A sustentação feminina
O desejo da mulher sustenta a virilidade e se torna questão de honra. Nos casos de violência, quando o desejo é retirado, o homem sente-se ferido de morte
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Voltemos a falar do que, neste momento, circula na mídia, nas delegacias e no Judiciário: os crimes contra as mulheres. As estatísticas mostram o índice de feminicídios crescendo. Uma escalada de ódio que escapa à lei, a medidas protetivas e a sentenças judiciais.
As mulheres têm motivo real para estarem alertas aos sinais indicativos do risco iminente de uma relação que começa bem, porque, no início, tudo são flores. Um novo amor traz alegria; o tempo mostra o engano. Mas a pessoa apaixonada, para não perder o amor, para acreditar ter encontrado a cara metade, releva os sinais que desde o princípio já se apresentam, mesmo que sutis e discretos.
São os ciúmes, a implicância com amigas e família, o afastamento do convívio social, o cerceamento da independência. O monopólio de sua vida, dinheiro, roupas. O desmerecimento de suas atitudes e pensamentos como bobagens. Não escutar. Aumentar o tom quando contrariado. E por aí se vai... Minando a estima da mulher, que passa de amada a desvalorizada.
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Se esses mecanismos de controle sobre a mulher são recusados, vem o avesso do avesso. Disse Freud que o contrário do amor é a indiferença. O ódio é a outra face do amor. São páginas da mesma folha. Na página um, amor. Página dois, ódio. O “enamoródio” guarda sentimentos opostos inseparáveis. E, pior, a leitura não passa da página dois.
O amador deveras sofre e frui as delícias do amor. A palavra já diz: ama-dor. O amor é droga pesada, não fomos preparados ou não queremos saber da inegável fatalidade de que ele é contingente. Ele não oferece a estabilidade que oferecem o álcool ou as drogas, que a cada dose proporcionam a constância do efeito permanente, sempre invariável. O alcoolista e o drogado não se decepcionam em seu amor à droga. Sempre encontram o que esperavam.
Do amor, já não se pode dizer o mesmo. Amor não é brinquedo de criança, nem mesmo de profissionais, ninguém domina seus efeitos. Seu início vem, nos toma de surpresa, e seu fim se anuncia com as desilusões do cotidiano. O amor só sobrevive no companheirismo e fraternidade afetiva.
O seu fim arrasta, muitas vezes, inconformismo, ressentimentos, inimizade e, enfim, o ódio passional em trágicas histórias apresentadas nos jornais. É impressionante como pessoas que se amaram por anos não preservam a parte boa do outro. Muitos nem podem ouvir falar do ex. Nem mesmo frequentar os mesmos espaços. Nem se manifestar na vida que segue. A pessoa amada vai para o fundo de um baú, ou de um caixão. Talvez, uma negação obstinada para suportar a separação. Um insuportável inevitável, muitas vezes.
É claro que a paixão nos faz ver o que queremos no outro, e, quando arrefece, surge a realidade como ela é, causando desencantos – essa é uma das faces enganosas do amor. Cobrir de ouro a quem se ama e, depois, sentir-se enganado. Errado. Os amantes se enganam, projetam seus desejos, viram no outro o que precisavam para amá-lo.
Enfim, voltando aos crimes de amor e ódio, é pelo grande valor da mulher que a reprimiram e subjugaram sob a dominação machista.
Hoje, a mulher rompeu amarras, tem direito ao desejo e, principalmente, a não desejar!
Aí mora o perigo. As mulheres lutaram contra o jugo masculino, que, inconsolável, se volta contra a liberdade do desejo como fosse um desaforo, afronta à virilidade. Do que se deduz: feminino é a sustentação do falo masculino.
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O desejo da mulher sustenta a virilidade, por isso se torna questão de honra. Nesses casos de violência, quando o desejo é retirado, o homem sente-se ferido de morte. Desonrado em seus valores patriarcais, perde a sustentação, cai na impotência. Só vê saída num último golpe de poder: aniquilar aquela que o derrubou como homem. Seu valor de uso cai, e seu valor de troca não é mais moeda corrente. Fim de linha.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
