Brasília: uma miragem
Políticos e políticas passam; a negligência permanece, reeleita a cada legislatura quase compulsoriamente por unanimidade silenciosa
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SIGA NOTodas as vezes que venho a Brasília, um turbilhão de lembranças e sensações aflora em mim. E faço, com meus botões, a constatação íntima e básica: JK era muito louco. Ou muito “phoda”. Ou as duas coisas — porque, no Brasil, particularmente em Minas, a loucura e a ousadia costumam viajar no mesmo vagão.
Certa vez, fui acordado de madrugada pelo meu pai, em Ibiá. O motivo: encontrar um tal de JK na estação ferroviária. Eu não sabia a razão do encontro, nem quem era aquele ser pelo qual meu pai andava tão entusiasmado e por cuja causa eu teria de vestir roupa de domingo. Mas fui. Menino obedece; e, quando cresce, agradece.
Esperamos na plataforma, naquele frio da madrugada mineira que sobe dos trilhos antes do sol, até que veio o trem do homem. Assim que parou, meu pai se apresentou, e entramos no vagão-restaurante, que exalava cheiro de café recém-passado. O garçom, impecável em seu smoking branco, serviu-me chocolate quente e bolachas Maria — minhas preferidas até hoje. Há paladares que a vida não corrige.
Minutos depois, chegou aquele indivíduo alto, de sorriso aberto como quem pretende carregar o país inteiro nos dentes. Ele e meu pai se abraçaram como os velhos amigos. A faculdade e a medicina os uniu. Meu pai me apresentou, e o homem me ergueu do chão ao teto do vagão como um troféu. Lá de cima, vi minhas bolachas Maria ficando para trás, sobre a mesa, e não gostei. Talvez tenha sido a minha primeira lição de política: todo voo cobra seu preço, e quem sobe depressa demais perde de vista as pequenas doçuras que deixou na mesa.
Foi meu primeiro e último contato com JK. Depois, só com sua estátua, no memorial erguido em sua homenagem. Pensei em depositar aos pés dela um pacote de bolachas Maria, à guisa de oferenda e de acerto de contas. Mas não era o momento: Juscelino estava tomando banho de drone. Coisas da modernidade — um bando de drones lavava, em plena luz do dia, o bronze do idealizador da nossa capital. Nem nos seus delírios mais otimistas ele, que sonhou cinquenta anos em cinco, poderia vislumbrar cena tão futurista. Eu, muito menos. As bolachas Maria, essas, continuam sendo as minhas preferidas. As tecnologias mudam; a saudade, não.
Brasília me surpreende pelas distâncias e pela falta de esquinas. Tudo parece perto nessa cidade. Puro engano: não é. Saindo do hotel, mirei o Centro de Convenções e fui, a pé, como bom mineiro que desconfia de mapa e confia nas pernas. O sol a pino, logo nos primeiros 200 metros, avisou que aquela proximidade era pura miragem. Tudo parece ao alcance da mão, mas na verdade está tão distante quanto o restante do país que a rodeia. Cheguei ao Ulysses molhado de suor e com a careca ardendo — mas cheguei. Chegar suando é, talvez, a maneira mais honesta de se chegar a Brasília.
Brasília é uma ilusão. Uma miragem em todos os sentidos. O poder efêmero aqui parece eterno, mas acaba na esquina — justamente na esquina que não existe. Desconfio que a cidade foi desenhada sem esquinas por prudência: para que ninguém visse a hora exata em que o poder dobra e desaparece.
Aquele vagão em que entrei, numa manhã fria de Ibiá, levava bem mais que um homem: levava os sonhos de um país. Pergunto-me, hoje, em que estação esses sonhos desembarcaram — e se havia alguém à espera deles na plataforma, de roupa de domingo.
Estou aqui para discutir doenças tropicais. Na sua maioria, negligenciadas — como as pessoas acometidas por elas. "Doença negligenciada" é um eufemismo elegante: negligenciada é a gente que adoece longe dos holofotes, sem lobby, sem hashtag, sem drone que a banhe.
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Políticos e políticas passam; a negligência permanece, reeleita a cada legislatura quase compulsoriamente por unanimidade silenciosa. Aqui, o sol e as estrelas parecem estar ao alcance das mãos. Os discursos intermináveis, por vezes, ficam a anos-luz das laringes por onde passam.
E há uma razão íntima para que essas doenças me doam mais do que deviam. Minha mãe, Dona Maria — sim, Maria, como as bolachas —, era portadora de doença de Chagas. Um dia, numa casa de chão batido do interior de Minas, um barbeiro desceu da parede na calada da noite e lhe deixou, de graça, um hóspede para a vida inteira. O parasita morou no coração dela por décadas, discreto como costumam ser os males dos pobres. Carlos Chagas, outro mineiro, descreveu sozinho o vetor, o parasita e a doença — feito único na história da medicina. E, mais de um século depois, a doença que leva o seu nome continua esperando na plataforma, de roupa de domingo, um trem que não chega.
Dona Maria criou os quatro filhos, inclusive esse que vos escreve, seu temporão, rezou seus terços e serviu seus cafés com o coração compartilhado conosco e o parasita. Nunca reclamou do hóspede. Talvez porque coração de mãe sempre tenha lugar para mais um — ainda que seja um Tripanossoma.
É por ela que atravesso o cerrado a pé, suando, careca ardendo, atrás de gente com quem cerrar fileira para atravessar esse sertão sem fim que nos rodeia: de dentro para fora e de fora para dentro. Trago de matula, como quem porta um documento, um pacote de bolachas Maria. Se os discursos não ouvirem, deixo o pacote aos pés da estátua. JK entenderia: ele também sabia que um país não se constrói apenas de concreto e de drones, mas de meninos acordados de madrugada, de mães com o coração apertado e de sonhos que ainda aguardam, na plataforma, o apito de um trem.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
