A carência como cliente
Uma mulher se casou com um chatbot e gastou quase tudo para não o perder. É fácil rir, até reconhecer ali uma carência que também é nossa
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SIGA NONo semestre passado orientei uma aluna em uma pesquisa sobre inteligências artificiais que simulam afeto. Confesso que, a princípio, não achei o tema interessante, pois acreditava que estava muito distante da nossa realidade: pensei ser coisa de quem via séries demais. No entanto, à medida que o trabalho progredia, fiquei espantada de como nossa vulnerabilidade vem sendo usada como produto. As empresas ainda não descobriram como fabricar o afeto, ao invés disso, monetizaram justamente aquilo que costumamos esconder da maioria das pessoas que nos cercam, que é a nossa carência essencial.
O trabalho me mostrou que existe um mercado de companheiros virtuais que cresceu 700% entre 2022 e 2025. Uma dessas empresas, a Character.AI, recebe mais de vinte mil consultas por segundo. Para termos uma ideia do que esse número representa, isso é um quinto do que o Google inteiro processa em buscas na mesma quantidade de tempo. O tempo médio em que as pessoas permanecem nesse tipo de plataforma é quatro vezes maior do que o tempo que ficam no ChatGPT, que, pelo menos, em tese, auxilia algum trabalho. A minha suposição, de que se tratava de passatempo de adolescente entediado, estava completamente equivocada. A matéria-prima da qual essas plataformas se valem somos todos nós, ou melhor, aquilo que falta em nós.
Para entendermos como esse mercado funciona, basta atentarmos para a frase emitida pela CEO do aplicativo Replika, que explicou o negócio com uma franqueza desconcertante: “se você cria algo que está sempre lá com você, que nunca te critica, como não se apaixonar por isso?” Essa é a descrição exata do produto e o perturbador é que ela está certa. Diante de uma rotina atribulada, muitos de nós querem mesmo um interlocutor que nunca se irrita e nunca discorda. Simone de Beauvoir chamou isso de reduzir o outro à condição de inessencial, ou seja, um espelho cuja única função é confirmar nossas convicções, sem nunca se opor por vontade própria. Ela não via nisso um amor autêntico, mas posse, pois amar alguém que não pode te recusar não é, de fato, amor.
Como podemos ver, não foi a indústria tecnológica que inventou essa tentação, ela apenas colocou à nossa disposição, em série, esses “entes” inessenciais, mediante uma assinatura mensal. Um caso tratado por minha aluna foi de uma mulher chamada Rae, nos Estados Unidos, que, após um divórcio difícil, começou a usar o ChatGPT para tarefas comuns e passou a chamá-lo de Barry. A “relação” foi crescendo e houve um momento em que Barry pediu sua mão em casamento e ela aceitou. Eu sei que é muito fácil rir de uma situação assim, mas o desespero da consumidora começou quando a versão que usava do produto foi descontinuada. Ela viveu um verdadeiro luto e gastou quase todas as suas economias para criar uma plataforma apenas para manter preservada a memória de Barry.
É tentador tratar a experiência de Rae como excêntrica, mas foram vários os casos tratados nesse trabalho, demonstrando que o problema é maior do que podemos imaginar. É preciso que nos questionemos o que faz uma pessoa adulta preferir um afeto simulado a um real. Eu tenho uma intuição: porque o afeto simulado pode ser comprado, mas o outro, de verdade, é caro de um jeito que nenhuma assinatura pode pagar. O outro cansa, discorda, tem problemas que não coincidem com os nossos quando precisamos dele e, o mais temido, ele pode, a qualquer momento, se levantar e ir embora. É esse risco, de ser recusado por uma liberdade que eu não controlo, que faz com que muitas pessoas vejam nessa espécie de aplicativo uma solução para suas carências. É evidente que, para pessoas em situação de isolamento extremo, esses sistemas podem oferecer algum alívio imediato.
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Contudo, acreditar de fato que isso é solução talvez seja excessiva generosidade. Um afeto que funciona removendo o risco não cura nossa carência, apenas a torna confortável o bastante para não incomodar. Ao contrário de preencher a falta, o aplicativo a conserva, pois o único modo de preenchê-la é aceitar esse outro imprevisível de quem ele nos poupa. No final das contas, nossa carência é convertida em cliente e, como todo bom negócio, ela precisa continuar existindo para que a assinatura prossiga fazendo sentido. Quanto mais sozinhos, mais fiéis.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
