Ressaca do tablet: quando excesso de telas adoece corpo e mente da criança
Alguns estudos recentes indicam que a exposição prolongada às telas, especialmente no período noturno, interfere diretamente no ciclo circadiano infantil
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Vivemos um tempo em que o silêncio das crianças é confundido com tranquilidade, quando, na verdade, pode ser um sinal de exaustão neural. O uso excessivo de tablets e outras telas provoca um fenômeno cada vez mais observado por educadores, profissionais da saúde e famílias: a chamada “ressaca do tablet”.
A expressão, ainda informal, descreve um conjunto de sinais físicos, emocionais e cognitivos que, infelizmente, permanece mesmo após o desligamento do equipamento. Não se trata de opinião ou moralismo tecnológico, mas de um debate sustentado por pesquisas em neurociência do desenvolvimento, pediatria e saúde mental infantil.
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Alguns estudos recentes indicam que a exposição prolongada às telas, especialmente no período noturno, interfere diretamente no ciclo circadiano infantil. A luz azul emitida pelos dispositivos inibe a liberação de melatonina, hormônio fundamental para o início e a manutenção do sono. Como consequência, observam-se dificuldades para adormecer, despertares frequentes e um sono não reparador.
Lamentavelmente, quando o sono piora, o impacto aparece durante o dia: fadiga persistente, irritabilidade, queda de atenção, dificuldade de aprendizagem e alterações de humor. Pesquisas internacionais, incluindo recomendações da Academia Americana de Pediatria, associam o tempo excessivo de tela ao aumento de sintomas ansiosos e depressivos em crianças e adolescentes, além de prejuízos na autorregulação emocional.
É importante entender que o corpo também fala. Reclamações como dores abdominais recorrentes, cefaleias, alterações no apetite e até episódios de queda capilar temporária são descritas entre crianças submetidas a altos níveis de estresse crônico, sedentarismo e privação de sono — um trio frequentemente relacionado ao uso desmedido de dispositivos eletrônicos.
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Dessa forma, deve-se entender que não se trata de demonizar a tecnologia. Tablets e recursos digitais podem ser aliados cruciais no processo de aprendizagem quando utilizados com intencionalidade pedagógica, tempo controlado e mediação adulta. O problema surge quando a tela ocupa o lugar do brincar livre, da interação social, do movimento corporal e do diálogo afetivo.
O cérebro infantil é altamente plástico, mas também vulnerável, necessitando de previsibilidade, vínculos, experiências sensoriais reais e pausas. Os estímulos em excesso, sem tempo de integração, mantêm o sistema nervoso em estado de alerta contínuo, provocando cansaço emocional e cognitivo.
As evidências científicas são claras ao recomendar o desligamento das telas pelo menos uma hora antes do horário de dormir, limitando o tempo total de uso conforme a idade e incentivando a prática de atividades físicas, sociais e criativas. Medidas simples repercutem diretamente na qualidade do sono, no humor e no desempenho escolar.
Uma questão essencial para a compreensão de pais e professores é que uma criança cansada não é preguiçosa. Uma criança irritada não é, necessariamente, mal-educada. Muitas vezes, trata-se de um cérebro sobrecarregado, tentando sobreviver a estímulos excessivos.
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Os cuidados na infância exigem coragem para estabelecer limites e consciência para compreender que a saúde mental começa com rotina. Regular o uso das telas é um ato educativo, preventivo e profundamente amoroso. Educar também é proteger o cérebro em desenvolvimento.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
