A coluna raramente falha de repente. Antes disso, ela costuma dar sinais: um desconforto ao longo do dia, rigidez ao acordar ou aquela dor que aparece no fim da tarde sem motivo aparente. O problema é que esses avisos quase sempre são ignorados. Quando a dor surge, muita gente culpa o colchão, o travesseiro ou uma noite maldormida. Mas, em muitos casos, o que está por trás é um processo de desgaste que vem se construindo ao longo dos anos.
Esse cenário é reforçado por uma das publicações mais importantes sobre o tema nos últimos anos. Em artigo publicado na The Lancet, em 2018, revista médico-científica internacional fundada em 1823, no Reino Unido, Jan Hartvigsen, professor dinamarquês, e um grupo internacional de pesquisadores mostraram que a dor lombar é a principal causa de incapacidade no mundo.
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O estudo destaca que, em 2015, cerca de 540 milhões de pessoas conviviam com dor lombar limitante. A publicação também aponta que fatores ligados ao estilo de vida, como obesidade e baixos níveis de atividade física, estão associados ao surgimento e à persistência da dor lombar.
Na prática, esses dados se refletem no consultório. Segundo Rafael Raso, ortopedista formado pela UFMG e especialista em medicina esportiva, “a posição sentada gera mais pressão sobre os discos da coluna do que qualquer outra postura e, quando mantida por muitas horas, pode levar à dor na região lombar, rigidez e, com o tempo, ao surgimento de lesões degenerativas, como hérnias de disco e agravamento de desvios posturais”. Essa sobrecarga é comum em quem passa longos períodos sentado, especialmente diante do computador, sem pausas para se mover ou alongar.
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O desgaste da coluna aparece aos poucos. Nos mais jovens, a dor pode surgir após muitas horas sentado. Nos adultos, os episódios tendem a ficar mais frequentes e intensos. Já nos idosos, o acúmulo desse processo pode comprometer atividades simples do dia a dia. Rafael Raso costuma comparar essa evolução aos “juros compostos”: “No começo, a dor parece pequena ou ocasional; sem intervenção, porém, ela cresce e se acumula com o tempo”, explica.
Os sinais precoces de que a coluna está sofrendo vão além da dor. A perda de função, como dificuldade para abaixar, levantar ou permanecer sentado por muito tempo, é um alerta importante. Rigidez ao fim do dia, sensação de fraqueza na musculatura das costas e até mudanças na postura indicam que a coluna não está recebendo o suporte muscular e o movimento de que precisa.
Se antes muita gente se resignava à dor por falta de acesso ou de opções, hoje esse cenário mudou. O avanço da tecnologia ampliou a capacidade de diagnóstico e trouxe novas possibilidades terapêuticas, permitindo abordagens mais personalizadas e eficazes. Por isso, insistir em conviver com a dor sem avaliação especializada não faz sentido.
A prática regular de atividade física e o fortalecimento do core, como abdômen, lombar e glúteos, ajudam a melhorar a estabilidade da coluna e a reduzir a pressão sobre discos e articulações. “Pilates e musculação bem orientados criam uma ‘cinta muscular natural’ que protege a coluna”, afirma Rafael Raso.
Além disso, pequenas mudanças na rotina podem fazer grande diferença. Pausas para caminhar, alongar, alternar períodos sentado com momentos em pé e incluir exercícios de força e estabilidade ao longo da semana ajudam a preservar a saúde da coluna. Como lembra o especialista, a atividade física não protege apenas a estrutura corporal; ela também melhora outros aspectos da saúde, como qualidade do sono, bem-estar emocional e disposição geral.
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O desgaste da coluna não espera. Incorporar movimento à rotina, fortalecer a musculatura postural e respeitar os sinais do corpo são passos essenciais para preservar a mobilidade e a qualidade de vida ao longo dos anos. Lembre-se: cada caso é único. Em situação de dor, não faça exercícios por conta própria; busque um especialista de sua confiança para avaliação e orientação personalizada.
