Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
Em dia com a psicanálise

Especularidades no jogo político

É no comportamento regressivo, primitivo, que Javier Milei se projeta no outro e teme a retaliação, agindo como enfant terrible

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Muitas coisas nos chamam a atenção no cotidiano político dos jornais. Em ano de eleição, as coisas esquentam. E até passam do limite do razoável. A educação, a cortesia, os bons modos são esquecidos e muitas ilegalidades e abusos são praticados. A política, na prática, é muito decepcionante. Ofensas – de onde se esperava, e deveria haver, uma política honrada – levam a uma crise.

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As intenções são claras. Nenhuma das palavras do presidente da Argentina, Javier Milei, foi casual. Foram pensadas, calculadas, e ele, um presidente, estava no Brasil sem comunicar previamente sua vinda, como requer o protocolo entre países.

Na mesma convenção da direita, também outro forçamento: exibiram um vídeo do ex-presidente, hoje igualmente presidiário, realizado por IA, alegando que o ex-presidente de nada sabia...

Milei não nomeou, mas fez alusões ao atual presidente como ex-presidiário, ladrão, e ao ministro do Supremo, lixo careca. Ele foi extremamente deselegante, porque, por mais que se oponha, há que se fazer política com respeito ao país, ao Judiciário e ao presidente. Jamais entramos em casa alheia desse modo. Principalmente se não compartilhamos dos mesmos ideais.

Podemos discordar, e isso é democracia, mas a grosseria e a agressividade tomaram conta da política. Isso poderia ser evitado com um mínimo de educação, do comedimento que se requer das autoridades.

A Casa Rosada descartou pedir desculpas oficiais pelas falas do mandatário, classificando o episódio como divergências políticas e ideológicas. E ainda recrudesceu o conflito, afirmando que o presidente é corrupto e ladrão. Porém, na política brasileira, é difícil separar o joio do trigo. Do lado dele estava o candidato Flavio Bolsonaro, igualmente acusado de transações suspeitas, as quais nega.

O surpreendente foi a subsequente declaração de Milei de que não aceitará insultos de estrangeiros contra a Argentina! Espanto. Expulsará de seu país aqueles que o fizerem. Uma fala de defesa, sobretudo, especular.

A pressa em anunciar que não aceita ofensas contra seu país, logo depois que veio ao Brasil e fez exatamente isso! Ele projetou, imaginou resposta equivalente à sua, uma recíproca, com insultos e baixaria. Mas, de fato, não é isso o que está acontecendo. O Brasil responde com tratativas diplomáticas.

Jogo de espelhos

As crianças são assim, mordem o amiguinho e, depois, chorando, dizem que foram mordidas! Elas se defendem acusando. O olhar é o primeiro espelho que nos reflete. E o reflexo é invertido, como é próprio dos espelhos. E é através dele que reconhecemos nosso corpo, que, até então, não assimilávamos como organizado em uma imagem inteira.

Uma das fases do desenvolvimento é especular, quando nos reconhecemos no espelho pela primeira vez, imagem completa, porém, invertida. Momento chamado júbilo. É sensacional.

Quero, com isso, enfatizar essa projeção, invertida no outro, de um ato que a própria criança praticou. A atitude própria dos perversos polimorfos que são as criancinhas, como explicou Freud, é anterior à internalização da moral civilizada. Só que no adulto é estratégia, sabemos, teve aliados. Mesmo assim, uma estratégia primária perversa.

É nesse comportamento regressivo, primitivo, que Milei se projeta no outro e teme a retaliação, comportando-se como enfant terrible, sem noção. Para não aceitar insultos e expulsar do país, terá que aprovar a lei primeiro. E terá opositores, uma vez que 30 deputados argentinos já se manifestaram contrários.

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Ele atira pedras, mas esquece seu telhado de vidro!! Uma especularização que, vinda de um adulto, uma autoridade, é inapropriada. Até sua presença no nosso país foi à revelia. Felizmente, o Brasil lhe respondeu com diplomacia.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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