Henrique Portugal
Henrique Portugal

Assumo: sou viciado no meu celular

O delicioso gesto de deslizar o dedo na tela, por mais informações, é idêntico ao ato de puxar a alavanca de um caça-níqueis

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Você já entrou no Instagram só para ver uma mensagem e, vinte minutos depois, se pegou assistindo a um vídeo de marcenaria que nunca vai fazer? Ou talvez tenha prometido dormir cedo, mas passou da meia-noite abrindo e fechando o aplicativo do banco, do e-mail e do WhatsApp? Esse comportamento automático não é falta de força de vontade. É biologia pura.

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Comecei a pensar em mudar meus hábitos de tanto a minha esposa reclamar que eu não largo o celular nem para almoçar. Como adoro estudar busquei algumas informações e aqui está o resumo delas.

Na década de 1930, o cientista B.F. Skinner descobriu que se você der uma recompensa toda vez que um rato apertar uma alavanca, ele se sacia e para. Mas, se a recompensa for aleatória e imprevisível, o rato fica obcecado e aperta a alavanca sem parar. O que isso te lembrou?

É exatamente isso que os aplicativos fazem conosco hoje. O delicioso gesto de deslizar o dedo na tela, por mais informações, é idêntico ao ato de puxar a alavanca de um caça-níqueis. Você nunca sabe se o próximo clique vai trazer uma fofoca, uma notícia urgente ou uma curiosidade deliciosa. É a dopamina da incerteza que nos mantém presos.

Diferentemente do cigarro, que hoje é malvisto, o celular se tornou um vício socialmente aceito. Conseguir trabalhar com o celular apitando, criando interrupções a todo momento é o maior desafio que enfrento hoje em dia. Estudos de produtividade apontam que o cérebro humano leva cerca de 23 minutos para recuperar o foco profundo após ser interrompido por uma única notificação. Se você olha o celular a cada 10 minutos, você nunca atinge o seu potencial máximo de trabalho.

O cansaço mental crônico e o burnout explodiram porque os adultos não conseguem mais se desligar. Eu sou um destes. Alguns exemplos que potencializaram esses problemas são o e-mail de trabalho no celular e as discussões políticas em grupos de Whatsapp.

O meu relatório semanal de uso do smartphone diz que gasto sete horas por dia com Whatsapp, redes sociais e navegador, isto é, um terço do dia ou um terço do ano!

Enquanto perdemos esse tempo, o mercado de aplicativos, publicidade direcionada e jogos de apostas online faturam centenas de bilhões de dólares extraindo a nossa atenção.

Até a geração Z (os jovens que já nasceram conectados) começou a notar o estrago. Existe um movimento curioso de troca de smartphones por aparelhos celulares antigos (sem internet), para tentar recuperar a saúde mental.

Minha pergunta é: o que os governos do mundo estão fazendo com esse problema? Além da proibição de celulares em escolas para proteger os jovens, as leis de "Direito ao Desligamento" ganharam força na Europa e nas Américas. Elas proíbem que chefes enviem mensagens ou cobrem respostas dos funcionários fora do horário de expediente, sob pena de multas pesadas para as empresas.

A tecnologia deveria ser uma ferramenta para nos servir, mas acabou nos trancando em uma versão moderna da caixa de Skinner.

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Na minha opinião, é preciso encarar esse vício de frente, criando limites rígidos na rotina e no trabalho. Isso não é mais uma opção de bem-estar — é uma questão de sobrevivência mental. Estou tentando fazer a minha parte, mas sei que não é fácil.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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