Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade
Ninguém cabe em duas laudas
Conhecer uma pessoa exige suportar o momento em que ela contraria a imagem que fizemos dela
Mais lidas
24/08/2026 02:00
compartilhe
SIGA NO×
Há alguns anos, recebi um e-mail de uma aluna no mês de março, bem no começo do semestre. Eram duas páginas dizendo que minhas aulas eram a única coisa que ela achava que fazia sentido naquele semestre.
Ela disse que ela nunca tinha encontrado alguém que pensasse com tanta clareza, e que eu era (ela usou essa palavra!) uma referência. Guardei aquele e-mail com um prazer que não poderia ser descrito como vaidade. Foi muito mais parecido com alívio.
Em junho, ela me escreveu novamente. Do mesmo modo, vieram duas laudas. Dessa vez, para dizer que eu era arbitrária e que não revia minhas decisões. Ela queria que eu abonasse duas faltas, coisa que não tenho o hábito de fazer.
Quando recebi o segundo e-mail, abri novamente a mensagem do início do ano para compará-las. A crítica foi ruim, mas confesso que não chegou a doer, pois acredito no poder da relação entre aluno e professor e sei que ela só pode ser construída quando eles vão à aula.
Fiquei muito mais espantada porque as duas pessoas que escreveram as mensagens não se pareciam. Uma tinha encontrado em mim uma referência quase religiosa. Já a outra me leu como uma inimiga fria e calculista.
A verdade é que nenhuma das duas havia me visto por inteiro. Primeiro, eu era perfeitamente boa e, depois, perfeitamente má.
Quis narrar esse episódio para refletir um pouco sobre a dificuldade, quase universal, que temos de suportar que uma pessoa possa ser, ao mesmo tempo, duas – ou mais - coisas. Aquela aluna que me elogiou em março precisava que eu fosse inteira, sem qualquer fissura, talvez porque ela carecesse de algo para se apoiar.
Quem me atacou em junho, precisava que eu não a decepcionasse, ainda que tivesse que descumprir minhas próprias diretrizes. Nos dois casos, minha aluna fabricou retratos de mim que cabiam em duas laudas. E um retrato, por sua própria definição, é a captura de um instante, não a realidade como ela de fato é. Quem cria esse retrato, muitas vezes, o faz na medida da própria carência.
Mas o mais desafiador da experiência é que eu percebi que também atuava daquele modo. Quantas vezes me vi idealizando colegas que mal conhecia, com base em uma palestra ou um artigo? Quem vai dizer que nunca? E do quanto eu me sentia perturbada quando descobria que eles tinham a mesma humanidade que eu?
Me incomodava o fato de a pessoa não corresponder àquilo que eu havia idealizado dela. Algumas vezes, quando a moldura que eu havia construído se rachava, eu simplesmente ia embora, sem oferecer muita explicação.
Não foram incomuns as vezes em que eu mesma transformei pessoas admiráveis em decepcionantes, sem passar por nenhum ponto intermediário em que elas pudessem ter sido reais e vistas por mim.
Em Lévinas, o rosto não se reduz aos traços com os quais descrevemos alguém, como o formato dos olhos, cor da pele ou algo do gênero. Para o autor, um rosto é aquilo que excede no outro qualquer descrição que eu consiga fazer dele. Quando reduzimos alguém a uma imagem, mesmo que seja uma imagem admirável, paramos de vê-lo.
Em vez do outro, nos relacionamos com um retrato dele que pintamos e que, portanto, não nos olha necessariamente de volta. A mesma aluna que me chamou de referência um dia, me tratou como uma inimiga. Nos dois casos, ela me transformou em uma tese. E uma tese nunca surpreende quem a formula, pois ela só pode ser confirmada ou desmoronada.
No caso da minha aluna, sua tese sobre mim foi negada por minha própria complexidade existencial. Seguirei lendo as duas mensagens, sem saber ao certo o porquê. Acho que é porque há pessoas do meu passado que eu gostaria de ter tido a chance de conhecer melhor depois da primeira decepção. Enquanto nos relacionávamos, nunca as vi de verdade.
Me fixava na idealização que tinha sobre elas. Na época, não tive maturidade suficiente para permanecer. Minha aluna não permaneceu.
O trabalho de desconstrução da idealização pressupõe a decepção que necessariamente acontecerá quando o outro real se confrontar com as nossas projeções. Esse trabalho envolve a admissão de que nenhum de nós é apenas bom ou mau. Nem apenas estúpidos ou geniais.
Numa segunda-feira, posso ser a professora intransigente que ela viu em junho e, na quinta-feira, posso ser a pessoa inspiradora que ela viu em março. Ambas são fragmentos de mim que, somados a outros tantos, formam a narrativa de quem eu sou. Entre as duas (adorável numa, decepcionante na outra), existe alguém real, que eu mesma não me atrevo a fotografar.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
