Como lidar com diferenças sem tentar "domar" o outro?
Quando esse "por trás" vem à tona sem acusações, o confronto vira compreensão e então nasce um novo jeito de se relacionar
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Quanto mais íntima a relação, mais fácil se ferir. Não porque o outro seja pior, mas porque ele importa mais. A diferença que tolero num estranho, sinto como abandono num parceiro. A crítica que ignoro fora, guardo como humilhação dentro. E então nasce a tentação de controlar para não doer. Só que o controle não aproxima; afasta.
Isso aparece nas pequenas coisas. Imagine você chegando em casa depois de um dia exaustivo e pedindo cinco minutos no seu canto. O outro escuta isso como descaso e devolve: “Você nem se importa comigo”. De repente, a conversa não é sobre o pedido, é sobre pertencimento e liberdade.
Bernardo Gomes Barbosa Nogueira, doutor em teoria do direito, professor da Univale e mediador credenciado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG), resume uma ideia essencial: a diferença não é inimiga; ela só vira ameaça quando o vínculo já está frágil. E lembra: “A diferença, em si, é fértil, é ‘adubo’ da vida humana”.
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Jean-François Six, autor francês, uma das referências no pensamento da mediação de conflitos, em “Dinâmica da mediação”, chama atenção para um ponto essencial: não basta “falar muito” para resolver; é preciso criar condições para que o encontro exista. Em outras palavras, mediação não é vencer no argumento, é sustentar um espaço onde duas pessoas possam se escutar sem transformar a diferença em ataque.
E o que desmantela uma relação? Bernardo aponta um dos principais fatores: a ausência de escuta. Quando alguém se sente “não escutado”, o conflito permanece. A conversa perde delicadeza e vira confronto: “Você sempre…”, “Você nunca…”. Depois vêm as suposições: “Eu sei o que você quis dizer”. A gente acha que está compreendendo o outro; porém, na prática, está fechando a porta do diálogo. Em vez de afirmar, pergunte.
Amar não é fundir; é sustentar dois mundos sem transformar diferença em ruptura. Quando a diferença dá medo, a gente tenta “domar”: ajustar o outro à própria régua para não encarar o desconforto. Mas domar não protege a relação, só protege a insegurança.
E quando a conversa fica difícil, o impulso é pressionar. Bernardo não romantiza: “Conversas difíceis vão existir”. A segurança não aparece no meio da briga; ela é construída no cotidiano. E é desse espaço feito de confiança, responsabilidade, humildade e maturidade, que nasce a chance de discordar sem humilhar e de se aproximar sem se perder.
O especialista relata uma história para discorrer sobre o tema. Um casal recém-casado estava em guerra com um idoso do prédio por causa de uma vaga de garagem - uma árvore frutífera arranhava o carro. Numasegundasessão de mediação, a conversa desviou para o trabalho da esposa com idosos em parques. O idoso se interessou, o clima ficou mais leve e eles voltaram com um acordo de que a árvore seria retirada. Depois, com lágrimas nos olhos, ele contou que aquela árvore era a última lembrança da falecida esposa, com quem havia plantado a muda. O conflito não era a árvore; era solidão e memória. Quando ele encontrou novos vínculos, pôde guardar a amada de outro jeito.
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É isso que a mediação e a maturidade oferecem: um espaço seguro para que o que está por trás do conflito finalmente apareça. Em vez de disputa para ver quem está certo, a conversa ganha escuta. Quando esse “por trás” vem à tona sem acusações, o confronto vira compreensão e então nasce um novo jeito de se relacionar.
Se você quiser um gesto simples para começarhoje, experimente um novo jeito de conversar. Em vez de “sempre/nunca”, diga: “Quando aconteceu X, eu senti Y”. No lugar de suposições, faça uma pergunta: “O que você quis dizer com isso?”. E, no lugar do controle, faça um pedido com clareza: “Eu preciso de X, você pode isso?”.
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Diferenças existem, mas podem deixar de ser ameaça e virar o que Bernardo descreve como “nossa chance de estar no mundo”: um encontro onde ninguém precisa ser domado para ser amado.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
