Última chance
O primeiro turno das eleições no Brasil mostra a exaustão do eleitorado, com abstenção de mais de 33 milhões de votos
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O resultado do primeiro turno reflete, sem nenhuma sombra de dúvida, a situação do Brasil. O resultado espelha um país dividido, desconfiado e emocionalmente exausto diante de uma escolha que não é simplesmente entre dois nomes, mas entre duas propostas, entre o partido democrático-progressista e o herdeiro de Bolsonaro neoliberal, representante do tipo de direita que acreditávamos em declínio depois de 1964.
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Ana Elisa (PT-MG), a mais jovem mulher negra eleita deputada federal, fez uma declaração que ajuda a entender a tensão que envolve os eleitores e a política desde o surgimento do bolsonarismo. As disputas eleitorais entre direita e esquerda, nas campanhas de Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e José Serra, contavam com o respeito à democracia.
Os derrotados aceitavam os resultados. Se cumprimentavam e se respeitavam. Não levantavam dúvidas sobre o processo eleitoral ou incitavam quebra-quebra ou golpe de Estado. Não promoviam discurso de ódio. Não armavam a população. Não despertavam ódio entre amigos e irmãos.
Segundo o jornalista Luiz Pellegrini, a primeira constatação é incontornável: o bolsonarismo não morreu com Bolsonaro encarcerado. Criou raízes. Tornou-se identidade política, comunidade de valores, repertório de ressentimentos e, sobretudo, uma poderosa máquina eleitoral.
Transferir votos para um herdeiro é uma coisa. Transferir uma visão de mundo é outra. Sua imagem, postada pelo partido, na mesma pose de Mussolini em frente ao Partido Nacional Fascista da Itália, revela muito.
A fala é vital para a psicanálise. Escutando Flávio Bolsonaro, tememos o que a escalada do bolsonarismo pode nos tirar: acesso à ciência, aos avanços que ela nos garante, à qualidade de vida que só ela nos proporciona.
Anunciou que vai cortar R$ 250 bilhões do orçamento, seu plano de governo não inclui o Farmácia Popular, prevê desvincular salário mínimo e aposentadorias dos avanços da inflação, acabar com a pesquisa nas universidades.
Isso não afetará só o pobre. Com mais gente sem acesso à saúde e alimentação, perdem o comércio e a indústria. Cresce a violência. Hoje, a China é a maior compradora de produtos brasileiros, principalmente agropecuários. Os Bolsonaro não fazem negócio com a China, um perigo para nossa economia. Estaremos à mercê dos interesses dos EUA.
Ele pretende mudar a Constituição, “redemocratizar o Brasil” – o que seria isso? Levar as universidades federais do Ministério da Educação para o de Ciência e Tecnologia, cortar verbas da Capes, reduzindo a distribuição de bolsas.
Daniella Marques, e x-presidente da Caixa Econômica Federal no governo Jair Bolsonaro e atual coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, afirmou, em eventos e debates, que o plano econômico do grupo se inspira nas reformas realizadas pelo presidente argentino Javier Milei. A Argentina está na bancarrota. Metade da população se alimenta mal. Até a Globonews mostra isso.
Se tudo o que dizem é verdade, o que vão fazer com o Brasil é pura destruição, mas eleitores deles parecem ignorar o risco dessas falas. Vão liberar mais armas, vê-se na imagem uma criança bem-nascida, de família afortunada, com duas armas, inclusive um fuzil, comemorando a vitória deles no primeiro turno.
O bolsonarismo não é a representação da direita. É um braço da extrema direita. Da radicalidade, da extrema paixão. Como toda paixão, não permite distanciamento de seu objeto. Não permite crítica, porque o apaixonado projeta no objeto tudo o que precisa para alimentar essa paixão cega. O primeiro turno mostra a exaustão do eleitorado, com abstenção de mais de 33 milhões de votos. Precisamos deles.
A psicanálise não sobrevive sob regime antidemocrático. Ela vive da associação livre e da inegável existência do inconsciente, um novo saber singular sobre o desejo. E, para tal, a liberdade é ponto pacífico.
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Não esqueçamos que a obra de Freud só chegou até nós porque a princesa Marie Bonaparte a resgatou na Alemanha, por meio de relações diplomáticas internacionais de seu marido, príncipe grego, assim como o salvo-conduto para Freud, família e comitiva.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.