Juraciara Vieira Cardoso
Professora da UFMG, graduada em Direito, mestre em Direito Constitucional e doutora em Filosofia do Direito
VITALidade
Quando o passado continua no banco dos réus
A dor que não se transforma em sabedoria transforma-se em destino
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22/06/2026 02:00
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Outro dia fui dar uma palestra e uma pessoa me procurou ao final para conversar um pouco sobre o que eu havia dito. A conversa fluía bem, até que senti que ela tinha muita mágoa do seu passado e sempre questionava a razão pela qual sua vida havia transcorrido do modo como ocorreu e não de outro modo.
Não havia suavidade ou compreensão nessa visitação que ela fazia à sua história, apenas dor, tristeza e uma grande quantidade de arrependimento pelas escolhas que havia feito ao longo de sua vida. Segundo ela, sua existência era mais difícil que a da maioria das pessoas.
Eu me compadeci profundamente, mas confesso que essa última frase não me surpreendeu, pois eu realmente percebi que aquela pessoa não via nenhum tipo de aprendizado nas dores que a vida havia lhe imposto ao longo dela. Só havia mágoa e ressentimento pelo amor que não recebeu na infância, pelos homens que passaram por sua vida e só haviam deixado marcas ruins e pela família desfeita após uma traição do marido.
Nem um comentário sobre como aquilo a havia transformado ou a tornado mais forte. Conversamos por cerca de 20 minutos e, ao final, perguntei a ela se ela gostava da pessoa que ela era naquele momento e, para meu espanto, ela disse que se amava.
O que me deixou pensativa foi o paradoxo que, acredito, algumas pessoas também vivem: o sujeito se ama no presente – ou pelo menos afirma isso – mas rejeita o passado que o forjou. Como se fosse possível gostar do fruto sem gostar da árvore que o produziu.
Nietzsche nos convida a entrar nesse paradoxo por meio da ideia de amor fati, ou seja, o amor ao nosso destino. O que o autor propõe é mais exigente que a mera resignação passiva diante dos desafios que a vida impõe, ao contrário, a proposta é reconhecermos nossas perdas, nossas escolhas erradas e as traições que nos partiu ao meio como parte constitutiva de nós. Não há como separar o que somos daquilo que nos aconteceu, de bom ou de ruim.
O amor fati nos convida a não desejar que nossa vida tivesse sido outra, porque desejar uma vida inteiramente diferente talvez fosse desejar também outra pessoa no lugar de nós mesmos. Isso nada tem a ver com amar o sofrimento ou transformá-lo em virtude. Significa, antes de tudo, retirar o passado da condição de processo judicial em aberto, no qual revisitamos os autos, examinamos as provas e condenamos os réus, inclusive a nós mesmos.
Aquela mulher que me procurou sabia de cor cada erro e cada desfecho que deveria ter acontecido de outro modo em sua história. Contudo, nessa revisão, nenhuma condescendência, nem uma palavra sobre o quanto tais eventos foram parte constitutiva para que ela se tornasse a pessoa que ela erahoje. Havia uma clara divisão entre a pessoa que dizia se amar e a história que não conseguia honrar. Tal divisão é insustentável do ponto de vista existencial.
Nosso passado não pode ser devolvido, ele é parte constitutiva de quem somos e quando não aceitamos isso, ao invés do passado ser fundação, ele se torna um peso, peso esse que mal conseguimos suportar.
O que a ideia de amor fati nos propõe é pararmos de perguntar por que isso nos aconteceu e perguntarmos como isso nos transformou. Quando mudamos a pergunta, não mudamos nossa história - e nem queremos isso - pois ela é parte de nós, mas a retiramos do banco dos réus.
Para honrar nossa história, não precisamos amar tudo o que nos aconteceu, mas precisamos reconhecer que a pessoa que somoshojenão seria a mesma sem esse passado doloroso. Sem o amor que faltou na infância, sem o casamento que desmoronou e sem as escolhas erradas, não seríamos quem somos, mas outra pessoa.
Quando entendemos isso de verdade, mudamos nossa postura em relação ao passado: paramos de litigar contra ele e começamos a habitá-lo.
Se aquela mulher conseguirá habitar seu passado um dia, eu não sei. Espero sinceramente que sim. O que sei é que enquanto ela prosseguir separando a pessoa que ela ama no presente do passado que a constituiu, isso não será possível.
Amar a si mesmo exige, antes de tudo, a coragem de não cortar e, mais que isso, de acolher cada parte da nossa história como parte sem a qual não seríamos a pessoa que dizemos amarhoje.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
