tinha luz, não tinha televisão, não tinha rádio, não tinha nada, mas a gente ouvia muitas histórias contadas pelos meus pais, contadas pelos vaqueiros, pelos empregados, por meus tios. Por outro lado, minha mãe, que se chamava Iracema Aguiar de Oliveira, era professora e sempre me incentivou a ler. Ela comprava coleções de livros. Meu pai, que se chamava Herculano, eu herdo o nome dele, adorava política e história do Brasil, era apaixonado pelo presidente Juscelino, e me ensinou o gosto pela história. Essas duas coisas se fundiram, minha mãe me incutiu o gosto pela leitura e o meu pai por história e política. Aqui em Belo Horizonte eu aprimorei, tive acesso, no Colégio Arnaldo, a uma biblioteca muito boa.

O que mais tem em “200 crônicas escolhidas”?

Histórias que pessoas me contaram, histórias dos meus amores passados. Quando não tinha assunto, eu inventava, porque a crônica também nos dá essa possibilidade da fantasia, do inventar. A crônica me tornou uma outra pessoa, me fez uma cara mais sensível, mais humilde, no sentido de escutar mais as pessoas, saber o anseio do outro, que é o meu próprio anseio.

* Márcio Borges é eleito para a Academia Mineira de Letras

Li uma crônica que fala de um encontro seu com Fernando Sabino e Roberto Drummond em São Paulo. Isso realmente aconteceu?

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Fomos participar de um evento na biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, em que estava presente o cineasta Paulo Thiago, que eu não conhecia. Quando terminamos a palestra, fomos todos para um restaurante. Paulo virou para mim e falou: “Herculano, li seus romances 'A dança dos cabelos' e 'Sombras de julho' e gostei demais. Sonho em fazer um filme sobre o poema 'O caso do vestido', do Carlos Drummond de Andrade, e queria que você fizesse para mim o argumento, porque não tem jeito de filmar um poema, então você pega esse poema e inventa uma história”. Eu falei: “Que é isso, Paulo, você ficou maluco? Quem sou eu para mexer num poema do Drummond, não posso fazer isso de jeito nenhum”. O Sabino, bebericando um uísque, pôs a mão no meu ombro e falou: “Pode sim, Herculano. Você tem talento para isso, rapaz. Além do mais, você vai ganhar um dinheirinho”. Com esse endosso, cheguei em BH, li e reli o poema e topei escrever, daí saiu “O vestido”, que hoje é dos meus romances mais conhecidos, e o Paulo Thiago transformou a história em um longa-metragem lindo, com Gabriela Duarte e Ana Beatriz Nogueira.

compartilhe