‘O beijo da Mulher-Aranha’ ganha nova versão com Jennifer Lopez
No filme que estreia nesta quinta (15/1), papel que foi de Sônia Braga, da personagem feminina que ocupa a imaginação de dois detentos, tem mais relevo
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Em uma prisão sul-americana, um revolucionário de esquerda e um cabeleireiro condenado por práticas homossexuais dividem a cela. Para passar o tempo, o cabeleireiro narra ao companheiro os filmes que o emocionaram.
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São histórias de mulheres exuberantes – as “femmes fatales” – que seduzem os homens e se entregam a paixões arrebatadoras; ou de grupos revolucionários empenhados em alcançar seus ideais em contextos marcados por ameaça, terror e medo.
Muitas dessas tramas, no entanto, jamais existiram. São criações do detento, que, por vezes, evocam clássicos de Hollywood e do cinema europeu no romance “O beijo da Mulher-Aranha”, de Manuel Puig, que transforma o afeto em forma de resistência.
O livro do escritor argentino ganhou a primeira adaptação cinematográfica em 1985, pelas mãos de Héctor Babenco (1946-2016). Quarenta anos depois, é Bill Condon quem se propõe a levar a história novamente às telas – desta vez, por meio de uma adaptação do musical de sucesso da Broadway nos anos 1990 –, com Diego Luna, Tonatiuh Elizarraraz e Jennifer Lopez nos papéis principais.
Em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (15/1), “O beijo da Mulher-Aranha” se mantém fiel ao livro, com pouquíssimas variações. Ambientada em meados da década de 1970, a narrativa começa quando o cabeleireiro Luis Molina (Tonatiuh Elizarraraz) é transferido para a cela de Valentin Arregui (Diego Luna).
Opostos
Os dois são opostos em quase tudo. Valentin é bruto, taciturno e dedicado à leituras marxistas. Já Molina é sensível, afetuoso e falador. O silêncio o incomoda e, justamente por isso, ele passa a contar histórias ao colega de cela.
Aqui surge uma diferença importante em relação ao livro: Molina não narra múltiplos enredos, mas diversas passagens de um único filme. Ele relata a saga de Ingrid Luna (Jennifer Lopez), uma famosa editora de revista capaz de despertar desejo e paixão em todos os homens à sua volta.
Cercada de luxo, Ingrid tem sempre ao lado um melhor amigo gay, no papel de fiel escudeiro. Idolatrada, ela se apaixona por um fotógrafo freelancer da revista e decide corresponder às investidas dele.
“Isso é típico desses filmes alienantes”, interrompe Valentin, rejeitando a história. Molina, porém, insiste e retoma o relato exatamente de onde havia parado, com a mesma empolgação: o fotógrafo convida Ingrid para viajar a Cuba, sua terra natal.
O casal – acompanhado do amigo inseparável da editora – segue para a Ilha e, ali, o fotógrafo reencontra pessoas de seu passado, entre elas uma antiga paixão. “Hora de dormir. O resto fica para amanhã.” Desta vez, é Molina quem interrompe, impondo uma narrativa fragmentada – que será a tônica do filme – e que aguça a curiosidade de Valentin.
Narrativa fragmentada
É difícil imaginar como um romance construído quase inteiramente em diálogos, com uma narrativa estilhaçada – em que Puig recorre frequentemente a notas de rodapé – e permeado por violência psicológica poderia ser transformado em musical.
Talvez o sucesso da adaptação se explique pelo fato de o gênero entrar em cena apenas para ilustrar as histórias narradas por Molina. O espectador compartilha de sua empolgação, de modo que as interrupções quebram o clima melodramático – acentuado pelo uso excessivo de cores fortes – devolvendo a atenção à cela escura e sufocante do presídio.
Além disso, o formato musical oferece a Jennifer Lopez a oportunidade de desenvolver melhor sua personagem, chance que Sônia Braga não teve no filme de Babenco.
De volta à cela de Valentin e Molina, predominam as cores frias e um ambiente opressivo, metáfora do Estado autoritário que vigorava na maioria dos países latino-americanos naquele período. Valentin, aos poucos, se sensibiliza com Molina e passa a se interessar pela história contada todas as noites. Ele deixa de ser hostil e, gradualmente, os dois constroem uma relação marcada por confiança, cuidado e afeto.
Molina continua desenvolvendo sua narrativa e introduz novos personagens: o reencontro do fotógrafo com a antiga amante não abala a confiança de Ingrid Luna. O que a perturba é descobrir que o homem que conquistasse seu coração receberia “o beijo da Mulher-Aranha” e não sobreviveria.
Paralelamente, um milionário influente da cidade decide disputar o amor de Ingrid. Tentando proteger o fotógrafo, ela procura afastá-lo, temendo que ele seja morto. Em uma reviravolta rocambolesca, descobre que quem incentiva o milionário a desafiar o amante é justamente seu amigo fiel, movido pelo ciúme.
Os clichês do melodrama já não incomodam Valentin. Pelo contrário, o afeto que desenvolve por Molina faz com que se interesse pelas histórias e emoções que mobilizam o cabeleireiro. No fundo, o interesse de Valentin passa a ser o próprio Molina.
Embora marcado por um desfecho trágico, “O beijo da Mulher-Aranha” reforça que a afeição, o carinho e a admiração são instrumentos potentes para desmontar hierarquias e preconceitos ligados à ideologia e à sexualidade. Assim como no livro de Puig, o longa de Bill Condon deixa claro que sentimentos puros e genuínos são atos tão subversivos quanto a militância.
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“O BEIJO DA MULHER ARANHA”
(EUA/México, 2025, 129 min.) Direção: Bill Condon. Com Jennifer Lopez, Tonatiuh Elizarraraz e Diego Luna. Classificação: 14 anos. Estreia nesta quinta-feira (15/1), no UNA Cine Belas Artes (Sala 2, 20h30); Boulevard (Sala 2, 21h15) e Ponteio (Sala 2, 13h40 e 18h45).