“Acho que já foram escritos mais livros sobre Marilyn Monroe do que sobre a Segunda Guerra Mundial. E existe uma grande semelhança.” Billy Wilder se saiu com essa em 1970, durante encontro no American Film Institute, em Los Angeles. Trabalhar com ela era um risco: depressão, atrasos, dificuldade de decorar as falas.


Para encerrar o assunto, o cineasta acrescentou: “Se precisássemos de alguém que chegasse na hora e soubesse as falas perfeitamente, eu tinha uma tia-avó em Viena (Wilder era austríaco). Ela estaria lá às cinco da manhã e não perderia uma palavra. Mas ninguém iria querer sair de casa e pagar um ingresso para ver a minha tia”.


Dos 27 filmes que Billy Wilder (1906-2002) dirigiu, somente dois deles foram com Marilyn Monroe (1926-1962). Não quaisquer produções, mas “O pecado mora ao lado” (1955) e “Quanto mais quente melhor” (1959), clássicos dos clássicos da era de ouro do cinema americano. As duas comédias estão entre os 30 filmes da mostra “Marilyn Monroe & Billy Wilder: O encanto ácido de Hollywood”, que tem início hoje (16/1), no Cine Humberto Mauro.


Gratuita, a programação vai até 28 de fevereiro. O programa foi criado em torno de duas efemérides: o centenário de Marilyn (nascida em 1 de junho de 1926) e os 120 anos de nascimento (22 de junho de 1906) do diretor, roteirista e produtor.


Além dos dois longas supracitados, a programação inclui filmes estrelados pela atriz, como “Os desajustados” (1961), de John Huston, último longa tanto de Marilyn quanto de Clark Gable (1901-1960), que morreu antes da estreia do drama. De Wilder, estão outras produções importantes para a história do cinema, como “Pacto de sangue” (1944), sua célebre incursão no cinema noir, e “A montanha dos sete abutres” (1951), obrigatório para qualquer estudante de comunicação.


Sessão comentada

Vencedor dos Oscars de Melhor Roteiro Original, Direção de Arte e Trilha Sonora, “Crepúsculo dos deuses” (1950), ponto de partida do que se entende por cinema moderno, será exibido hoje. O envolvimento entre um roteirista (William Holden) e uma decadente atriz (Gloria Swanson) que quer voltar ao cinema terá sessão comentada por Rodrigo Azevedo, programador do Humberto Mauro, e Ana Lúcia Andrade, professora da UFMG.


A pesquisadora é autora de “Entretenimento inteligente: O cinema de Billy Wilder”. Publicado originalmente em 2004, o livro ganhou, em 2024, uma segunda edição pelo Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP). Haverá sorteio nesta noite de um exemplar da obra.


Para Azevedo, a intenção da mostra não é apenas um “gesto comemorativo” em torno das efemérides. “É a oportunidade para repensar esses nomes e o que eles representam. Ao reunir uma seleção ampla, que atravessa diferentes gêneros, queremos não fazer uma celebração nostálgica, mas sim um reencontro crítico.”


O programador chama a atenção para o fato de que ainda há muito o que aprender com a obra dos dois, “sobre performance, autoria e imagem pública”. Azevedo comenta que Wilder é um criador de mitos e Marilyn, uma figura mitológica. “Muita gente reconhece as imagens dos filmes mas ainda não teve oportunidade de um contato direto com as obras, que flutuam no imaginário. Essa seleção vai proporcionar que uma nova geração vá e assista, no cinema, a esses filmes em grande estilo. E quem já conhece poderá revê-los.”


Cópias restauradas

Todas as cópias que serão exibidas são em digital e foram restauradas. “É bastante incomum assistir hoje a grande parte desses filmes no cinema. ‘Nunca fui santa’ (1956), ‘Sabrina’ (1954) e ‘Irma la Douce’ (1963) há muito não são exibidos”, observa Azevedo. Da produção de Marilyn – que participou de quase 30 filmes, a metade deles em papéis pequenos – ele também destaca “O inventor da mocidade” (1952), de Howard Hawks. “É ali que ela assume o cabelo platinado”.


Wilder assinou o roteiro de quase 70 filmes. “Parece um elogio meio banal falar que ele é um dos grandes contadores de história em Hollywood. Só que poucas pessoas fizeram isso como Billy, que, de certa, forma ficou meio escondido em suas obras”, afirma o programador.


“Ele não é uma figura popular como Hitchcock, mas a precisão dos roteiros é grande. Sua escrita tem tanto eficiência dramática quanto profundidade. São histórias tanto para o espectador casual quanto para o cinéfilo que tem múltiplas camadas de leitura”, diz.


PROGRAMAÇÃO


Sexta (16/1)

16h30 – “Fedora” (Billy Wilder, França/Alemanha, 1978)


19h – “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, EUA, 1950): Sessão comentada por Rodrigo Azevedo e Ana Lúcia Andrade

Sábado (17/1)

14h – “Só a mulher peca” (Fritz Lang, EUA, 1952)


16h – “Pacto de sangue” (Billy Wilder, EUA, 1944)


18h – “Torrentes de paixão” (Henry Hathaway, EUA, 1953)


20h – “O rio das almas perdidas” (Otto Preminger e Jean Negulesco, EUA, 1954)


Domingo (18/1)

18h – “O pecado mora ao lado” (Billy Wilder, EUA, 1955)


20h – “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, EUA, 1959)

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“MARILYN MONROE & BILLY WILDER: O ENCANTO ÁCIDO DE HOLLYWOOD”
A mostra vai desta sexta (16/1) a 28 de fevereiro no Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, 31. 3236-7307). Entrada franca. Ingressos podem ser retirados no Eventim, a partir das 12h do dia de cada sessão, ou então meia hora antes, na bilheteria. Programação completa disponível no site da Fundação Clóvis Salgado

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