Katiuscia Silva
Katiuscia Silva
Mestra em Sexologia pela Universidade ISEP - Madrid. Especialista em Comportamento. Analista Corporal. Mentora. Palestrante. Treinamentos para Empresas
RELACIONAMENTO

Por que aceitamos mentiras nas relações?

Num tempo marcado por vínculos frágeis e comunicação falha, convém prestar atenção à tendência de normalizar pequenas mentiras

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A mentira raramente chega com clareza. Em geral, entra disfarçada numa omissão tratada como detalhe, numa promessa adiada, num comportamento incoerente. No início, esse desconforto pode até ser suportável. Com o tempo, porém, a relação começa a pesar e a comprometer a confiança.

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Os debates sobre relacionamentos costumam condenar quem mente e julgar quem permanece. A questão não está apenas em por que as pessoas mentem, mas em por que tantas vezes aceitamos a mentira. Até que ponto permanecemos por não suportar a perda e por insistir na esperança de que o outro volte a ser quem parecia ser no início?

Parte desse comportamento se explica pela maneira como aprendemos a nos vincular. A teoria do apego nos ajuda a entender por que algumas pessoas, mesmo diante de sinais evidentes de desonestidade, insistem em preservar relações que já perderam a segurança emocional.

Pessoas com apego ansioso tendem a viver o amor sob a ameaça inconsciente da perda, a ponto de o medo do abandono tornar a mentira aceitável; já quem opera a partir de um padrão evitativo, tende a se afastar do problema e evitar conversas difíceis. O apego seguro, por sua vez, não elimina conflitos nem protege ninguém da decepção, mas oferece uma base mais sólida para enfrentá-los, preservando a verdade como um dos valores mais importantes da relação. 

Revisitar o passado e compreender a origem desse medo de abandono não muda a história vivida, mas ajuda a interromper padrões inseguros, ressignificar vínculos e desenvolver uma forma mais madura de amar e de ser amado.

Antes de compromissos mais profundos, alguns sinais merecem atenção: a dificuldade de ficar só, a necessidade constante de confirmação e o receio de conversas honestas que possam abalar o vínculo. Em muitos casos, eles revelam que o afeto está sendo conduzido pelo medo da solidão, não pela maturidade emocional.

Ninguém chega ao amor sem lacunas ou inseguranças. A diferença está entre reconhecê-las e deixar-se governar por elas. Quando há compromisso com a segurança emocional, a relação depende menos de fantasia e se torna mais comprometida com a verdade, tornando o respeito, a transparência e a reciprocidade não apenas um ideal, mas uma experiência. 

Num tempo marcado por vínculos frágeis e comunicação falha, convém prestar atenção à tendência de normalizar pequenas mentiras. Feridas repetidas desgastam a relação e adiam o momento em que será preciso admitir que nem toda dor vem do outro e que somos também responsáveis pelo que escolhemos tolerar.

Talvez a pergunta mais incômoda não seja apenas por que mentimos ou por que nos mentem, mas por que, em certos momentos da vida, aceitamos tão pouco de nós mesmos. Toda vez que a verdade deixa de ser um critério e passa a ser negociada em nome da companhia, algo essencial se perde. Não apenas no vínculo, mas também na dignidade de quem permanece.

O 1º de abril funciona como um lembrete simbólico de que a mentira pode ser tratada como brincadeira por um dia. Nas relações, porém, ela nunca é trivial. Onde a sinceridade se torna exceção, o afeto deixa de ser abrigo e passa a funcionar como compensação. Nenhuma relação se sustenta de forma saudável quando a confiança se rompe e passa a exigir remendos constantes.

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Amadurecer emocionalmente talvez seja, em grande medida, isto: suportar a verdade, inclusive quando ela desorganiza. Aceitar a solidão, quando necessária, em vez de encobri-la com vínculos que apenas disfarçam o vazio. Escolher relações em que a presença do outro não exija o sacrifício da própria lucidez.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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