Jéssica Balbino
Jéssica Balbino
Jornalista e curadora de eventos literários no Brasil, escreve sobre corpos dissidentes. Criadora do Margens, projeto que difunde conteúdo sobre mulheres periféricas na escrita.
ARTIGO

Minha mãe tem 78 anos e não tem tempo para o fim do mundo

Entre ditaduras, golpes e promessas de salvação nacional, ela aprendeu que a esperança não é esperar sentado; a tristeza é deles, a festa é nossa

Publicidade

Mais lidas

“O futuro fala línguas que o imperialismo não entende.” Essa frase de Ododuá não me deixa em paz há semanas (que bom). Aparece quando acordo, quando converso com meus amigos, quando vejo as notícias e, principalmente, quando penso no país que vamos encontrar depois da eleição. Tenho tentado descobrir que língua é essa, quem a fala e onde se aprende. Talvez seja justamente a graça: se o imperialismo entendesse tudo o que somos capazes de inventar, já teria encontrado uma maneira de vender, explorar ou proibir.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Mas, nos últimos dias, comecei a suspeitar que conheço alguém que fala essa língua há muito tempo, embora provavelmente nunca tenha ouvido falar em imperialismo como conceito acadêmico. Minha mãe.

Ela tem 78 anos e, nos últimos anos, tem ido às ruas participar de manifestações políticas. Não porque tenha descoberto agora que o Brasil é um país complicado, mas porque conhece essa complicação há quase oito décadas, boa parte delas vividas sem que ninguém lhe perguntasse o que achava.

Minha mãe viu ditaduras, golpes, impeachment, inflação, confisco da poupança durante o governo Collor, em quem ela votou, seduzida pelo discurso da mudança, desemprego, crises econômicas e promessas de salvação nacional que geralmente terminavam com os pobres pagando a conta. Fora os dramas e dilemas pessoais, claro. Viu o país mudar de moeda, assistiu à chegada de Lula à Presidência e experimentou, na própria vida, o que significa quando políticas públicas deixam de ser um discurso distante e começam a chegar à mesa de quem trabalha.

É uma mulher afroindígena que não conhece inteiramente a própria história porque o colonialismo fez um trabalho bastante eficiente de interromper genealogias, apagar nomes, separar famílias e transformar a memória de determinados povos em coisa descartável. O racismo e a desigualdade econômica cuidaram de dificultar o restante. Foi empregada doméstica, trabalhou, criou filhos e participou dos sacrifícios que permitiram que eu, sua filha, estudasse numa universidade pública.

Hoje sou jornalista, escritora e tenho um mestrado pela Unicamp. Não sou um milagre individual, nem uma história de meritocracia, uma vencedora solitária ou um daqueles casos que o empreendedorismo adora transformar em palestra sobre superação. Sou resultado do trabalho dos meus pais, de uma universidade pública e de uma série de conquistas coletivas que tornaram minha trajetória possível. Antes de existir meu diploma, existiu uma mulher trabalhando na casa de outras pessoas. Lembra quando a Jéssica passou no vestibular e o Fabinho não, em Que Horas ela Volta? Pois é!

É por isso que, quando vejo minha mãe na rua aos 78 anos, penso que há algo de extraordinário e profundamente simples naquela cena. Ela não está defendendo uma abstração. Está defendendo a vida conseguiu construir e aquela que deseja que continue possível para quem vem depois.
Minha mãe já viu coisa demais para acreditar em conto de fadas. Não é otimista. É de luta.

Essa é a diferença que precisamos compreender antes do próximo domingo.Porque, convenhamos, o otimismo anda com uma reputação bastante duvidosa. Basta abrir o noticiário para entender por quê. Há momentos em que ser otimista parece exigir uma combinação de desconhecimento histórico, excesso de confiança e uma capacidade admirável de ignorar a realidade. Não é disso que estou falando.

Estou falando de persistência, método, memória, organização.

De conhecer o próprio território, saber quem mora na rua, quem frequenta o bar, quem está no grupo da família, quem precisa de ajuda e quem anda sozinho demais. Estou falando de abandonar a fantasia do grande protagonista que salvará o país com uma publicação viral e lembrar que transformações políticas dependem de gente organizada, fazendo tarefas concretas, muitas vezes pequenas e quase sempre pouco glamourosas.

Há alguns dias, vi circular um carrossel inspirado no Manual do Militante Urbano, de Raymundo Jonathan, que recupera uma lição importante: não é o otimismo que organiza a luta, mas a persistência e o método. Conhecer o território, não cultivar a tristeza, preservar a memória, disputar gente, agir no cotidiano e abandonar a síndrome de protagonista. Fiquei pensando em como essas ideias conversam com tudo o que venho tentando escrever sobre cuidado e futuro.

Afinal, existe uma indústria inteira interessada em nos manter tristes. Esgotados, de preferência. Com medo, melhor ainda. Isolados, perfeito.

Uma pessoa que passa o dia inteiro rolando notícias ruins, brigando com desconhecidos e acreditando que todo mundo ao redor é irremediavelmente idiota talvez esteja muito bem informada sobre o último absurdo, mas dificilmente terá energia para organizar qualquer coisa depois.

Não estou sugerindo que a tristeza seja uma falha moral. Seria uma crueldade exigir felicidade de quem está com medo, de quem perdeu direitos, de quem sofre violência ou de quem enterrou pessoas queridas. A tristeza tem seu lugar, assim como o luto, a raiva e o desespero. O problema começa quando nos convencem de que precisamos morar permanentemente dentro deles.

O poder não precisa apenas controlar instituições. Também se beneficia quando consegue administrar nossos afetos, transformar a política numa experiência contínua de exaustão e reduzir nossa capacidade de imaginar alguma coisa para além da próxima catástrofe.

Uma população desanimada, desconfiada de tudo e convencida de que nada pode mudar tem menos disposição para agir coletivamente. É por isso que a alegria, quando compartilhada e acompanhada de organização, pode ser uma forma de insubordinação.

Não falo daquela felicidade de propaganda de margarina, muito menos do otimismo compulsório que manda sorrir enquanto o mundo desaba. Falo de festa, de encontro, de conversa, de música, de gente ocupando a rua sem pedir desculpas por estar viva. Falo de lembrar por que estamos lutando.

Porque existe uma contradição curiosa em certas maneiras de fazer política: passamos a vida defendendo o direito ao descanso, ao prazer, à cultura, ao amor e à convivência, mas às vezes agimos como se experimentar qualquer uma dessas coisas antes da vitória fosse uma espécie de traição à causa.

Ora, se a vida só puder começar depois da revolução, estaremos oferecendo às pessoas uma perspectiva bastante desanimadora. Ainda mais num país em que as revoluções têm o péssimo hábito de atrasar.

Tenho lido Cuidado Pirata, editado pela Autonomia Literária, publicado na Flipei deste ano, e uma das coisas que mais me interessam no livro é a ideia de que cuidar não significa apenas remediar o sofrimento de alguém, mas criar coletivamente condições para que outras formas de vida sejam possíveis. Cuidar é compartilhar conhecimento, organizar redes, abrir espaços, oferecer proteção e inventar soluções quando as instituições falham.

Às vezes, é uma cozinha comunitária. Outras vezes, uma biblioteca, uma vaquinha, um sofá emprestado, uma carona ou uma amiga que percebe que você não está bem.

Há política nisso tudo, embora não renda necessariamente uma boa fotografia de campanha.

 

A gente gosta da imagem da multidão na avenida, do punho cerrado, da palavra de ordem e do enfrentamento. Tudo isso importa. Mas quem preparou a comida antes da manifestação? Quem ficou com as crianças? Quem organizou o transporte? Quem levou a pessoa exausta para casa? Quem cuidou de quem cuidava dos outros? Sem esse trabalho, nenhuma luta dura muito tempo.

Talvez tenhamos dado importância demais aos heróis e importância de menos às pessoas que garantem que os heróis tenham o que comer.

Penso nisso quando vejo minha mãe saindo para uma manifestação. Ela já viveu tempo suficiente para saber que nenhuma conquista está garantida para sempre. Viu direitos chegarem, governos mudarem, crises econômicas atravessarem a porta de casa. E agora vê novas disputas sobre o futuro do trabalho, a proteção das pessoas, o uso da tecnologia, o controle dos territórios e dos recursos naturais.

As milícias, as grandes plataformas digitais, a exploração econômica de recursos como as terras raras e os conflitos sobre quem pode amar quem quiser parecem temas muito diferentes. Mas todos levantam perguntas sobre poder: quem decide, quem lucra, quem fica protegido e quem paga a conta?

Minha mãe talvez não use as palavras que eu uso para falar dessas questões. E ainda bem. O mundo não precisa de mais uma pessoa reproduzindo o vocabulário das minhas leituras. Precisa de gente capaz de reconhecer quando a própria vida e a vida dos outros estão em disputa. Isso ela sabe fazer.

O Brasil atravessou mais de três séculos de escravidão legalizada, duas ditaduras no século XX, golpes, crises democráticas, uma pandemia que deixou mais de 700 mil mortos e uma tentativa de golpe de Estado. Nada disso é motivo para celebrar nossa suposta capacidade de aguentar tudo. Há violências que jamais deveriam ter acontecido e pessoas que deveriam estar vivas.

Mas nossa história também é feita de quilombos, movimentos populares, sindicatos, associações de bairro, cozinhas solidárias, escolas, universidades, terreiros, festas, bibliotecas e gente que decidiu não abandonar os outros.

Luiz Rufino escreve sobre aquilo que permanece vivo entre os cacos. Nego Bispo nos ensinou a enfeitiçar a língua e a pensar a confluência. Dénètem Touam Bona fala de refúgios que não são apenas esconderijos, mas lugares onde outras formas de existência podem ser inventadas. Audre Lorde mostrou que a raiva pode se transformar em ação.

Tenho pensado que todas essas ideias desembocam numa pergunta bastante prática: o que fazemos, agora, com as pessoas que estão ao nosso lado?

Porque uma coisa é discutir abstratamente o futuro da democracia, outra é perceber que a vizinha está sozinha, que a amiga está desempregada, que alguém precisa de uma indicação, que outra pessoa precisa conversar, que um grupo pode organizar uma atividade no bairro ou que existem pessoas dispostas a construir alguma coisa juntas, mas que ainda não se encontraram.

O autoritarismo encontra terreno favorável onde a desconfiança se espalha e os vínculos se rompem. Uma das respostas possíveis é reconstruir esses vínculos, sem ingenuidade e sem abrir mão dos conflitos necessários.

Disputar gente não é humilhar quem pensa diferente para colecionar curtidas, é também saber conversar, argumentar, escutar, reconhecer contradições e compreender que ninguém nasce sabendo tudo. Nós mesmos já mudamos de opinião sobre uma porção de coisas. Seria bastante conveniente esquecer isso justamente quando precisamos convencer outras pessoas.

Não estou propondo tolerância com violência ou uma obrigação de dialogar com quem nos ameaça. Estou dizendo que uma política que só sabe conversar com os convertidos corre o risco de confundir popularidade dentro de uma bolha com transformação social.

Volto à minha mãe, que trabalhou a vida inteira, como doméstica e operária de fábrica, viu o movimento sindical surgir com Lula, provavelmente sabe mais sobre a importância de conhecer as pessoas do que muito estrategista que nunca saiu da própria timeline.

Quero chegar a esta eleição lembrando disso.

Quero lembrar que não precisamos estar todos fortes ao mesmo tempo, que descansar não significa desistir e que ninguém deveria precisar transformar o próprio sofrimento em certificado de compromisso político. Quero lembrar que a alegria não apaga a gravidade do momento, assim como a festa não substitui a organização. Uma coisa pode alimentar a outra.

No Cuidado Pirata, há uma frase que me acompanha: “A festa sustenta o desejo de permanecer junto”. Talvez seja esse o ponto.

Precisamos querer permanecer juntos depois que as urnas forem fechadas, depois que as manchetes mudarem e depois que a próxima crise chegar. Precisamos construir relações que não dependam de uma eleição para existir e que não desapareçam diante de uma derrota.

Quero continuar encontrando meus amigos. Quero almoço de domingo, mesa de bar, música, livro circulando de mão em mão, gente dançando, gente descansando, crianças crescendo cercadas de adultos que sabem seus nomes. Quero uma política que não nos obrigue a escolher entre lutar por uma vida melhor e viver alguma coisa boa enquanto lutamos.

Quero que minha mãe, aos 78 anos, possa sair às ruas porque deseja, não porque uma geração inteira deixou para ela a tarefa de defender sozinha aquilo que deveria ser responsabilidade de todos.

Não sei qual será o resultado de domingo. Sei que, qualquer que seja, a vida continuará exigindo de nós presença, responsabilidade, capacidade de organização e imaginação.

Talvez por isso a frase de Ododuá tenha mexido tanto comigo. “O futuro fala línguas que o imperialismo não entende.”

Imagino que uma dessas línguas seja falada por mulheres como minha mãe, que carregam histórias interrompidas pelo colonialismo, conhecem a dureza do trabalho e continuam reivindicando o direito de existir com dignidade. Mulheres que não precisaram aprender a palavra resistência num livro porque passaram a vida praticando alguma forma dela.

Não quero transformar minha mãe numa heroína. Ela é uma pessoa, com seus cansaços, suas contradições, seus desejos e sua história. Justamente por isso sua presença nas ruas me comove mais do que qualquer imagem de heroísmo.

Ela não está esperando um salvador, está participando da história. E eu, que sou filha dessa mulher, tenho dificuldade de aceitar a ideia de que o futuro acabou porque uma eleição produziu um resultado que não desejávamos.

Há muito a disputar, muito a reconstruir e muita gente com quem conversar. A política não começa nem termina numa urna, embora as decisões tomadas ali tenham consequências profundas para nossas vidas. Por isso, antes de domingo, quero celebrar.

Celebrar quem veio antes, quem abriu caminhos, quem sustentou famílias, quem lutou por direitos e quem tornou possível que uma filha de empregada doméstica chegasse à universidade pública e pudesse escrever esta coluna. Celebrar quem continua chegando, quem não abandonou o bairro, quem organiza a comunidade, quem cozinha, quem ensina, quem cuida, quem faz música, quem planta e quem insiste em imaginar.

Não é uma celebração da vitória antecipada. É uma celebração da vida que merece continuar sendo defendida.

Minha mãe tem 78 anos e ainda vai à luta. Não porque acredite que tudo dará certo, mas porque sabe que o mundo não muda por conta própria. Se existe alguma coisa que quero aprender com ela, é justamente isso: não precisamos ter certeza do futuro para participar de sua construção.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O futuro ainda não aconteceu, mas a gente ainda está aqui.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

ancestralidade cultura esperanca politica

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay