O fungo e o gato
Nós, mamíferos, carregamos por dentro uma fogueirinha acesa: a temperatura do corpo. A imensa maioria dos fungos do mundo não suporta viver a 37 graus
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Meu amigo Flavio Telles, infecto de Curitiba (PR), que entende de fungos como poucos neste planeta, me desafiou a fazer uma crônica sobre um grave problema de saúde pública, que passa batido pela percepção da população. Super especialista pedindo crônica a infectologista é como maestro pedindo modinha a violeiro — a gente aceita por amizade e depois passa a semana com medo de desafinar. Vou contando devagar, como quem conta um caso na varanda, que é como as coisas graves devem ser contadas em Minas.
Há uma doença que durante um século teve nome de poesia: a doença do jardineiro de rosas. Foi descrita em 1898 por um estudante de medicina chamado Benjamin Schenck, que acabou emprestando o nome ao bolor — o Sporothrix. O enredo era quase bucólico: o espinho fura o dedo, o fungo entra, e semanas depois nasce um carocinho que não sara, seguido de outros, subindo pelo braço em rosário, como se a infecção rezasse pelos vasos linfáticos. Doença de quem lidava com terra, palha, musgo e madeira. Coisa mansa, de quintal. Infectologista de ofício e cronista por teimosia, vejo cada vez mais esses rosários no ambulatório; e sempre me comove o fato de uma doença ter ao mesmo tempo nome de flor e vocação de espinho.
Aí o Brasil, que não faz nada pela metade, inventou sua versão. Lá pelo fim dos anos 1990, no Rio de Janeiro, o Sporothrix brasiliensis descobriu um atalho: em vez de esperar num espinho a paciência das rosas, mudou-se para o gato. E quem resiste a um gato? Ele ronrona, pisca devagar, dorme sobre o jornal que às terças alberga essa crônica. Nas feridas do bichano doente, o fungo se aglomera aos milhões; basta uma unhada, um espirro, uma lambida em pele ferida e a micose pula de espécie com a naturalidade de quem pula um muro baixo.
Hoje, temos a maior epidemia de esporotricose zoonótica do mundo e que virou commodity para o resto do planeta: casos em todos os estados, milhares de gatos doentes, mais de mil casos humanos por ano — e só em 2025 a doença virou notificação compulsória, que é o jeito burocrático de confessar que antes preferíamos não contar. Digo logo, em defesa dos bichanos: o gato não é vilão, é vítima. Quem espalha a epidemia é o abandono, a falta de tratamento, a carcaça jogada no terreno baldio. O fungo agradece nossa negligência e falta de sensibilidade.
E o resto da casa? O cachorro também adoece, quase sempre por brigar com gato doente, mas é figurante: raramente fica doente, suas feridas carregam pouquíssimo fungo, e pegar esporotricose de cão é raridade de relato de caso. Entre humanos, sosseguem os hipocondríacos: não há evidência de contágio de pessoa a pessoa — ninguém pega em aperto de mão, abraço ou beijo mal calculado. O fungo é exigente quanto à porta: prefere espinho ou unha. Por isso, a receita não é isolar o bicho, muito menos o vizinho: é tratar o gato, que tratado deixa de transmitir.
Mas o que me tira o sono é outra coisa, e é aqui que o desafio do Flavio fica ainda mais sério. Nós, mamíferos, carregamos por dentro uma fogueirinha acesa: a temperatura do corpo. A imensa maioria dos fungos do mundo não suporta viver a 37 graus. Nosso calor é uma muralha invisível, que carregamos sem agradecer, como se carrega o coração. Um cientista, Arturo Casadevall, fez a conta do custo-benefício entre se proteger de fungo e não morrer de fome: deu 36,7 graus, quase exatamente o que somos. Não somos quentes por acaso; somos quentes por estratégia da seleção natural ou sabedoria divina, como queiram.
Mas, na verdade, a temperatura humana vem caindo há dois séculos, uns 0,03 graus por década; o homem de hoje é mais de meio grau mais frio que o bisavô. Esfriamos por bons motivos — menos infecções, menos inflamação —, e o clássico 37 virou 36,6 sem direito a velório. Enquanto isso, do lado de fora, esquentamos o planeta, e cada onda de calor vai ensinando os fungos a suportar febre. O vão entre a temperatura do mundo e a do nosso corpo estreita pelos dois lados.
O Candida auris, surgido quase ao mesmo tempo em três continentes, cresce feliz a 42 graus; o nosso brasiliensis prospera tanto nos 36 da gente quanto nos 39 do gato. O Flavio, o Colombo, o Nucci, o Pasqualotto, meus queridos amigos “fungólogos”, falam em tempestade perfeita: planeta mais quente, corpos mais frios, mais gente com a imunidade em baixa.
O aviso, esse cabe em três linhas: ferida que não sara, sobretudo depois de arranhão de gato, é caso de médico — o tratamento é longo, mas cura. Gato com feridinha no focinho é caso de veterinário, não de abandono, porque abandono não é só crueldade: é política de expansão fúngica. E o clima, no atacado, merece a seriedade dos postulantes ao Planalto nas eleições de outubro. Candidato que nega a ciência, coloca o planeta e nosso futuro em risco – se é que ainda podemos falar em futuro.
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Escrevo isso ao cair da tarde, que nas montanhas de Minas esfria depressa, e me ocorre que o mundo anda com as temperaturas trocadas: esquenta onde devia ser fresco, esfria onde devia arder. A natureza tem lá seu humor. Fez-nos reis pela temperatura e pode nos destronar pelo termostato. Entre nós e o mofo que herdou a Terra dos dinossauros existem hoje, com otimismo, 36,6 graus de separação. Eram 37. Não sei quantos serão amanhã. Sei que o fungo, paciente como todo esporo, espera — de preferência no colo de um gato, que ronrona, pisca devagar, e nos alerta: pra quem não sabe pra onde ir, qualquer caminho serve.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
