Otávio Rangel
Otávio Rangel
Jornalista com experiência em produção de vídeo, com experiência em produtoras de vídeo de São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Curador de dois museus audiovisuais no interior de São Paulo e experiências com cinema independente e documentários.
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Oscar: a vitória de fato foi estar lá

Estar entre os melhores filmes do mundo já é uma vitória para um país que não está entre os 10 maiores projetos de cinema do mundo

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Às vezes, o importante realmente é competir. Eu sei, caro leitor, que essa frase é um clichê mais gasto que a sola do sapato do Forrest Gump, mas, no caso da presença do Brasil no Oscar 2026, não tem como ser diferente. Se não levar o prêmio deixou um gosto amargo, talvez seja porque nós, brasileiros, somos “mal“ acostumados com Pelé, Ayrton Senna, ganhando tudo por aí. Valorizamos o topo do pódio, o que é, claro, muito importante, mas, dessa vez, amigo compatriota, a verdadeira vitória é estar na maior premiação de cinema, disputando entre os principais filmes de mercados gigantes, os que mais produzem filmes no mundo.

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A participação do Brasil no Oscar 2026 foi puxada pelo filme ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Wagner Moura, ator que vem se fazendo presente em Hollywood já há alguns anos. O trabalho dele vem sendo reconhecido e foi premiado com a indicação de melhor ator.

Nossos representantes foram:

O Agente Secreto, indicado a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco. E o paulistano Adolpho Veloso concorreu a melhor Diretor de Fotografia com o filme ‘Sonhos de Trem’.

Nenhum dos indicados levou o prêmio, mas é importante analisarmos o contexto das coisas.

O Brasil vem reduzindo seu investimento em cultura, e uma grande parcela da população (e dos políticos) tem se acostumado a fazer críticas aos mecanismos de fomento à cultura no geral, principalmente à Lei Rouanet. Desde 2016, após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, houve um ataque à produção cultural do país. O Ministério da Cultura chegou a ser fechado. A Agência Nacional do Cinema, Ancine, sofreu com perseguições e interferências, inclusive financeiras, atrasando diversos processos da produção de obras cinematográficas que contam com fomento público.

Para se ter uma ideia, os Estados Unidos gastaram cerca de 25 bilhões de dólares nos últimos 20 anos. É mais de 6 bilhões de reais por ano. O governo da Inglaterra investiu cerca de 4 bilhões de libras só em 2024, o que dá mais de 25 bilhões de reais. O Brasil, em 2024, teve um investimento recorde de 1,6 bilhões de reais.

Uma informação importante é que ‘O Agente Secreto’ não foi financiado pela Lei Rouanet, e sim pelo Fundo Setorial do Audiovisual (ASF) e pela Lei do Audiovisual. Longa-metragem não entra na Lei Rouanet.

Então, quando acontece de um filme brasileiro concorrer a quatro Oscars e um diretor de fotografia estar indicado em uma produção americana, é algo de se valorizar, aplaudir de pé.

O Oscar é um prêmio que é totalmente influenciado por diversas questões. Os filmes têm campanhas e, dentro da Academia, como em outras áreas da sociedade, existe lobby, comentários entre os votantes etc.

No caso de qualquer filme brasileiro, isso já se torna um elemento limitador em todos os aspectos, mas o principal é o dinheiro para dar um “up” nas chances dos filmes. Quando o “Ainda Estou Aqui” levou suas duas estatuetas, muito se falou de um bom timing da campanha do filme. A relação entre avanço de governos autoritários no mundo e a forma como o filme abordou a questão da ditadura (o desaparecimento de um jornalista causado pelo regime) bateu forte em quem via esse avanço autoritário acontecer, como é o caso dos EUA.

Outro fator que pode ter ajudado foi a própria mobilização em redes sociais em prol do primeiro Oscar brasileiro. Quem já viu os brasileiros se mobilizarem em redes sociais em prol de qualquer coisa sabe do que eu estou falando. Com isso tudo, “Ainda Estou Aqui” foi a tempestade perfeita.

Em 2026, deu a impressão de que viemos no mesmo embalo da realidade do mundo (e dos EUA) com a temática de “O Agente Secreto”, filme que também passa na ditadura, mas foca em aspectos diferentes. Para quem viu o filme, não fica difícil relacionar atitudes daqueles policiais do DOPS que perseguem o protagonista do filme com o que tem acontecido com o ICE, nos EUA.

Já a indicação de Adolpho Veloso no “Sonhos de Trem” trouxe outra percepção sobre os avanços do cinema brasileiro no mundo. “Sonhos de Trem” é um filme 100% feito nos Estados Unidos, que custou à Netflix cerca de 10 milhões de dólares para ser produzido. O fato de Adolpho Veloso estar à frente do departamento de Direção de Fotografia e concorrer a este prêmio no Oscar tem ainda mais valor porque é um prêmio considerado mais técnico e talvez sofra um pouco menos de influência na campanha e nessas questões de lobby.

Quantas faculdades formam diretores de fotografia no Brasil? Quantos filmes existem para os diretores de fotografia no patamar da excelência de Adolpho trabalhar? Nosso país produz cerca de 140 longas por ano, está atrás de países como Nigéria, Índia, Coreia do Sul, China e, claro, Reino Unido e EUA.

Também não estamos entre os países que mais investem no cinema. Então, toda vez que estivermos entre indicados deste ou de outros grandes prêmios do cinema mundial, precisamos enxergar mais ou menos como vimos a vitória de Lucas Pinheiro Braaten, responsável pela primeira medalha brasileira na história dos Jogos Olímpicos de Inverno. Tudo bem, a produção cinematográfica não chega a ser um esqui alpino na neve, que, no caso, realmente não é possível ser praticado no país; porém, somos um país com uma tradição de cinema feito muito mais na raça do que no investimento. A nossa história cinematográfica sempre foi baseada no “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, expressão do Glauber Rocha, que, na era do TikTok, anda meio desgastada.

Os novos ventos estão trazendo novas possibilidades, e Fernanda Torres, Wagner Moura, Walter Salles, Kleber Mendonça Filho e Adolpho Veloso, além de todos aqueles que participaram da produção desses filmes, estão mostrando onde os profissionais e os filmes brasileiros podem chegar.

Então, se você chegou até aqui neste texto, lembre-se de valorizar bastante quando filmes brasileiros estiverem concorrendo a grandes prêmios como Oscar, Cannes, Globo de Ouro, Berlinale, entre outros. Estar lá já é uma baita vitória. Isso pode servir como metáfora para a vida, quem sabe?

Otávio Rangel é repórter multimídia do Jornal Estado de Minas — apresentador do Podcast de Cultura e Divirta-se

Fontes:

https://www.nytimes.com/2024/03/21/arts/states-hollywood-film-tax-incentives.html

https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/arquivos.pdf/anuario-do-audiovisual-brasileiro-2024r.pdf

https://istoedinheiro.com.br/o-agente-secreto-rouanet-verba-publica-6226

https://www.ukscreenalliance.co.uk/news/75-million-funding-boost-for-uks-world-class-film-and-tv-industry-as-part-of-landmark-new-sector-plan/

https://www.eweekly.com.ng/2026/01/top-10-biggest-film-industries-in-world.html

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