A fila anda
O amor-paixão não é perene, ele vem sem garantia e esfria com o tempo. Ele acontece ou não, à revelia do sujeito, que não tem o domínio sobre o que deseja
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A marca da contingência na vida amorosa é sua condição. O amor-paixão não é perene, ele vem sem garantia e esfria com o tempo. Ele acontece ou não, à revelia do sujeito, que não tem o domínio sobre o que deseja e, portanto, se o desejo muda de direção, o melhor mesmo é entender. A pior hipótese é não admitir a perda e a verdade: a fila anda...
Casais que optam por permanecer juntos apesar do amor devem pensar por quê o fazem. Seja pelos filhos, por interesses outros, acomodação, por se transformar em amor fraterno e parceiro. Se fazem esse sacrifício pelos filhos, se enganam, porque filhos de uma união infeliz e conflituosa sofrem as consequências dessa relação.
Também a recusa à separação, quando proposta pelo outro, por machismo dos dois lados. Dos homens: não aceitam a perda por ferir sua honra e virilidade. Das mulheres: acreditam que sem um homem perdem o valor. Fazem tudo para ter um homem pra chamar de seu.
O maior problema é quando o amor se torna ódio, porque o ódio é o lado negativo do amor, quando ser deixado torna-se questão de honra. A indiferença, sim, é o fim do amor. Temos assistido a tantas tragédias por causa de separações que precisamos de uma reflexão ética do porquê de tantos finais trágicos e desesperados.
A sexualidade masculina, geralmente, é acompanhada da fantasia viril toda fálica, que o obriga a ser sempre potente, a exigência de nunca poder falhar como macho. Tal imperativo acompanha a vida do homem, e, para muitos, é motivo de grande sofrimento. Qualquer tipo de falha, fraqueza ou impotência é insuportável. Dilema insolúvel, pois não existe quem não falhe.
No imaginário coletivo machista, o macho alfa não pode falhar. E, se falha, é porque não é capaz de manter a mulher satisfeita em um gozo pleno e isso aponta para sua insuficiência. Chamamos isso de engodo viril.
Essa dimensão trágica tem seu lado cômico, não para o sujeito identificado na ostentação fálica. Para ele, a ameaça de castração é vivida numa dimensão trágica. Explico. Para alguns, ser deixado é um golpe narcísico, que desmonta a estrutura de bem dotado, de poder viril, revelando a castração de seu portador. Cômico porque sustentar o semblante da potência absoluta é uma façanha impossível.
Nenhum homem pode ser exceção, o pleno gozo é impossível. Os homens, assim como as mulheres, só podem ter um gozo parcial, porque estão todos os neuróticos sob a égide da castração. Temos limites que devemos respeitar e insistir em ir além disso é entrar num desespero passional cujo resultado é danoso e funesto.
Todos, mulheres e homens, deixamos a desejar porque somos limitados diante dos ideais de prepotência e plenitude. O mais penoso e sofrido é não aceitar isso, pois a recusa causa uma ansiedade violenta e, em muitos casos, um sofrimento tão insuportável que o sujeito passa ao ato, com intenção de eliminar a pessoa que retira dele o orgulho viril.
Para a psicanálise, a cura se daria a partir de uma desmontagem do engodo viril, que se daria com uma análise levada até ao fim e a travessia da fantasia, ou seja, a travessia da virilidade, sua decomposição estrutural. Isso permite ao sujeito modificar sua relação com a castração, sem demérito.
Promover sua dissolução a partir da aceitação da falta, a que todos estamos sujeitos, homens e mulheres, a diferença é que o homem tem um órgão, e que essa posse exige muito dele. Deve sustentá-lo como um símbolo de sua potência, como prova de masculinidade e, impedido disso, a masculinidade é questionada.
Muitas famílias temem que seus filhos sejam homossexuais e os educam para se provarem potentes conquistadores, predadores na sua relação com as mulheres, que, por sua vez, são tratadas como objeto sexual. A liberalidade sexual contemporânea sintoniza com tais valores.
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Por isso, diante de um não, se recusam a abrir mão da relação e fazem um forçamento violento. Recusam-se a aceitar e entender que a fila anda. Ledo engano!!! Quando um amor acaba... outros virão!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
