Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
EM DIA COM A PSICANÁLISE

Saiba qual é a diferença entre psicologia e psicanálise

As duas abordagens oferecem tratamentos diversos e incomparáveis. Não há entre eles paralelo possível 

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Enquanto a psicologia trata da pessoa, e das diversas facetas do eu, a psicanálise trata da materialidade das palavras na escuta do sujeito, daquilo que irrompe na palavra, para além do eu, escapando do controle e censura do supereu e que, até então, permaneceu excluído e inconsciente. Trata-se do recalcado, o esquecido, que nunca se esquece de nós, e peleja para retornar. Digamos que é aquilo que, de algum modo, não queremos saber.

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Conteúdos esses que podem ser desde antissociais, agressivos, pensamentos e associações que nos conduzem a ideias, restos, lembranças, traumas, que nos marcaram e se abrigam no inconsciente.


A gente esquece deles, mas eles não nos esquecem, e pressionam para retornar. Regurgitam angústias desgarradas, refluxos de ideias e palavras presas. Remam em direção contrária aos ideais e àquilo que a educação reforça em manter suprimido. São rastros e restos do reprimido.


Por isso, a psicologia e a psicanálise são tratamentos diversos e incomparáveis. Não há entre eles paralelo possível e nem podemos fazer um enfrentamento comparativo entre as duas modalidades de atenção psicológica ou psíquica, pela diferença metodológica que, na psicanálise, foi definida por Freud e retomada com precisão por Jacques Lacan, que foi além.


A descoberta de um inconsciente vivo e o trabalho com a materialidade da palavra nos permite uma decifração da palavra assim como se decifram hieróglifos egípcios. Pela sonoridade das palavras, a via fonemática, que prioriza os sons mais do que a vertente gramatical ou enciclopédica da linguagem.


Por essa via discursiva, decifra-se a verdade do sujeito que ele próprio desconhece sobre si. Não buscamos conhecimento, buscamos um saber que falha, que falta, que surge no equívoco, no lapso que nos oferece uma lógica diferente dos outros discursos, por exemplo, do científico ou do acadêmico, que pretende um saber completo através de uma exaustiva insistência metonímica para dar sentido, pela compreensão. Interpretações incansáveis…


Essa escuta nos permite aproximar da estrutura do sujeito, daquilo que o assombra e é sempre presente, em repetições infinitas, seu fantasma. Como o fruto que não cai longe do pé, tendemos a herdar comportamentos, valores, talentos ou características físicas dos nossos pais. Assim também nossa estrutura gira em torno de nosso fantasma, repetindo erros, sofrimentos, fracassos. Amarrados, andando em círculos.


Se o próprio sujeito não sabe o que o determina, o analista também não pode supor o que se passa com ele, a não ser que extraia esse saber em sua fala, do que nela está, além de sua intenção consciente de representação de si. Buscamos o oco do saber.


O buraco de sentido que faz com que o sujeito se horrorize e estranhe seus próprios atos, condutas e palavras que dirige ao outro e até contra si mesmo, das quais depois haverá de se arrepender, pelas consequências indesejáveis e prejudiciais que terão cavado um fosso entre ele e o outro, e para si mesmo, sem se dar conta.


Só depois mede o tamanho do estrago que cavou. E quem nunca se pegou errante, preocupado com o que disse a mais ou pelo que não disse quando deveria? Essa medida exata que não temos, nós, humanos, que vivemos pretendendo a perfeição tão distante das nossas capacidades.


Esse saber que pretendemos, sem furo, não o possuímos. O saber sobre nossos verdadeiros desejos e motivações é alijado de nós, se não por completo, parcialmente. O que nos conduz provém desse saber inconsciente, cuja lógica foge de nosso controle e consciência.


Esse saber sobre inconsciente descoberto por Freud, onde andava antes dele? Onde estava o saber antes dos mestres e cientistas que nos precederam? Estava esperando por alguém que lhes desse lugar no mundo, lhes desse palavra, uma invenção genial.

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E, nós, o que podemos fazer com esse insabido, esse estranho em nós, que nem nós próprios capturamos, senão quando falhamos?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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