Juraciara Vieira Cardoso
Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
Vitalidade

A vida útil

O papel de pessoa útil nos poupa da pergunta sobre quem somos quando nenhuma tarefa responde por nós

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Durante toda a minha vida recebi apenas amor condicional. Desde criança, para me sentir amada, intuía que precisava “brilhar”. Não sei por qual razão, ou talvez até saiba, nunca me pareceu que seria amada por ser exatamente quem eu era e, por isso, não media esforços para superar as expectativas que as pessoas tinham sobre mim. Eu simplesmente não suportava ver alguém dos meus precisando de algo que eu, ainda que não fosse solicitada, já estava a postos para oferecer ajuda. De ouvido amigo à pintura de apartamento ou faxina, eu sempre estava lá. A princípio eu não sabia, mas esse era o meu jeito de me fazer presente e, quem sabe, de também me sentir amada.

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Demorei muitos anos para notar o detalhe mais relevante dessa história que narro: ninguém pedia. Eu sempre chegava antes do pedido, me antecipando e me fazendo imprescindível ou, pelo menos, eu acreditava nisso. Foi lendo o livro 'O Ser e o Nada', de Sartre, que notei que eu era como o garçom que o filósofo descreve no livro.

Sartre narra que, ao observar um garçom em um café parisiense, notou que seus gestos eram precisos demais: o passo era um pouco apressado, a bandeja era equilibrada com o que o autor chamou de virtuosismo desnecessário, e a voz solicita demais ao anotar o pedido. Olhando para a cena, o filósofo se perguntou, afinal, o que aquele homem estava fazendo e conclui que ele estava brincando de ser garçom. Ele estava representando para si mesmo e para os demais o garçom ideal, num papel que precisa ser encenado o tempo inteiro, com zelo e com sobra. Naquele caso, percebeu Sartre, o exagero era a prova de que se tratava de uma atuação.

Me identifiquei nessa narrativa de um modo desconcertante. O meu excesso era o mesmo do garçom: chegar antes do pedido, antecipar a necessidade, estar a postos sem ser chamada, nada disso é exigência de quem ajuda, mas sim de quem representa. O ajudar genuíno admite pausa, ausência e até mesmo dizer não de vez em quando. Mas quem está atuando não pode se recusar nunca, pois o papel precisa ser reafirmado diariamente diante do olhar dos outros, senão desmancha. A conclusão, de tudo amarga, era a de que eu não estava apenas ajudando os meus, mas provando que eu era útil, para eles e para mim.

Seria muito cômodo dizer que fui vítima de um amor que só me foi dado mediante desempenho. Isso pode até conter alguma verdade. Mas o garçom não era zeloso tão-somente pela imposição do patrão, mas sim porque o papel o protegia de encarar de frente a pergunta sobre quem ele era quando nenhum papel respondesse por ele. O papel tem sua utilidade, pois ele acorda conosco, distribui as tarefas ao longo do nosso dia, dita nossos gestos e nos poupa da insegurança de sermos livres.

É preciso admitir que ser útil me protegeu por décadas. A pergunta sobre quem eu era nunca chegava a doer de fato, pois a resposta vinha pronta antes mesmo da pergunta: eu sou a que resolve. E não há como negar que existe um conforto existencial nisso, e desconfio de qualquer relato de libertação que não o admita. Não acredito que sustentemos tais papéis apenas por medo dos outros, mas sim porque acabamos aprendendo que o papel é um lugar. E, muitas vezes, ficar sem esse lugar assusta mais do que servir sem se questionar.

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Hoje não quero mais ser amada por ser útil. Quero ser amada por quem eu sou, e não porque estou me desdobrando em coisas que, muitas vezes, nem mesmo quero fazer. Mas, para essa travessia, estou sem “casa” nesse momento, larguei os papéis. E eu esperava que, uma vez que renunciasse a eles, surgisse em mim uma pessoa inteira, pronta e com as respostas sobre quem eu sou. Mas não está sendo assim. O que apareceu foi a pergunta que eu me privei de fazer por muito tempo, sobre quem eu era quando não estava servindo. Ainda não sei. E, intuitivamente, estou começando a achar que a ser livre seja menos sobre encontrar essa resposta e mais sobre suportar, sem correr para nenhuma tarefa, o tamanho da pergunta.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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