Bem Viver: o muro dos 80 anos
Das 44 frases, guardo a última como quem guarda um cristal: "Um sorriso traz boas energias"
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Chega-me do Japão, por essas correntes que atravessam o mundo mais depressa que qualquer vírus que já estudei, a notícia de que o psicólogo Hideki Wada escreveu um livro chamado "A parede dos 80 Anos" e vendeu, num sopro, meio milhão de exemplares. Caminha para o milhão. O Japão inteiro, ao que parece, quer aprender a envelhecer. Como se já não fossem experts no assunto.
O doutor Wada tem 61 anos e é especialista em doenças mentais de idosos — o que me parece audacioso, porque aos 61 anos o homem ainda é, para os padrões japoneses, um adolescente dando conselhos aos mais velhos. Ele condensou a felicidade aos 80 em 44 frases. Nem os mandamentos foram tão generosos.
Fui ler as frases com a desconfiança profissional de quem sempre duvida de gurus. Eu, que entrei para a Faculdade de Medicina da UFMG há quase meu Deus, dito assim parece que estou falando de outro sujeito, um menino magro que percorria a Avenida Alfredo Balena achando que ia salvar o mundo com um estetoscópio no pescoço. Hoje, o estetoscópio ainda passeia em silêncio no meu pescoço.
E eis que descubro que o best-seller japonês foi escrito, na verdade, pela minha avó em Ibiá, por volta de 1958. Atualmente, contribuem para a obra a avó da Joana, Maria Helena Andrés (104 anos) e o nosso incansável presidente que, ao chegar aos 80, diz nunca ter se sentido melhor. Ao que me parece, enfrentar fascistas o rejuvenesce.
"Quanto mais você mastigar, mais ativos estarão seu cérebro e seu corpo." Minha avó dizia isso à mesa, sem cobrar nada, enquanto o frango caipira esfriava no prato. "Tomar sol traz felicidade" — descoberta que qualquer lagartixa do quintal da fazenda já havia patenteado. "Continue caminhando" — em Ibiá não havia alternativa: caminhava-se para a escola, para a missa, para a venda, para lugar nenhum, que era o destino mais frequentado da cidade.
O doutor Wada recomenda ainda: "Estar sozinho não é solidão; é passar o tempo em paz". Isso, no interior de Minas, chama-se sentar no banco da praça ao entardecer. Não precisou de livro. Precisou de banco.
Mas confesso que algumas frases me pegaram de jeito, e logo a mim, discípulo de Hipócrates em busca da melhor evidência. "Não há necessidade de tomar medicação em excesso", "Não é necessário reduzir excessivamente a pressão e o açúcar." Ora, direis, é um colega pregando heresia! E, no entanto, sinto um alívio quase clandestino ao ler isso. Passamos décadas transformando velhice em doença, aposentadoria em diagnóstico, ruga em fator de risco. O japonês vem lembrar que gente não é planilha de exames. Que o velho tem direito ao seu doce de leite, ao seu café requentado, ao seu pedaço de queijo com goiabada — e que um pouco de sobrepeso, garante ele, é até melhor. Por que não torresmo com uma cachaça?! Afinal, saquê com torresmo não rima e estraga o torresmo. Quero ver esse trecho traduzido e afixado na porta dos consultórios de Belo Horizonte. Haverá romaria.
"Faça o que quiser; não faça o que não gosta." Essa frase, aos 20 anos, é irresponsabilidade. Aos 80, é sabedoria. É curioso como a mesma sentença muda de categoria conforme o CEP e a idade.
Tenho posto em prática o primeiro mandamento — continue caminhando — sob a supervisão rigorosa do Sushi, meu cãozinho salsicha, personal trainer mais baixo e mais implacável de que se tem notícia. Todo fim de tarde ele me olha com aqueles olhos de quem já leu Hideki Wada no original e me arrasta para a rua. Caminhamos os dois, cada um no seu ritmo, ele farejando o mundo, eu ruminando crônicas. O doutor Wada aprovaria: exercício, sol, alegria e uma companhia que não discute política.
Há no livro uma frase que os japoneses chamam de mágica: "Quando o carro chega à montanha, o caminho aparece." É bonito. Mas nós, mineiros, sabemos disso desde sempre — moramos dentro da frase, apesar de gostarmos mais de trem. Aqui o carro está permanentemente chegando à montanha. Não faltam montanhas. A montanha é o caminho que sempre aparece, ainda que cheio de curvas, quebra-molas e uma vaca atravessada no meio da estrada.
O que me intriga é o título: por que "parede"? Parede é coisa que interrompe, que separa, que a gente encosta quando o corpo cansa. Prefiro pensar nos muros de Ibiá da minha infância, que eram baixos de propósito — feitos não para impedir a passagem, mas para apoiar os cotovelos e prosear com o vizinho. Se os 80 anos forem um muro assim, muro de debruçar, então que venham. A gente encosta, olha a rua, comenta a nossa vida e de quebra a dos outros.
Meio milhão de japoneses compraram o livro. Suspeito que compraram, no fundo, uma permissão: permissão para dar indulgência à preguiça, para não atender quem nos aborrece, para desligar a televisão, para comer o que gosta. Permissão para viver — que é a receita que nenhuma faculdade me ensinou a preencher, nem após 50 anos de treinamento nesse ofício.
Das 44 frases, guardo a última como quem guarda um cristal: "Um sorriso traz boas energias". Nesse quesito, Vó Helena Andrés, que completa hoje 104 anos, é catedrática. Sorri no fim da tarde, olhando o nada pela janela da sala, e o nada, agradecido, sorri de volta. Essa semana ela me ligou algumas vezes para não me deixar esquecer do almoço de daqui a pouco: mais de 100 convidados foram um a um, contatados por ela. Esses meninos tem memória de grilo, é preciso lembrá-los até de escovar os dentes, me confidenciou ela. Nos seus 103 anos o ano passado, a aluna mais brilhante de Guignard fez uma exposição de seus quadros recém-pintados. Não sobrou um pra contar história. Todos vendidos.
Vou seguindo, portanto, as instruções do Oriente com sotaque do cerrado: mastigo devagar, caminho com o Sushi, pedalo minhas montanhas, tomo meu sol, digo o que sinto — e, quando a memória falhar, não culparei a idade, culparei o excesso de coisas bonitas que ela precisou guardar ao longo desses anos de uso.
Se algum dia eu chegar à tal parede dos 80, não pretendo escalá-la, nem derrubá-la. Pretendo encostar nela como quem encosta no muro da infância ao entardecer, esperando o vizinho aparecer do outro lado para uma prosa. Porque envelhecer, aprendi com o doutor Wada, com minha avó de Ibiá, Vó Helena e com nosso presidente, não é bater na parede. É descobrir que a parede, bem olhada, sempre foi janela.
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* Link para as 44 frases do Dr. Hideki Wada: https://www.instagram.com/p/
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
