A tirania do "você dá conta"
Em uma sociedade que transforma toda pausa em culpa, até mesmo o esgotamento precisa ser justificado
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Organizando os materiais de leitura para o grupo de estudos que dirijo, me deparei novamente com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, depois de alguns anos da leitura do seu livro mais famoso, Sociedade do Cansaço. Ele descreve com grande nitidez a forma como nós, os chamados pós-modernos, organizamos nosso sofrimento. O autor afirma que vivemos a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho. Essa nova sociedade está organizada pelo excesso de positividade, que pode ser traduzida em frases como “você pode” ou “você consegue”, isso, independentemente de qual seja a meta.
Pode parecer, pelo menos em um primeiro momento, que fomos libertados da opressão externa. No entanto, na sociedade do desempenho desenhada por Han, não existe mais a figura do opressor, já que ele foi internalizado por cada um de nós. Nos tornamos senhores e escravos de nós mesmos. Passamos a nos explorar, convencidos de que isso é sinônimo de realização pessoal. Os exemplos dessa nova sociedade podem ser vistos por todos os lados. Há cerca de 20 anos não tínhamos quase nenhum livro sobre produtividade e alta performance, já hoje, eles ocupam prateleiras inteiras que antes eram dedicadas a modestos livros de autoajuda.
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Esse crescimento é um dos sintomas visíveis de que a lógica do desempenho está funcionando exatamente como foi concebida. Vivemos nossas vidas acreditando piamente que existir é sinônimo de suportar. Segundo Han, somos chamados, principalmente as mulheres, os trabalhadores precarizados, os cuidadores e as pessoas pobres em geral, a dar conta de tudo: casa, filhos, casamento, carreira e também dos afetos alheios que dependem de nós para não ruir. Tudo passou a ser responsabilidade nossa. E o perverso nisso é que esse comando interno é frequentemente travestido de virtude. Ser forte nos dias de hoje não é mais pela imposição da autoridade, mas nossa escolha e até mesmo parte da nossa própria identidade.
Nessa identidade que construímos não há espaço para a verdadeira pausa ou para o descanso com sentido. Em nome do desempenho, o que assistimos são corpos cansados, implorando por um descanso genuíno, mas impedidos por nós mesmos de tê-lo. Para muitos nós, passar uma tarde inteira na cama sem fazer nada e sem razão aparente já faz com que todos os que nos cercam comecem a se preocupar, nos convidando para irmos até um psicólogo ou um psiquiatra. Assim, nosso descanso é tratado como uma patologia que precisa ser medicada. Para a lógica da sociedade do desempenho, o cansaço não pode ser outra coisa que não um sintoma, nunca uma resposta legítima para uma vida que nos obriga a viver em constante estado de alerta.
O cansaço, dentro de tal lógica, passou a ser legítimo somente quando comprovado por um diagnóstico. E, ainda assim, em muitos casos, seremos taxados de covardes ou excessivamente sensíveis. É como se descansar precisasse agora de uma permissão, que depende de autorização médica para ser exercida sem culpa. Mas o cruel disso é que há uma inversão da lógica do cuidado: em vez de o corpo ser ouvido, ele precisa primeiro se justificar. E aquilo que deveria ser uma prerrogativa da própria existência, que é o direito de simplesmente parar, se transforma em privilégio que precisa ser conquistado com um atestado.
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Mas talvez seja hora de pensarmos a coisa de outro modo. E se o cansaço, longe de ser um sintoma, for uma resposta sã a uma vida que nos exige desempenho contínuo? Se entendermos assim, o descanso deixa de ser visto como fraqueza a esconder para se tornar uma forma de resistência a uma lógica que não nos considera sujeitos de fato, mas meros instrumentos para a produção. Se soubermos parar para descansar sem culpa, antes que o corpo seja obrigado a adoecer para finalmente ser ouvido, seremos mais generosos conosco, nos concedendo o simples direito de não fazer nada, sem qualquer justificativa a não ser o próprio cansaço.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
