Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
EM DIA COM A PSICANÁLISE

Sobre a dor de existir

BH recebe no mês que vem o psicanalista Antonio Quinet, com a conferência "A falácia da depressão generalizada e a clínica do sujeito"; inscrições estão abertas

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Belo Horizonte receberá no dia 4 de setembro o psiquiatra, psicanalista, filósofo, escritor, dramaturgo e pesquisador Antonio Quinet, umas das figuras mais influentes na psicanálise contemporânea. Recentemente, assumiu a cadeira que homenageia o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, na Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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Em seu discurso de posse, destacou a arte, a literatura e a escuta como instrumentos de transformação, estabelecendo uma ponte entre a clínica e a obra drummondiana: “As artes duram. As letras curam. As letras escritas, faladas, encenadas. O que nos impede, se não as pedras no caminho, de sermos o que somos? Poetas, seresteiros, psicanalistas, portadores de sonhos, desejo e utopias”.


Quinet é reconhecido internacionalmente por vários livros traduzidos para o espanhol, inglês, francês e turco, além de diretor da Companhia Inconsciente em Cena, com inúmeras peças encenadas no Brasil e no exterior, como “Freud e Hilda”, apresentada no Museu Freud, em Londres.


É convidado do Fórum do Campo Lacaniano de Belo Horizonte para proferir a conferência “A falácia da depressão generalizada e a clínica do sujeito”, seguida de noite de autógrafos do livro “Extravios do desejo: depressão e melancolia” (org. Antonio Quinet, Rio de Janeiro: Atos e Divãs Edições, 2026), aberta ao público inscrito.


A depressão é um importante sintoma contemporâneo, que, sob a égide do discurso capitalista, nos impõe a obrigação de sermos felizes e produtivos. São diversas gradações, desde o luto, até a melancolia (na clínica das psicoses), e diversos matizes da depressão nas neuroses.


A tristeza é o afeto que afeta. Corresponde ao mal-estar e à dor de existir, que acompanha, invariavelmente, segundo Lacan, a covardia moral, quando o sujeito recua diante do dever ético de honrar seu desejo. Isso é sinônimo de um entristecer.


Podemos dizer que aquele que não diz nada e não quer saber nada sobre seu desejo é triste, deprimido ou melancólico, porque não tem uma relação firme com a cadeia inconsciente do desejo. Nega, inclusive, um inconsciente vivo, que dá seu recado àqueles que se escutam, que se perguntam sobre si e suas ações.


Saber sobre si mesmo é se orientar em relação ao desejo inconsciente e significa saber quais são os significantes que determinam suas ações, sintomas e fantasias. O desejo é a força de existir mais poderosa, porque é determinante quanto a persistir na existência e não desistir, como é próprio dos melancólicos.


Quinet apresenta sua obra lembrando que, se o poeta melancolicamente diz que a tristeza não tem fim, a clínica psicanalítica mostra, a partir de Freud, que a tristeza tem uma história que começa com uma perda, se constitui como covardia moral e rejeição do saber e termina a partir da transmutação em um alegre saber e desejo de existir.


Um dos capítulos do livro traz a minibiografia de Florbela Espanca, poeta portuguesa, em cuja poesia a dor se mostra pungente e constante, por sucessivas perdas, dor que, enfim, a levou ao autoextermínio.


Também comparece o filósofo e matemático Louis Althusser, que, em surto, assassinou a amada esposa e, quando deu por si, estupefato, tentou expor publicamente à apreciação pública o que tinha a dizer no livro “O futuro dura muito tempo”. Considerou injusta a punição de dois anos internado em instituição de saúde, desobrigado de responder judicialmente por seu ato. São muitos outros excelentes textos incluídos. Vale a pena conferir.


Enfim, na tristeza, o sujeito, além de ferir a ética de bem-dizer, também cede do desejo e, concomitantemente, se esvai a potência vital que o sustenta. O supereu assume o comando e acusa, a culpa vem como resposta num gozo mortífero, em que se abre a dimensão do inferno de Dante.


Quinet propõe, afinal, aludindo ainda a Drummond: “Desempedre-se. Conheça teus caminhos num divã, para que suas pedras se deixem contar, soletrar. Pois, como diz Drummond, ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar. E assuma: vai ser gauche na vida.”

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Interessante leitura para leigos e profissionais. Inscrições para a conferência: R$ 95, pelo telefone (31) 99206-7641.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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