Perda urinária não é normal: o que toda mulher precisa saber
O problema não fica restrito ao corpo: afeta a rotina, a autoconfiança e a liberdade da mulher. A boa notícia é que há tratamento
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Ana Carolina, 36 anos, começou a medir a própria vida pela distância até o banheiro mais próximo quando ela saía de casa. Em festas, calculava discretamente onde ele ficava. Passou a usar roupas escuras, levar absorventes na bolsa e a prever situações que antes eram simples como uma tosse, um espirro, uma gargalhada.
“Eu fui deixando de sair, de encontrar amigos, de me sentir à vontade. Se eu risse mais alto ou precisasse tossir, já vinha o medo de perder urina. Comecei a usar roupa escura, a levar absorvente na bolsa, sempre tentando me prevenir. Mas o pior não era nem isso. Era a vergonha”, conta Ana Carolina.
Leia Mais
Não deveria ser assim. Continência urinária é a capacidade de armazenar e eliminar a urina com controle, no momento certo e sem perdas. Quando esse sistema falha, o problema não fica restrito ao corpo: afeta a rotina, a autoconfiança e a liberdade da mulher. A boa notícia é que há tratamento.
A fisioterapeuta pélvica Flaviana Teixeira, que há 6 anos atende mulheres com esse tipo de queixa, chama atenção para uma crença ainda muito difundida: a de que perder urina é algo normal. “O esperado é ter controle. Quando isso não acontece, é um sinal”, afirma. Segundo ela, pequenos escapes ao tossir, rir, correr ou sentir uma urgência repentina não devem ser ignorados. São sinais de que o corpo pede atenção.
Não se trata apenas de percepção clínica, a ciência também sustenta esse alerta. O Nurses’ Health Study, ligado à Universidade de Harvard, acompanhou ao longo de décadas centenas de milhares de mulheres e ajudou a ampliar o entendimento sobre fatores associados à incontinência urinária. A literatura médica mostra que a perda urinária não deve ser tratada como consequência inevitável do envelhecimento ou da maternidade. Em muitos casos, abordagens conservadoras, como reabilitação do assoalho pélvico, treino vesical e mudanças orientadas de hábito, podem trazer melhora significativa.
Na prática clínica, a realidade é mais ampla do que se costuma imaginar. Flaviana relata atender não só mulheres no pós-parto ou na menopausa, mas também pacientes jovens e ativas, que convivem com perdas urinárias sem saber que aquilo tem tratamento. Em muitos casos, explica, a questão não está apenas na força muscular, mas na forma como o corpo organiza pressão, resposta e coordenação no dia a dia. “Não é só uma questão de força, mas de desorganização funcional”, diz.
A perda urinária não muda apenas o corpo; muda a maneira como muitas mulheres passam a viver. Aos poucos, elas pensam antes de rir, viajar, se exercitar ou permanecer muito tempo fora de casa. Junto com essa vigilância, aparecem sentimentos que raramente ganham espaço nas conversas públicas: vergonha, culpa e insegurança.
Leia Mais
É também por isso que tantas mulheres seguem adiando a busca por tratamento. Não porque o problema seja pequeno, mas porque aprenderam a se adaptar a ele. “Elas não foram ensinadas que isso tem solução”, diz Flaviana. É essa desinformação que mantém, por tanto tempo, um sintoma tratável cercado de silêncio.
Quando Ana Carolina decidiu procurar tratamento, percebeu o tamanho da renúncia que vinha fazendo. A reabilitação devolveu não apenas o controle físico, mas a confiança. “Eu voltei a sorrir”, diz. “Ontem eu ri tanto em um jantar e não perdi a urina. Voltei a usar cores, a ser produtiva e parei de me esconder.”
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Perder a urina não é um detalhe que a mulher deve aprender a suportar. Não é um preço inevitável da maternidade, do tempo ou da rotina. É um sinal de que algo precisa de atenção. No fim, a perda urinária não rouba apenas conforto. Rouba liberdade e nenhuma mulher deveria conviver com isso em silêncio.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
