Juma Xipaia, de 35 anos, é liderança indígena do povo Xipaya, da região do Médio Xingu, na Amazônia. Primeira mulher eleita cacique na região, assumiu em 2023 a Secretaria de Articulação de Promoção de Direitos Indígenas, no Ministério dos Povos Indígenas, posto que deixou no ano passado.


É ativista dos direitos indígenas e da preservação da Amazônia e, por isso, conhece de perto os riscos da luta. Até 2020, Juma sofreu seis atentados à vida e precisou se exilar na Suíça por um ano. Foi nesse contexto que recebeu o convite do diretor austríaco Richard Ladkani para contar sua trajetória em um documentário.


“Yanuni”, pré-selecionado ao Oscar de Melhor Documentário, é uma coprodução entre Áustria, Brasil, Estados Unidos, Canadá e Alemanha. No grupo de produtores, estão Leonardo DiCaprio e a própria Juma. Também nessa categoria há outro representante do Brasil pré-selecionado – “Apocalipse nos trópicos”, de Petra Costa. A relação dos cinco filmes que disputarão a estatueta será divulgada no próximo dia 22.


De Los Angeles, onde participa ativamente da campanha do filme, a cacica comenta a dificuldade de ser reconhecida como produtora e de o projeto ser visto como indígena. “Ainda sinto o quanto a nossa presença incomoda. Nesse projeto, muitas pessoas enxergam o Richard ou o DiCaprio, mas não a Juma. Não enxergam a capacidade que eu, enquanto mulher e jovem, tenho. Não é somente o Richard, europeu, que está fazendo o filme. É o Brasil também”, afirma.


Aldeia Kaarimã

A produção contou majoritariamente com equipe indígena. Juma acompanhou todo o processo, consultou lideranças, aprovou cortes e, junto ao diretor, que aprendeu português para o projeto, exibiu a primeira versão do documentário na aldeia Kaarimã. Figurinos e trilha sonora, com participações de Katu Mirim e Djuena Tikuna, reforçam a autoria indígena.


A obra expõe a violência enfrentada pelos povos indígenas, especialmente durante o governo Jair Bolsonaro, período marcado pelo avanço do garimpo e pela intensificação das ameaças. Ainda em circulação por festivais internacionais, o documentário não tem previsão de lançamento em streaming.


Richard Ladkani, conhecido por seu cinema de natureza, teve a ideia do filme ao acompanhar as queimadas na Amazônia, em 2019. “A única coisa que posso fazer são filmes. Pensei que precisávamos de um filme para entender que estamos perdendo o ecossistema mais importante do mundo, e que esse não é um problema só do Brasil”, afirma.


O contato entre o diretor e a protagonista foi mediado pela jornalista e escritora Eliane Brum. Para Juma, aceitar o projeto foi uma forma de romper o silenciamento forçado. “Queria que as pessoas entendessem por que lutamos todos os dias, colocando nossas vidas em risco para defender a Amazônia. Não é só pelos nossos direitos, mas para defender o clima e a existência da própria humanidade”, explica.


Juma afirma que, desde a adolescência, assumiu a liderança do movimento por necessidade. “Eu só queria viver em paz no meu território, mas, diante de todas as ameaças, essa guerra constante nos tira dos nossos sonhos pessoais e nos leva para esse espaço mais coletivo em que penso: se eu não fizer, quem vai fazer? Quem vai defender?”, diz a cacica.


“Quando olho para o passado não tão distante e entendo todo o contexto de violência, de retrocesso, de genocídio contra nós, povos indígenas e povos tradicionais, é impossível não fazer nada, é impossível não se comprometer com a luta”, continua.


Sem roteiro, “Yanuni” começou a ser gravado em 2020. Ao longo de quatro anos, Ladkani acompanhou as crises no Médio Xingu e as consequências das mudanças políticas no Brasil. Também retratou as transformações na vida pessoal de Juma, como o casamento com Hugo Loss, analista ambiental do Ibama, e a gravidez de Yanuni, filha que dá nome ao filme.


O longa também ressalta o trabalho feito por agentes ambientais do Ibama na retirada de garimpeiros das terras indígenas, ofício frequentemente ignorado no debate público. “A equipe que faz as operações corre tanto risco quanto eu, às vezes muito mais. Eles estão na linha de frente, recebidos com tiro de fuzil e de metralhadora, porque a exploração dos nossos territórios é gerenciada pelo crime organizado. Não tem só as máquinas destruindo, mas pessoas altamente armadas dispostas a tudo para defender essa exploração”, diz Juma.

Erguida no coração da floresta para satisfazer interesses externos, Fordlândia acabou abandonada, tornando-se símbolo da tentativa fracassada de americanizar a Amazônia. Restaram memórias, ruínas e lições. A Amazônia, porém, permanece magnética, guardando histórias que revelam o desejo constante do mundo por ela. reprodução /tripadvisor
Fordlândia é um monumento à resistência da floresta e da cultura local. Representa a arrogância humana diante da complexidade biológica da Amazônia. Visitar o distrito de Aveiro, aliás, é confrontar o sonho e o fracasso de um dos homens mais ricos do mundo. reprodução /tripadvisor
O clima amazônico, por sua vez, divide-se em estação seca e chuvosa. Na seca, surgem praias de água doce e a caminhada entre ruínas se torna mais fácil. Já na cheia, o rio Tapajós domina a paisagem e altera a logística de acesso. reprodução /tripadvisor
O acesso a Fordlândia é feito por barco a partir de Santarém ou Itaituba, e a viagem pelo Tapajós, por si só, já é uma experiência turística que vale a pena. O isolamento geográfico foi crucial para a preservação das ruínas até hoje. reprodução /tripadvisor
O projeto ambicioso e fracassado de Henry Ford chegou a ser tema de um vídeo que mostra casas e galpões abandonados, a revolta dos trabalhadores e o declínio da cidade em 1945. Tornou-se, assim, uma fonte rica para quem deseja aprofundar-se na história. reprodução /tripadvisor
Fordlândia é considerada um museu a céu aberto e um prato cheio para fotógrafos. As ruínas industriais, casas decadentes e paisagens naturais criam cenários dramáticos. Nesse prisma, cada clique revela o contraste entre a grandiosidade humana e a força da floresta. reprodução /tripadvisor
Pragas nas plantações de seringueiras inviabilizaram a produção de látex, bem como a monocultura imposta por Ford não resistiu à biodiversidade amazônica. Esse erro estratégico foi decisivo para o colapso do projeto. gemini
Escondido na mata, o Cemitério Americano guarda os restos de alguns expatriados que viveram na cidade. O local reforça a aura de mistério e melancolia que envolve Fordlândia: uma parada simbólica para quem busca compreender o passado. divulgação
Além da história, o Rio Tapajós oferece praias de água doce belíssimas durante a seca, sendo a orla da cidade um atrativo turístico que combina lazer e contemplação. O rio, portanto, é parte essencial da experiência de visitar Fordlândia. reprodução/ tripadvisor
A icônica Caixa D’água de metal domina o horizonte de Fordlândia. Para quem se arrisca a subir, oferece uma vista panorâmica do Rio Tapajós, o símbolo máximo da cidade e um dos pontos mais fotografados pelos visitantes. reprodução/ tripadvisor
O “Galpão da Serraria” permanece de pé com maquinários originais em constante enferrujamento, o que testemunha silenciosamente um tempo em que se acreditava dominar a natureza. As marcas da Ford Motor Company ainda podem ser vistas nos equipamentos abandonados. reprodução/ tripadvisor
Projetado pelo renomado arquiteto Albert Kahn, o hospital de Fordlândia foi considerado o mais moderno da Amazônia. Hoje, é uma ruína impressionante, com vegetação invadindo janelas quebradas. O espaço é perfeito para fotografia documental e exploração urbana. reprodução/ The Henry Ford Org
A “Palm Avenue” concentra casas de madeira típicas do meio-oeste americano. Algumas foram restauradas e outras estão em decadência, habitadas por moradores locais. O contraste entre preservação e abandono reforça a atmosfera melancólica da cidade. reprodução/ tripadvisor
A estrutura erguida na selva, aliás, foi impactante: casas ao estilo de Michigan, hidrantes típicos dos Estados Unidos e até campo de golfe. A Vila Americana, construída em uma colina para aproveitar a brisa, ainda guarda vestígios desse estilo. Caminhar por ali é reviver uma tentativa de recriar o meio-oeste na Amazônia. reprodução/ tripadvisor
A fábrica de concreto se levantou e, por 18 anos, manteve a cidade em funcionamento. Até que Ford impôs determinações mais rígidas (futebol e álcool eram proibidos), e os trabalhadores brasileiros reprovaram, revoltando-se contra a americanização forçada, o que acelerou o fracasso do projeto. reprodução/ tripadvisor
Henry Ford idealizou Fordlândia como uma colônia industrial americana para produção de borracha. O objetivo era escapar do monopólio britânico e garantir látex para pneus da Ford Motor Company. Planejada com infraestrutura moderna, a cidade, contudo, enfrentou desafios culturais e ambientais. reprodução/ tripadvisor
Hoje, as ruínas da cidade seguem como testemunho histórico de um megaprojeto abandonado que evidencia como a Amazônia constantemente despertou o interesse de estrangeiros. Atraídos por seu imenso potencial, mas em muitos casos incapazes de entender plenamente sua diversidade e complexidade. reprodução/ tripadvisor
À beira do Rio Tapajós, no coração do Pará, situa-se Fordlândia, uma cidade fantasma fruto do sonho megalomaníaco de Henry Ford, o da marca de carros. Ao buscar transplantar o estilo de vida americano para a selva, a cidade foi criada em 1928 para ser a “Detroit da Amazônia”. google maps


Às vésperas das indicações ao Oscar, diretor e protagonista querem ampliar a visibilidade do filme. Ladkani, já pré-indicado duas vezes à premiação, sabe que esse é um momento estratégico. “Não se pode planejar isso, mas foi um objetivo. Agora estamos falando com muito mais jornalistas na imprensa de todo o mundo. Aprendi que, se você quer mudar algo, você deve tentar chegar a esse momento. Porque, agora, o mundo vai escutar”, comenta o diretor.


Para Juma, as premiações nunca foram um objetivo, mas ela reconhece o impacto que provocam. “Quando as pessoas assistem a ‘Yanuni’, elas são tocadas e começam a nos procurar, querer ajudar e dizer: ‘Estou te ouvindo’. Esse é o verdadeiro objetivo de se fazer documentários independentes. É usar a máquina do audiovisual, do cinema, não somente para o entretenimento, mas como ferramenta de transformação e de conexão”, afirma a líder.

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*Estagiária sob supervisão da editora Silvana Arantes

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