Quem é a Albertina? Padeira explica o nome da sua padaria
Difícil conseguir se dedicar às alquimias da cozinha quando se tem 21 crianças correndo pela casa
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Quem é a Albertina? Tá aí uma pergunta que ouço com frequência, vinda quase sempre em tom de surpresa quando descobrem que, na verdade, me chamo Renata.
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Cyrene Albertina Guerra Rocha, nascida em Belo Horizonte, em 1912, não fazia pães. Neta de imigrantes italianos, foi criada pela avó Vitória após perder a mãe na adolescência. Casou-se cedo e teve nove filhos, tendo sepultado a primogênita aos três meses de idade, por meningite.
Em 1944, após dar à luz minha mãe, sentiu algo estranho ali para logo descobrir que, além da placenta, havia também minha tia, gêmea de mamãe, pronta para se juntar aos outros quatro filhos mais velhos. Trabalhava como professora primária de dia e cuidava da prole quando chegava em casa.
Sou a 16ª de 21 netos e carrego a imagem de uma senhora de vestidinho florido de jérsei, carinhosa e disponível, mas de poucas palavras. Não me lembro de grandes arroubos falatórios de vovó e hoje, muitos anos após sua morte, com o privilégio de viver uma vida que escolhi, tento imaginar o que se passava por dentro daqueles olhos doces. O que ela pensava e desejava para si enquanto atravessava uma vida ocupada por filhos, trabalho, casa e família?
Minha avó não era exímia cozinheira. Fazia um nhoque de batata meio pesado e uma torta de banana muito mal-acabada, de massa grossa e merengue desequilibrado, mas que ocupa um lugar de honra dentro da minha memória gustativa. Recebia os netos com bacias de jabuticaba e pitanga colhidas do pé no quintal, que, por si só, já eram iguarias inesquecíveis.
Acredito que esse imaginário de que existe algo de especial na comida de vó vem mais de um toque de magia carinhosa e permissiva que as avós dedicam à alimentação dos netos do que de habilidades culinárias de fato. Talvez o sabor esteja justamente nesse lugar em que a comida deixa de ser apenas comida e passa a carregar afeto e lembrança. Difícil conseguir se dedicar às alquimias da cozinha quando se tem 21 crianças correndo pela casa.
No fim da vida, com quase todos os netos já crescidos, lembro de ver minha avó fazer algo para si mesma. Colocava um disco do sertanejo Sérgio Reis na vitrola e pintava quadros a óleo, retratando casinhas coloniais e naturezas-mortas que, timidamente, começaram a se transformar em algo diferente. Talvez porque fosse uma das poucas vezes em que eu a via ocupada com algo que parecia destinado apenas a ela.
Que universo infinito existiu dentro de minha avó que nunca pudemos alcançar? Quantas mulheres viveram ali dentro? Quantas versões dela ficaram guardadas, esperando algum espaço para aparecer?
Logo que comecei a compreender que meu hobby apaixonado estava se tornando uma profissão, decidi que precisava dar um nome ao meu projeto. Queria um nome brasileiro, original, cujo significado não se encerrasse no conceito de fazer pão. Um nome que carregasse algo de mim, mas também algo que viesse de antes.
E Albertina apareceu para mim, tão lindo e único, como uma possibilidade de honrar essa linhagem de mulheres que vieram antes de mim e pavimentaram o caminho para que eu pudesse escolher ser quem sou. Talvez por isso o nome tenha feito tanto sentido. Ele não fala apenas sobre a minha avó, mas sobre aquilo que recebi sem perceber e que chegou até mim.
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Minha resposta à pergunta recorrente é simples: não, eu não aprendi a fazer pão com a minha avó. Aprendi a valorizar minhas conquistas e celebrar minhas escolhas, entendendo o privilégio de poder ser quem sou e viver minha vida plenamente, livre para fazer o meu melhor.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.