Contar estrelas ou regar rosas?
A diferença entre contar o que se tem e cuidar do que se ama
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Um dia desses, tomando café com umas amigas, conheci um homem muito intrigante. A impressão que tive foi a de que ele parecia ter domínio pleno sobre sua própria vida. Ele sabia falar dos horários nos quais teria compromisso com enorme exatidão; ele não hesitava em nenhuma de suas opiniões. Mas o que verdadeiramente me intrigou foi o prazer com que ele falava que vivia sozinho e não gostava muito de pessoas ao seu lado.
Em um primeiro momento, pensei que ele pudesse estar se escondendo de algo, entretanto, ao final, o que pude perceber é que ele não estava se defendendo de nada: me pareceu bastante satisfeito com a engenharia eficiente que sua vida havia se transformado. Eu fiquei o dia todo pensando se aquilo era, de fato, autossuficiência ou se era apenas uma vida organizada para que certas perguntas nunca precisassem ser feitas.
Essa cena me lembrou de um livro que carrego comigo desde a infância, quando eu tinha verdadeira paixão em acompanhar as histórias do Pequeno Príncipe e viajar junto com ele aos asteroides e às estranhas figuras que ele conheceu durante a jornada. Quando, atualmente, tenho contato com a magistral obra de Saint-Exupéry, percebo nuances que nunca havia visto antes.
Todos os personagens são comoventes, mas um, em especial, me comove mais: é o homem de hegócios, dono de 501.622.731 estrelas e que estava sempre muito ocupado fazendo a contagem delas freneticamente.
Ele me perturba porque não é tão ridículo como o homem vaidoso, nem tão patético quanto o bêbado. Ao contrário, ele é, à primeira vista, um homem de sucesso e explica para o Pequeno Príncipe com incomum paciência seu método: ele contava as estrelas, anotava o número em um papel e trancava o papel na gaveta.
Ele se dizia rico porque, em sua opinião, era dono de tudo o que contava. Quando questionado pelo principezinho para quê servia ser dono de estrelas que ele nunca visitava ou tocava, o Homem de Negócios falou que elas serviam para comprar mais estrelas, se alguém as descobrisse.
A pergunta do Pequeno Príncipe não foi ingênua e, imagino, ele pensou que aquilo faria o Homem de Negócios refletir, pois estava fora do sistema que ele havia construído em torno de si. No entanto, o Homem de Negócios não se irrita, não se defende e não hesita nem por um instante e, ato contínuo, retoma sua contagem de onde havia parado.
A pergunta simplesmente não o atinge e as estrelas seguem sendo contadas na mesma cadência de antes. Sua vida lhe parece perfeitamente ordenada.
É impossível não colocar, ao lado dessa cena, uma outra, talvez a mais fascinante de todo o livro, quando o principezinho chega à Terra e encontra um jardim com cinco mil rosas idênticas à que ele cultivava em seu pequeno planeta.
Por um instante, ele se sente traído, pois sua rosa havia lhe dito que era única e ele percebeu que ela era indistinguível de todas aquelas rosas que estavam naquele jardim.
Ele poderia ter pensado como o Homem de Negócios, deixando de ver a excepcionalidade de sua rosa simplesmente por haver milhares de outras rosas idênticas a ela. Mas ele percebeu que sua rosa era única não por suas qualidades mensuráveis, mas sim porque ele a havia regado, protegido do vento e passado horas a ouvindo reclamar.
O valor não estava na rosa em si, mas no tempo que ele havia dedicado a ela, algo que nenhuma das outras cinco mil rosas havia recebido dele.
Aqui está a distância entre contar e cativar. Enquanto um personagem soma e tranca a soma na gaveta, o outro rega e escuta. A verdade é que, ambos dedicam tempo àquilo que possuem, mas somente o principezinho percebe a mágica de ter algo verdadeiramente especial, algo que a simples contagem nunca conseguirá medir.
Voltando ao intrigante homem do café, não imagino que ele sinta falta de alguém, mas me questiono se existe em sua vida cuidadosamente calculada alguma coisa que ele tenha investido cuidado o bastante para que ela deixasse de ser substituível.
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Pode ser que exista, pode ser que não, mas acho bem possível que ele mesmo não tenha ainda se feito essa pergunta.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
