Marcílio de Moraes
Marcílio De Moraes
Jornalista formado pela PUC Minas em 1988, com passagem pelos jornais Diário do Comércio e O Tempo. Trabalhou em coberturas de leilões de privatização e em feiras internacionais
BRASIL EM FOCO

Luz amarela na expectativa da construção civil no país

Setor de construção é termômetro da economia. Quando os negócios esfriam, o efeito cascata atinge desde o fornecedor de cimento até o mercado formal

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O horizonte para a construção civil brasileira voltou a ficar nublado. Segundo a Sondagem Indústria da Construção, realizada pela CNI e CBIC, os empresários do setor agora preveem uma retração tanto no emprego quanto no lançamento de novos empreendimentos para os próximos meses. Os dados, divulgados no fim de março, revelam que o otimismo que sustentava o setor deu lugar a uma postura defensiva e cautelosa.

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A pesquisa aponta que todos os indicadores de expectativa tiveram queda. O índice de expectativa de número de empregados recuou 2,3 pontos, fixando-se em 49,5 pontos. Já o indicador para novos serviços e empreendimentos caiu 1,5 ponto, atingindo 49,7. Ambos os índices cruzaram a linha de 50 pontos. Na metodologia da CNI, valores abaixo dessa marca indicam que o mercado deixou de esperar crescimento para vislumbrar a contração.

O nível de atividade também dá sinais de desaceleração. O índice recuou 0,8 ponto, fechando em 51,3 pontos. Embora ainda esteja acima da linha divisória, a proximidade do limite acende o alerta para uma estagnação iminente. No mesmo caminho, a intenção de compra de insumos e matérias-primas se tornou moderada, refletindo a cautela das grandes construtoras. Marcelo Azevedo, gerente da CNI, afirma que programas de incentivo, como o novo modelo de crédito imobiliário e financiamentos para baixa renda, não foram suficientes para anular a pressão dos custos.

“Os juros internos seguem muito elevados e o cenário externo é de muita incerteza”, avalia. Esse combo de fatores drena o fôlego financeiro das empresas e inibe a tomada de risco em novos projetos de maior valor. O reflexo imediato é a queda na intenção de investimentos, que recuou pelo segundo mês seguido, chegando a 42,1 pontos. O dado consolida a percepção de que o empresário prefere proteger o caixa a expandir a operação.

O índice de confiança (ICEI-Construção) caiu 2,1 pontos, marcando 46,5 pontos. Trata-se do 15º mês consecutivo em que o setor opera sem confiança. No campo operacional, a Utilização da Capacidade Operacional (UCO) subiu para 65%, mas o número é enganoso. Quando comparado ao mesmo período de 2024 e 2025, o patamar atual é inferior, mostrando que a indústria está rodando abaixo do seu potencial histórico recente.

Mesmo com uma melhora pontual em fevereiro, onde o nível de atividade subiu para 45,7 pontos, o sentimento geral é de desânimo. O setor de construção é, tradicionalmente, um termômetro da economia. Quando os negócios esfriam, o efeito cascata atinge desde o fornecedor de cimento até o mercado de trabalho formal. Com 47 pontos no índice de emprego atual, o crescimento registrado em fevereiro apenas interrompeu uma sequência de três quedas, mas não foi capaz de reverter a tendência de corte de pessoal no longo prazo.

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As condições atuais das empresas e da economia nacional são vistas como negativas pela maioria dos entrevistados. O desafio agora é político e econômico: como reduzir o custo de capital para que o canteiro de obras volte a ser um motor de geração de renda? Sem uma sinalização clara de queda nos juros e maior estabilidade global, o setor deve permanecer em compasso de espera. O cenário para o segundo semestre de 2026 exigirá resiliência e, acima de tudo, uma gestão rigorosa de custos por parte dos empresários que pretendem sobreviver à turbulência atual.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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