Não existe amor perfeito que não seja flor
Lacan aponta o risco de idealizarmos demais as relações amorosas, acreditando que possa haver um par ideal, defendido a qualquer preço
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Em 12 de junho, comemoramos o Dia dos Namorados. Uma data que marca a vida dos amantes-amados e apaixonados, oportunidade para renovar votos e valorizar os momentos de alegria no amor. Ocasião perfeita para celebrar o amor e curtir programas românticos a dois, jantares especiais, viagens e troca de presentes.
Todos amam o amor e o idealizam, elevando às alturas o valor de ter alguém para chamar de seu. Uma boa companhia que permaneça e nos faça esquecer. Esquecer perigos, solidão, dar um intervalo nas dores da vida. Mesmo sabendo – e quem não sabe? – que o amor é uma contingência, ou seja, pode acontecer ou não. Pode durar ou não.
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Aqueles que encontraram alguém e têm um relacionamento estável, com certeza, são competentes e habilidosos. Sem cuidado e dedicação, não existem relações saudáveis com a chance de perdurar. Relacionamentos dependem do respeito do parceiro pelo desejo e as diferenças do outro. Se um dos lados se anula e trai seu próprio desejo em prol do outro, o amor é ameaçado.
Claro que ceder em algumas situações é necessário e saudável, mas nunca a ponto de negar o que é singular em cada um. Na simbiose, quando dois se forçam a ser um, a coisa pode não ficar bacana a longo prazo. E isso ocorre na paixão. Se a alienação se perpetua, o que amamos no outro inicialmente se perde.
Com o tempo, há quem creia ter sido enganado. Mas quem se engana é o apaixonado, que vê no outro tudo o que precisava para amá-lo. Esta projeção é parte da idealização do amor. É preciso sobreviver e resistir à prova da realidade para permanecer amando o que o amado é, de fato. Por isso, o amor não oferece garantias.
Disse Lacan que “a relação sexual não existe”. Esta frase enigmática é pouco compreendida. Ele não quis dizer que não fazemos sexo. Aponta o risco de idealizarmos demais as relações amorosas, acreditando que possa haver um par ideal, defendido a qualquer preço.
No amor, é preciso aceitar faltas e falhas para que possamos continuar a parceria que valha a pena, mas que é sensível devido à tendência dos apaixonados em ceder de si pelo outro.
“Não existe amor perfeito que não seja flor” é uma frase poética da artista plástica Luiza Marilac Horta que soa como uma grande verdade, pois amor perfeito não existe, e foi isso que Lacan apontou daquela forma enigmática, deixando claro que de dois não se pode fazer um. Da mesma forma como não existem dois rostos iguais na face da Terra, também não existem dois que tenham desejos idênticos.
Sobre isso, continuo com Lacan, o amor romântico entre o homem e a mulher, entre duas pessoas, independentemente do gênero, é um amuro. Há diferenças e singularidades, cada um é único. Cada um com seu desejo, sintomas. E segue se há amor, um parceiro que suporte falhas. Sem isso, o amor se transforma em seu oposto, a indiferença; ou no seu avesso, o ódio. Daí as reações violentas seguidas de crimes que só provam a importância da mulher no universo masculino.
Diferenças não respeitadas, desejos não acolhidos, ser metade da laranja do outro não têm a menor a chance, porque faltam o respeito e a condição de prosperidade. Os forçamentos tornam as relações violentas, muitas terminam em atos criminosos de diversos graus, como o feminicídio.
Ficamos por aqui com uma pitada de poesia sobre as delícias do amor, mesmo que seja uma contingência, durando ou não. Amor é para os fortes que suportam o que disse a poeta Elza Beatriz: “Certidão de amor te dou se prenderes no papel um pássaro de nuvem que gorjeie”.
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Feliz Dia dos Namorados. Cuide bem de seu amor!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
