Carlos Starling
Carlos Starling
SAÚDE em evidência

Crônica do vírus requentado

A História, que tem paciência de mineiro esperando café coar, anotou tudo, direitinho

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Há um bem-te-vi que canta toda manhã na minha janela, aqui em Belo Horizonte, e confesso que o invejo: ele não tem whatsapp nem outras redes sociais. Canta a mesma verdade de sempre — bem-te-vi, bem-te-vi — e ninguém o desmente, ninguém lhe manda vídeo de dois minutos gravado dentro de um carro por um sujeito que descobriu ornitologia semana passada. O passarinho tem esse luxo. Eu não tenho.

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Nas últimas semanas, voltaram a chegar até mim, requentadas no micro-ondas da má-fé, as velhas mentiras de 2020: que o vírus da China era gripezinha, que a vacina trazia um chip 5G, que o distanciamento era plano comunista para falir a churrascaria e promover o restaurante chinês. Fico pensando nesse chip — tão poderoso que nos controlaria a todos, tão discreto que nenhum microscópio do mundo jamais o encontrou. 

Em Ibiá, no Triângulo, a gente perguntaria baixinho: “Tem base?”. Não tem base nenhuma, uai. Mas o negacionista é uma criatura de fé robusta; acredita mais no áudio do cunhado que em todos os prêmios Nobel da medicina. E nisso há quase uma inocência, se a inocência não tivesse custado tantos atestados de óbito que tivemos que preencher e registrar em cartórios, antes de sepultar milhares de defuntos em vala comum, sem velórios e flores.

Meu amigo Afonso me disse, em conversa de boteco, que eu não deveria me ocupar dessas sandices; que o cronista deve falar da tarde, do vento e de uma mulher que passa, deixando perfume no ar. Ele tem razão, e eu queria concordar. Concordo e desobedeço. Acontece que sou infectologista e a minha tarde, o meu vento, as mulheres e seus aromas estiveram todos, um dia, dentro de um hospital lotado. O ofício não me deixa esquecer, e a crônica vai atrás, a reboque do ofício.

Sinto uma saudade estranha de coisas que não deviam voltar. Saudade de explicar que vermífugo é para verme — daí o nome, essa pista delicada que a bula oferece. Saudade do "ninguém morreu de COVID, morreu com COVID", como se ninguém jamais tivesse morrido de bala, apenas com bala. Saudade do tratamento precoce, aquele trem milagroso cuja única eficácia comprovada foi contra o estoque das farmácias.

E me pergunto, olhando o bem-te-vi, por que requentar isso agora. A resposta não está na ornitologia, nem na virologia; está na aritmética das urnas. O ex-presidente que tratou a pandemia como inconveniente de agenda está preso — não pelos mortos, diga-se, mas por tentar dar golpe de Estado, que em matéria de currículo o homem sempre foi expert. E o filho, ungido pelo pai, quer a Presidência. Como pedir voto carregando a gestão que o mundo estudou como contraexemplo? Ora: decreta-se que foi ótima, que os mortos são detalhe estatístico da esquerda.

Tenta-se apagar o passado como quem apaga conversa comprometedora. A necropolítica virou necromarketing, que chega a galope montado num corrupto Dark Horse. O golpe fracassou nas armas e agora tenta a sorte no algoritmo.

Mas a realidade é bicho teimoso, e deixou registro. O Imperial College — "globalista", que na boca deles quer dizer ‘instituição que sabe fazer conta’ — calculou que, se o Brasil tivesse seguido as estratégias de cidades como a nossa BH, teríamos cerca de meio milhão de mortes a menos. Vários “Mineirões” lotados. Eu vi de perto: aqui fechamos quando era preciso, abrimos quando era seguro, e fomos xingados todo santo dia por isso. 

Até hoje recebo mensagens provocativas, que não merecem resposta. Ditadores sanitários, nos chamavam, covardes de máscara. No fim, a cidade salvou vidas aos milhares enquanto o Planalto receitava cloroquina em cadeia nacional e imitava gente com falta de ar. A História, que tem paciência de mineiro esperando café coar, anotou tudo, direitinho. Mineiro que se preza não toma café requentado nem engole mentira reaquecida.

E o golpismo, esse hóspede antigo da nossa República, agora viaja de passaporte carimbado. A maior potência militar do planeta, regida pelo seu “trumpalhão-mor”, decidiu que a Justiça brasileira é assunto interno — dos Estados Unidos. Sancionar ministro, taxar o sapato de Nova Serrana, defender golpista alheio: virou política externa. Nos impuseram tarifas, querem agora nos impor um presidente, o qual as defendeu. 

Na atual gestão, o que é bom para os EUA, não é bom nem para os EUA, nem para o planeta inteiro. O imperialismo de antigamente ao menos fingia outros pretextos. E o vizinho argentino atrapalhado, de motosserra e cabelo em pane elétrica, aplaude, confundindo anarcocapitalismo com anarcocapilarismo. A dupla faz escola, e a escola já formou aluno: o sarampo, de que estávamos livres há décadas, graças às vacinas que essa gente difama, voltou a circular lá e cá. Nossos pais faziam fila para vacinar os filhos; certos netos fazem live para desvaciná-los. E o sarampo agradece, comovido com a hospitalidade. 

Enquanto isso, as vacinas, seguem trabalhando em silêncio: seis anos, bilhões de doses, a mortalidade despencando em cada país que vacinou em massa. E o negacionista com hálito de detergente, ainda espera, fiel, a mortandade prometida nos vídeos de 2021 — o apocalipse mais atrasado da história, remarcado mais vezes que fim do mundo de seita. Enquanto isso, os vacinados levam sua rotina insuportável de continuar vivos, pagando boleto e vendo o eclipse moral nas redes sociais. 

O bem-te-vi já se foi, e eu fico aqui pensando que escrevo, de novo, sobre assunto que adoraria aposentar. Mas a mentira requentada tem cheiro de estratégia, e a estratégia tem nome, sobrenome e número de urna: querem fazer da maior tragédia sanitária da nossa história uma nota de rodapé, para que o eleitor de 2026 esqueça quem debochou dos mortos quando cada dia chegou a custar mais de 4 mil vidas. Não esqueceremos. A memória, ao contrário do vírus, não sofre mutação adaptativa, nem por conveniência.

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E se algum leitor patriota discordar, apesar do analfabetismo oportunista, recomendo-lhe, de médico para paciente, um tratamento precoce que funciona: ler. Ler ciência, ler história, ler os autos do processo “mitológico”. A leitura não tem efeito colateral — salvo, talvez, uma súbita e incômoda crise de lucidez. Tem base? Tem, sô. Tem autos, laudos, seis anos de ciência — e um passarinho lá fora e aqui nessa crônica, cantando, sem fake news, a mesma verdade de todas as manhãs.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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